Ailton Villanova

24 de Março de 2016

Ah, bom! O Marido é solteiro!

     Dona Percilina Pereira Perdigão é uma balzaca bastante querida no bairro onde mora, que é o Farol. Dedicadíssima à igreja católica, vive a vida fazendo bem ao próximo, no melhor dos sentidos e intenções, que isso fique bem claro. Em síntese, é uma santa criatura.

      Mas, caro leitor, como não há bom sem defeito, essa incrível Percilina tem lá o seu defeitozinho, um defeitozinho simples: é muito desligada. Há épocas em que tem crises incríveis de alheamento.

       Santo dia dessas épocas críticas, ela se achava fazendo compras no supermercado, concentradíssima na operação quando, repentinamente, ao levantar a cabeça reparou na jovem que se achava ao seu lado, atenta aos produtos expostos na prateleira. Fez um ar de riso e comentou, com ar maternal:

       – Os preços voltaram a subir, você já reparou, minha filha?

       E a jovem:  

       – Já reparei, sim. A gente tem que escolher os produtos com bastante cuidado, pra não gastar muito…

       – Ah, isso é verdade.

       Dona Percilina fez uma pausa e atacou novamente:

       – E seu marido, minha filha, o que ele faz na vida?

       A jovem espantou-se com a pergunta da coroa:

       – Eu não tenho marido, senhora. Eu não sou casada!

       Dona Percilina não se encabulou com a mancada:

       – Ah, sim! Desculpe. Quer dizer que seu marido ainda é solteiro?

 

O fio era do pentelho!

     Bar do Rei, cujo dono é o Reinaldo Lucas, nunca está vazio. Vive sempre entupido de boêmios e biriteiros de todas as categorias, uma alegria só.

     Apesar de viver num ambiente onde só tem pecador, o velho Reinaldo se mantém firme e convicto na fé cristã. É evangélico e vai levando a vida numa boa, driblando abusos e arruaças de frequentadores fora do tom.       A turma costuma chamá-lo respeitosamente de “irmão Rei”.

      Numa certa ocasião, todo mundo bebendo e comendo numa “nice” quando, de repente, salta do seu canto um tal de “Cara Véia”, que berra:

      – Eita! Achei um cabelo no meu guisado!

      O dono da casa rebateu com veemência:

      – Impossível! Nosso cozinheiro é careca!

      O freguês contraatacou:

      – Ah, então é do pentelho!

 

Um “sutil” comunicado de morte

     Técnico em hidráulica havido como competente, o Glifaldo era um sujeito alegre, descontraído e chegado a uma “caninha”. Nos finais de semana ele deitava e rolava nas farras, juntamente com os amigos Pituélvio, Carolino e Betulíneo.

      Era sempre a mesma patota.

      O quarteto montava no carango do Glifaldo e virava a cidade. Onde havia um bar dando sopa eles embocavam. Certa noite, quando farreavam num boteco do subúrbio, Glifaldo passou mal e bateu as botas ali mesmo.

      – E agora? – preocupou-se o Pituélvio. – Como é que a gente vai comunicar à viúva.

      – Sei não. – respondeu Carolino.

      Saltou o Betulíneo e sugeriu:

      – Acho que o cara mais desenrolado aqui da turma é você, Pituélvio.

      Todos concordaram e o amigão foi em frente para dar a infausta notícia na casa do finado, com a recomendação de que fosse bastante sucinto e extremamente sutil.

       Na hora em que o corpo do inditoso dava entrada no IML, Pituélvio batia na porta do indigitado.

       Dona Cariolina atendeu:

       – O que deseja, moço?

       E o Pituélvio, com o maior bafo:

       – Por acaso estou falando com a viúva do Glifaldo?

       E a madame:

       – Viúva, não! Es-po-sa! Eu sou a esposa do Glifaldo e não a viúva!

       – Ah, não? Espere só quando ligarem do IML!

 

Presente purgativo

     O sujeito entrou na loja de propriedade do empresário Oridesbânio Ferroso, localizada na aprazível orla marítima, e foi direto ao assunto que o levara até lá:

     – Gostaria de ver um artigo para presente!

     E o lojista, todo cheio de gentileza:

     – Posso saber a que pessoa se destina?

     – É pra minha noiva, que está aniversariando!

     O dono da loja pegou uma caixa na prateleira mais próxima, retirou dela vários colares e os exibiu para o freguês. Ele escolheu um que tinha a cor azul e perguntou:

      – Quanto custa este aqui?

      – Custa 50 reais.

      – Tá caro!

      O comerciante insistiu com outra mercadoria:

      – Temos estes brincos… Veja como são lindos!

      – E o preço?

      – É precinho de ocasião: 20 reais.

      – Também está além das minhas possibilidades. Eu quero alguma coisa mais baratinha e que faça bastante efeito, entende?

      – Aaahhh, bastante efeito, hein? Pelo preço que você quer pagar, só você indo ali na farmácia da esquina e comprando uma limonada purgativa!

 

Pior a emenda que o soneto

     Beneplácido e Austruérzia constituem uma singular e divertida dupla. Casados há bastante tempo, costumam sair juntos para beber e jantar, nos finais de semana. Só que da última vez que os dois saíram para farrear, foram além dos limites e quem entrou pelo cano foi o marido.

     Depois de encherem a cara adoidado, marido e mulher resolveram voltar pra casa quando o dia já começava a raiar. Beneplácido dirigia o carro com a venta colada no para-brisa, para poder enxergar o caminho direito, porque a vista estava anuviada em consequência dos vapores álcoolíferos emanados da cuca.

      Na primeira esquina que entraram deram de cara com uma blitze policial. Foi nessa hora que Beneplácido se lembrou que havia deixado em casa os documentos do carro e a carteira de motorista. Aí, falou baixinho pra mulher:

      – Estamos lascados, meu amor!

       Mal acabou o cara de falar, encostou um guarda:

       – Olha… o senhor prossiga dirigindo devagar pela faixa da direita, porque houve um acidente ali adiante.

       Beneplácido respirou aliviado:

       – Puxa, meu amigo, o senhor me deu um susto danado! Pensei que ia me pedir os documentos…

       Nesse momento, a mulher, achou de se meter na conversa, na tentativa de livrar o marido de algum embaraço. Aí, complicou a vida do infeliz:

        – Olha, seu guarda, não ligue para o que diz o meu marido. Este homem quando bebe não sabe o que fala!

        Austruérzia voltou pra casa de taxi. Beneplácido ficou preso, com carro e tudo!     

 

Matada a charada!

     O advogado Anafilaldo encontrava-se reunido com dois sócios quando o telefone tocou na sua mesa de trabalho. Ele atendeu e do outro lado da linha a mulher disparou:

      – Sabe o que o Naldinho fez, meu amor?

      – Nem imagino!

      – Ontem ele encheu de verniz o pote do meu desodorante íntimo. Só agora é que vim descobrir!

      – Ah, então é por isso…

      – “Por isso” o quê, meu amor?

      – É que aqui a turma está dizendo que eu estou com o bigode lustroso! Agora tá explicado!