Ailton Villanova

20 de Fevereiro de 2016

Acudam! Prenderam o Jesus!

      Durante quase um século viveu em Serra Talhada uma senhora muito religiosa chamada Almerinda Tercila Bezerra, bisavó, por parte de mãe, dos médicos Latércio e Lupércio Villanova. Além de ligadíssima à igreja católica, dona Almerinda era professora primária aposentada. Foi ela que quem inventou no Agreste pernambucano a encenação, ao vivo, da “Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”. A partir de então, essas encenações se tornaram comuns no interior daquele estado.

       Os cenários do drama da Paixão de Cristo eram, alguns deles, naturais. Outros, improvisados. Espalhavam-se pela cidade, que produzia os atores. A cada ano que se passava, mais melhorava o exercício teatral, para satisfação e orgulho de dona Almerinda.

        Lá se foram os anos e a nobre senhora mais apaixonada pela peça dramática. Numa de suas últimas apresentações, incluíram uma figura muito popular em Serra Talhada, o vigia noturno chamado Manuel de Jesus, ou simplesmente Jesus. Ele estrearia como ator, representando o importante papel de centurião. Ocorre que nesse dia ele bebeu demais “para tirar o nervoso”, deu uma alteração no bar e teve de ser preso. Foi substituído de última hora pelo barbeiro Lucindo Beberibe.

         E chegou o momento da encenação. A cidade em peso acompanhava as dramáticas cenas do grandioso espetáculo. E dona Almerinda ora se agachava, ora ficava na ponta dos pés. Às vezes, sacudia a cabeça inconformada, deixando transparecer frustração. O cenário não estava de acordo com o que ela estava acostumada a ver. Ademais, com aquele monte de gente na sua frente, não dava para ver a figura do Cristo. Em dado momento, perdeu a paciência e chegou pro camarada que tomava conta do palco central, para que ninguém o invadisse, e perguntou:

          – Ô meu filho, cadê o Jesus? Não estou vendo o Jesus!

          E o funcionário pensando que ela estava se referindo ao vigilante Manuel de Jesus, respondeu:

          – Ah, a senhora não está sabendo, não?

          – Não estou sabendo o quê, meu santo?

          – O Jesus foi preso!

          – O quê?

          – É, professora Almerinda. Ele foi preso hoje à tarde, no bar do seu Altivo.

          Foi nessa hora que a sempre gentil, pacata e educada Almerinda  Bezerra perdeu a estribeira. Revoltadíssima, subiu ao palco e bradou a plenos pulmões:

           – Atenção, minha gente! Prenderam o Jesus na cadeia da cidade! Isso é uma blasfêmia, minha gente! Vamos libertá-lo!

            Formou-se, então, o maior tumulto e o espetáculo terminou com a invasão da cadeia, por uma multidão de fanáticos, liderados por dona Almerinda. Nessa hora ela se deu conta da mancada que protagonizara, ao constatar que o Jesus encarcerado era outro.

 

Pais inocentes

      Bonitinha, perninhas rolicinhas, carinha linda e corpinho maravilhosamente sensacional, a avançadinha Graziela arribou do interior do estado e veio parar na capital, com uma ideia fixa na cachola: vencer de qualquer jeito.

       Seus pais, embora saudosos, ficaram lá torcendo pelo sucesso da garota. Mês e pouco depois, eles receberam a primeira cartinha da filha querida.

        Lágrimas de saudade descendo pela cara, a mãe sintetizando para o marido o que estava escrito:

           – A Graziela diz aqui que arranjou um bom emprego, numa casa de… de… Bem, parece que é uma casa de mensagens.

           E o pai, compreensivo, justificando:

           – Pois é. Na capital é assim. As pessoas não têm tempo de falar direito com as outras. Por isso, elas têm casas especializadas em dar recados.

           – E é?

           – É. Nossa filha diz aí quanto estão pagando pra ela?

           E a mãe:

          – É isso que eu não estou entendendo direito. Ela diz aqui que se usar a mão pra mensagem, ganha 100 cruzeiros. Mas ganha 200 se usar a boca…!

 

Eita freiozinho malvado!

      O agricultor Felisdório Octacílio andou léguas, desde os cafundós das lonjuras de Delmiro Gouveia, encravada no Alto Sertão alagoano, até a beira da BR, onde se sentou e ficou aguardando condução à cidade de Arapiraca. Ao seu lado, o cachorrinho de estimação intitulado Bidé. Vários carros passaram e nada dos condutores darem atenção ao pobre cristão e à seu animalzinho. Até que um caminhão e parou lá. O chofer dispôs-se a lhe dar uma carona com a seguinte condição: o cão ficaria de fora.

       – Mas o Bidé é mansinho, seu moço! – explicou o matuto.

       O motorista foi curto e grosso:

        – Nesse carro não anda sarnento nenhum! Se o senhor quiser a carona terá que ser sem o cachorro. Quer?

        O velho quis. Mas o animal, muito esperto, foi acompanhando o autocarga, correndo pelo acostamento.

          Quilômetros adiante, o motorista olhou pra fora e viu o danadinho disparado pelo acostamento, quase emparelhando com o caminhão. O velocímetro deste marcava 100 Km/h. Para testar a resistência do cachorro – e também por maldade -, o motorista encarcou o pé no acelerador. E o Bidé, ó, linguinha de fora, alí do lado, segurando a barra.

            O filho da mãe do chofer afundou ainda mais o pé no acelerador: 120 Km/h. E o cãozinho colado, do lado.

            Cento e cinquenta Km/h e não deu outra: o caminhão acabou sobrando numa curva e capotou sucessivas vezes, desmantelando-se todo. Sorte que o motorista e o caroneiro Felisdório escaparam vivos. O matuto não ficou internado porque só teve alguns arranhões. Mas o motorista, este quebrou as canelas, os braços, algumas costelas e todos os dentes da frente.

              Semanas mais tarde, seu Felisdório recebeu autorização para visitar o motorista, no hospital regional de Arapiraca. Chegou lá puxando o Bidé pela corrente.

              – Vim visitá o amigo! Tá mais milhozinho?

              – Tô! – gemeu o cara.

              – Eu truxe o meu cachorrinho Bidé pra mode lhe visitá tomém. Óia ele aqui! Tá vendo o Bidé?

              O motorista assentiu e falou com alguma dificuldade:

              – Ah, não foi esse daí o cachorro que acompanhou o caminhão! Eu me lembro muito bem que o animal que tava correndo ao lado do caminhão não tinha essa marca preta no pescoço!

              E o matuto:

              – E num tinha mermo, não! Mas adonde é qui o sinhô pensa que vai pará o cu de um cachorro que freia a 150 quilômbro puróra?