Ailton Villanova

2 de Março de 2016

Onde está Deus?

     Frei Olegário era um homem austero e disciplinador por excelência. Alto, media lá os seus quase dois metros de tamanho. A voz era de barítono. Tinha sobrancelhas grossas e assanhadas, que eram aparadas todas as vezes que ele ia ao barbeiro Getúlio, para ajeitar a longa e bem tratada barba.

     Frei Olegário parecia um daqueles gigantes das historinhas de Walt Disney. No começo de sua longa carreira sacerdotal ele foi designado para servir numa paróquia longínqua do interior pernambucano. Alto Sertão, melhor esclarecendo. Na circunscrição dessa paróquia existia um fazendeiro chamado “major” Ezíquio Pereira, que possuía dois filhos danados: Aurélio e Alcides, de 10 e 8 anos de idade, respectivamente. Apesar da brabeza, major Ezíquio não conseguia discipliná-los. A mãe, dona Cândida, muito menos. Até que frei Olegário surgiu no cenário, como salvação para as pequenas e trelosas almas.

     Através do pároco anterior, Major Ezíquio ficou sabendo que o novo titular da paróquia era muito bom no trato com crianças levadas. Então, procurou-o na sacristia, contou o seu drama e concluiu e apelando:  

     – Só o senhor pode dar um jeito nos meus meninos, frei…!

     – Vamos ver isso. Traga-os aqui, um e, depois, o outro. Quero conversar com eles em separado.

     – Seja duro com eles, viu frei?

     – Pode deixar.

     O pai mandou o primeiro filho conversar com o frade. Com aquela sua voz de trovão, frei Olegário perguntou ao menino:

     – Onde está Deus?

     O garoto abriu a boca, mas não conseguiu articular uma só palavra. Ficou embasbacado. O reverendo repetiu a pergunta:

     – Onde está Deus, menino?

     Cadê que o garoto conseguia falar! A figura do frade impressionava.

     – Eu lhe fiz uma pergunta, garoto! Responda: onde está Deus?

     Menino Aurélio apavorou-se. Girou nos calcanhares e disparou porta afora. Entrou em casa que nem um bólido e trancou-se no armário. O irmão mais novo correu atrás dele para saber o que estava acontecendo:

     – O que foi que houve, Lelo?

     E Aurélio, tentando recuperar o fôlego:

     – Desta vez estamos encrencados, maninho! Deus sumiu e o frei acha que a culpa é da gente!

 

Pecado e limão não combinam

     Padre Nildo era, indiscutivelmente, um sábio. Talqualmente frei Olegário, era um disciplinador de almas. Nildo também sabia ser irônico quando o momento lhe apetecia.

     Numa tarde de sábado, ele se achava de olho pregado no Breviário, espichado numa confortável poltrona, instalada na sacristia de sua paróquia, quando, de repente, ingressou no ambiente uma jovem elegante e bonita, integrante de uma das mais tradicionais famílias da cidade . Ela parou diante do reverendo e, muito naturalmente, revelou:

     – Padre, eu pequei ontem à noite! Gostaria que o senhor me perdoasse…

     Nildo fechou o Breviário, olhou para a garota e perguntou:

     – E qual foi o seu pecado, minha filha?

     – Eu fiz amor com o meu namorado…

     Padre Nildo pensou um pouco e disse:

     – Pegue sete limões e esprema-os bem. Em seguida tome o suco, sem açúcar.

     – E isso me livra mesmo do pecado?

     – Não, não livra. Mas pelo menos tira esse ar de felicidade da sua cara!

 

Ooohhh! Que decepção!

     Naquele colégio interno só de cocotinhas, a madre diretora chegou para um grupo delas, que se achava no recreio, e anunciou:

     – Meninas! Hoje no almoço teremos bananas de sobremesa.

     E todas as internas clamaram:

     – Oooobbbaaa!

    Então, a diretora acrescentou:

    – Em rodelas!

    – Ooohhh…

 

Gemaaadaaaiiii!

          Dona Neuribálzia recepcionava uma visita, conversando com esta na sala destinada a essas ocasiões. Traduzia-se, a visita, na pessoa de dona Baltrúzia, amigona do peito da anfitriã. A certa altura do animado papo das madames, ouviu-se o berro oriundo da cozinha:

           – Neuribááááálllziaaa!

           Era  Agatenor, o agoniado marido da dona da casa.

           – Neuribálzia, como é que eu faço uma gemada?

          Madame interrompeu o papo, com um pedido de licença à amiga, e respondeu:

        – Você bota os ovos no liquidificador e aperta o botão!

        Segundos depois, ouviu-se o grito lancinante, partido da cozinha:

       – Aaaaaaiiiiii!!!   

 

Ela descobriu tudo!

     Num cantinho do bar, um certo Erbinaldo Beberibe enchia a cara e suspirava entre lágrimas e arrotos.

     – Próximo dele, outro habituê da casa, claramente sóbrio, o observava em silêncio. Daí a pouco, levantou-se e foi até o chorão, cheio de curiosidade:

     – Posso fazer alguma coisa pelo amigo?

     E o Erbinaldo:

     – Pode não, meu! Ninguém pode fazer nada por mim!

    – Mas por quê?

    – Perdi tudo! Eu tinha dinheiro, uma casa bonita, um carro do ano, o amor de uma mulher lindíssima e gostosa… Snif… e então, tudo acabou de repente!

     – Não me diga que perdeu tudo no jogo!

     – Nada disso.  A filha da puta da minha mulher descobriu…

 

O perigo é outro!

     O colega Geraldo Menezes, o Escurinho, alagoano de Maceió, perito criminal em Curitiba, no Paraná, é um tremendo mulherengo. Já casou mil vezes! Quando morava no Alto da Conceição, bairro do Farol, isso nos idos dos anos 60, ele arrumou uma namorada chamada Ivone, linda morena residente no Bom Parto. Apaixonado pela garota e cheio de boas intenções, ele procurou o pai dela, seu Antenor Tenório, e pediu o seu consentimento para leva-la a um passeio ali por perto, mais precisamente na Praça do Centenário.

      O velho foi curto e grosso na negativa:

      – Nada disso!

     – Mas seu Antenor, qual é o problema eu sair com a Ivone? Eu não vou tirar nenhum pedaço dela!

     – O problema não é tirar um pedaço, rapaz! O problema é botar!