Ailton Villanova

12 de Março de 2016

Solução imediata

     O “Recanto do Carangueijo” era um bar e restaurante localizado na partre da mais encardida da Levada, a indefectível Brejal. Melhor lhe caberia o título “Recanto dos Biriteiros”, porque só era frequentado por pinguiços da região e adjacências. Até o dono do estabelecimento, um tal de Zezinho Pirrita não fogia à regra. Além de biriteiro, Pirrita era doido varrido.

     Certa noite, nos idos de 1970, um grupo de policiais civís do 1° Distrito da Capital, que fazia ronda na Brejal decidiu entrar na birosca, para ver se tudo estava em ordem por lá. Pirrita recebeu os agentes da lei cheio de cortesia:

     – Uqui as auturidade vai querê?

     E o chefe do grupo, que era o agente Renan Belo:

     – Não vamos querer nada. Estamos aqui a serviço.

     E Pirrita, insistente:

     – Eu seio qui a turma estão de selviço… Mas num vão quererem nem uma sopinha de caranguêjo, a ispicialidade da casa?

     No que ouviu falar em sopa de carangueijo, o motorista do camburão soltou o verbo:

     – Sopa de carangueijo! Você me desculpe, chefe Renan, mas essa eu não vou deixar passar.

     E o Renan:

     – Você quer morrer com as tripas destrambelhas, condenado?

     O agente-motorista não a menor bola pro superior hierárquico e sentou à mesa. Pirrita despejou no seu prato uma água esverdeada e completou:

     – Esta é a mais milhó sopa do Brazíu!

     E o policial, sob o olhar incrédulo e preocupado dos colegas – chilep, chilep, chilep… – tomando a sopa. De repente, ele fez uma careta, levantou a cabeça e gritou pro Pirrita:

     – Ei, rapaz, vem cá!

     Pirrita chegou junto:

     – Pronto chefia.

     – Tem uma mosca aqui na sopa, ó!

     O dono da casa não falou nada. Girou nos calcanhares e disparou para a cozinha. Num instantinho estava de volta com um spray de inseticida na mão. O policial indagou espantado:

     – Que diabo é isso?

     – Fique frio, chefia!

     Pirrita mirou no prato e acionou o botão do spray – pfiiiiisssst! Em seguida, meteu a mão dentro do prato, pegou a mosca pelas asas e jogou longe. Feito isso, respirou fundo, abriu na cara um riso triunfal e perguntou ao atônito policial:

     – Mais alguma coisa, chefia?

 

 

O mergulho era outro!

 

     Operária da fábrica Alexandria, do Bom Parto, dona Epitácia tinha uma grande preocupação na vida: o filho Epigástrio, que já nasceu pirado. A medida que ia crescendo, mas doido o infeliz ia ficando. Mil “aprontações” para desespero da coitada da mãe.

      Quando atingiu a idade adulta, o Epigástrio ainda não tinha melhorado em nada. De modo que a desesperada mãe teve de procurar ajuda psiquiátrica pro filho que, felizmente, nunca foi de agredir ninguém.

      O doutor escutou as lamentações de dona Epitácia e falou pra ela:

      – Traga o seu filho ao meu consultório amanhã, sem falta. Vou ver o que poderei fazer por ele.

      – Deus lhe pague, doutor!

      E Epigástrio foi ter com o doutor. Meia hora depois, saiu do consultório tranquilo e calmo. Dia seguinte, ele estava de volta, bastante diferente. Vestia uma roupa de mergulhador e calçava sapatos pés de pato de nadador.

      – Pronto, doutor… Eu não falei que vinha? Olhe eu aqui!

      O psiquiatra olhou bem para a figura diante de si e retrucou:

      – Ô Epigástrio, eu acho que você não me entendeu bem. Eu lhe disse que para voltar hoje aqui, a fim de darmos um MERGULHO… no seu SUBCONSCIENTE!

 

 

Festa providencial

 

      Altamente biritado, o popular Astrorimaldo voltava, a pé, pra casa, no Vergel do Lago. Tinha comido um sarapetel gordurosíssimo, à guisa de tira-gosto. Seus intestinos estavam virados no cão.

      Ao passar por determinada artéria do bairro do Prado, Astrorimaldo deparou-se com uma festança bastante animada. No que se aproximou da entrada para espiar melhor, foi obstado por um sujeito parrudo, cheio de direito. Era o segurança:

     – Pra onde vai, meu?

     – Só tô querendo dar uma espiada, posso? – respondeu o Astrorimaldo.

     – Pode não! Aqui é uma festa privada.

     Aí, Astrorimaldo alegrou-se:

     – Jóia, bicho! Eu estava precisando mesmo de uma privada. Tô com uma dor de barriga filha da égua! Pode ir saindo da frente!

     Em consequência do tabefe que levou, cagou-se alí mesmo!

 

 

A cara do pai!

 

     Juninho, filho caçula do radialista José Bartolomeu – o Babá das cabrochas sessentonas -, abordou o pai quando este estava de retornou ao lar:

     – Painho, um coleguinha da minha classe lhe viu ontem, quando você foi me levar na escola …

     E o Babá:

     – Viu, foi?

     – Foi, painho. Sabe o que ele disse?

     – Não. Mas gostaria de saber.

     – Ele disse que eu sou a sua cara!

     – E você o que respondeu, meu filho?

     – Eu? Nada. E eu tô doido, paínho! Ele é campeão de Karatê!

 

 

Boa pra cachorro!

 

     Há duas classificações pro cara que se lança à aventura de pegar um rango na Feira do Rato, na Levada: ou ele é doido, ou corajoso demais.

      No caso específico do Berenogaldo, esse pode ser considerado doido mesmo. Aliás, a garantia é dada pelo seu primo e parceiro de biritagem Algaróbio “Carrapato”.

      Dia desses os dois cismaram de tomar umas cachaças num dos incontáveis botecos da Levada. Tomaram todas. Lá pelas tantas, mais pra lá do que pra cá, o Berenogaldo falou pro parceiro:

      – Primo, topas pegar um mocotó na birosca do Cidão, na Feira do Rato?

      – Topo não, primo véio. O meu bucho tá em vias de explodir de tanta cachaça. Mas, se você quiser, eu lhe faço companhia. Fico só espiando você comer, tá bom assim?

      – Tá certo.

      E lá se foi a dupla. Logo chegou ao Bar do Cidão. Os primos pegaram uma mesa balança-mas-não-cai, sentaram em redor dela e o Berenogaldo falou pro garçom:

      – Tem um mocotozinho aí, meu chapa?

      – Tem. Ora se tem! Mocotó à moda da casa.

      – Então, manda!

      O garçom levou a comida até o freguês, que chamou o “par de queixos” pra frente. Quando acabou, bateu na pança, deu um arroto devastador e disse pro garçom:

      – Parabéns, bicho! O mocotó tava bom pra cachorro!

      E o garçom:

      – E era de cachorro mesmo!