Ailton Villanova

21 de Fevereiro de 2016

Sempre vivo na memória

 nunca teve um lapso de memória, mesmo uma vezinha na vida, que atire a primeira pedra. A todo mundo, incluindo aí os imortais, é dado o direito de um esquecimentozinho aqui, outro alí…

       Pois o imortal e saudoso Floriano Ivo Jr, honra e glória do nosso jornalismo, eis que igualmente orgulho da advocacia alagoana, herói da Força Expedicinária Brasileira (FEB) nos campos de batalha de Monte Castelo (Itália), também foi traído pela memória. Mas saiu-se lampeiro. O velho Floro era um homem sagaz. Possuia uma incomum presença de espírito.

      Autor de grandes obras literárias, inclusive no ramo do Direito, o boníssimo Floro foi um azulino roxo (vocês já viram azulino roxo?). Quer dizer, torcedor apaixonado pelo Centro Sportivo Alagoano, do qual foi conselheiro nato.

      Faz alguns anos. No dia em que a família azulina se reuniu no Mutange para reconduzir Euclydes de Mello à presidência do CSA, nosso Floriano encontrava-se na primeira filados votantes. E Euclydes foi reeleito pela unanimidade dos conselheiros.

      Concluído o processo aclamatório, Floriano Ivo, exímio orador, foi instado pelos demais conselheiros a fazer uma saudação ao presidente reconduzido. Não se fez de rogado.  Temperou a goela e sapecou o verbo.

      A cada pausa que fazia para respirar, Floriano era aplaudido. E lá se foi enveredando pela história do CSA. Recordou os grandes feitos do clube e não esqueceu de render sua homenagem à memória de azulinos históricos do passado. Floro estava inspiradíssimo!

      A seguir, passou a referir-se elogiosamente aos ex-comandantes azulinos que integravam a galeria dos vivos. Foi nesse ponto que a memória o traiu.

      – … e dentre esses, destaco o honrado e ilustre companheiro João Alves.

      Aí, alguém da plateia, querendo ajudá-lo, entendeu de interferir no seu discurso:

      – O João Alves já morreu, doutor Floriano!

      Floro não se alterou. Deu uma paradinha na falação e, sereno como sempre, retrucou:

      – João Alves morreu para você, que é um azulino ingrato. Para mim, ele continua vivo!

       Foi aplaudido de pé.

 

Problema é o pescoço! 

      Homem simples, Amaro da Purificação venceu na vida unicamente à custa dos seus esforços e sacrifícios. Não deve nada a ninguém. O patrimônio que possui – um casarão bem arejado, uma fazenda e um armazém de secos e molhados -, ele conseguiu trabalhando honestamente no campo, de manhã, de tarde e, muitas vezes à noite.

      Mas achava que não tinha tudo. Sonhava possuir ainda um carro importado, desses que a gente vê nas revistas, no cinema ou nos comerciais de televisão.

      Amaro nunca aprendeu a ler. É do tipo ignorantão, mais grosso do que solado de botina de bombeiro.

      Um dia, se deu conta de que já estava preparado para adquirir o seu carrão. Pagou a um instrutor e aprendeu a dirigir. Problema seria tirar a carteira de habilitação no Detran. Mas esse era assunto para ser resolvido depois.

      Quando achou que estava pronto para encarar um volante pelas ruas da cidade, Amaro meteu um monte de dinheiro no bolso e se mandou para a agência de veículos importados. Chegou lá, escolheu o automóvel mais bonito e caro, encostou no gerente e falou pra ele de peito estufado:

      – A pecinha aí é istrangêra mermo?

      E o gerente?

      – É uma BMW. Máquina quentíssima!

      – Já vi fala. Quanto é?

      O gerente, moço distinto, tinha que cumprir o seu papel, informando ao candidato a comprador, tudo a respeito do automóvel. Abriu o bichão, e começou a demonstrar como ele funcionava:

      – É todo automático. É uma beleza!

      Em seguida, engatou a marcha de partida e saiu em linha reta pelo pátio da loja. Parou no portão, engrenou a ré, botou a cabeça do lado de fora, sempre olhando para trás, e voltou ao ponto de partida.

       – Viu só, meu amigo? Para a frente e para trás…!

       Amaro ficou encantado:

       – Negócio fechado!

       Pagou o automóvel com dinheiro vivo e já saiu da agência, todo ancho, pilotando a máquina.

       Duas horas depois, olha ele de volta à concessionária:

        Vim devorvê o carro!

        O gerente espantou-se:

        – Mas por quê?! Algum defeito?

        – Não, não. O motô é munto bom, o freio tomem é, a buzina jóia! Mas tem um pobreminha…

      – Probleminha?!

      – É qui pra ír pra frente, ele vai munto bem, mas pra vortá pra tráis num tem pescoço qui aguente!