Ailton Villanova

19 de Fevereiro de 2016

A mancada do “doutor”

      Dentre aqueles que atuaram na Rádio Progresso de Alagoas dos velhos e bons tempos, não há quem não tenha guardada na memória a bizarra figura do “Doutor”. Baixinho, andar trôpego, olhos sempre vermelhos, míope que nem uma toupeira.

      Queridíssimo do pessoal da emissora, Doutor era uma espécie de faz-tudo na Progresso, desde que o trabalho não exigisse muito da sua massa cinzenta. Raciocinar não era o forte do Doutor. De modo que nas atividades menos categorizadas da rádio, ela era primeiro-sem-segundo. Atacava com a mesma determinação e competência as funções de contínuo, porteiro, mensageiro, auxiliar de faixineiro, cobrador, vigia…

       O saudoso Edécio Lopes, seu antigo diretor, costumava dizer que o doutor era que nem pneu: só trabalhava “calibrado”.

      Doutor continua constituindo o mais absoluto desafio à ciência. Começou a beber na infância e não parou mais. Não há esculápio neste mundo que, por mais competente seja, consegue explicar como o fígado dele ainda continua inteiro. Outros cristãos tentaram acompanhar a sua performance alcoolífera e já esticaram as canelas faz tempo.

      O título honorífico de Doutor, ele recebeu quando, certa feita, em meio a uma discussão etílica ele bateu no peito e exclamou:

      – Em matéria de assuntos cachacíferos eu sou Doutor!

      Todo mundo concordou e o apelido ficou. Não me pergunte como é o seu verdadeiro nome, porque não sei. Quem com ele conviveu, como eu, na antiga Rádio Progresso, tem a mesma resposta. Ninguém sabe o nome de batismo do Doutor (cogita-se que seu prenome seja José) e ele próprio faz questão de não revelar.

       Aposentado há algum tempo, Doutor sumiu do mapa. Nos tempos da emissora da Praça dos Palmares, seu desjejum invariavelmente era meio copo de cachaça e uma cajarana. Quando não havia cajarana, a falta era suprida com banana, ou pitomba. Daí pra frente, em todo boteco que encontrava pela frente ele parava para tomar uma birita. E nada de chegar à penúltima.   

      Tirando o defeito da bebedice compulsiva, esse guerreiro sempre foi um sujeito legal. Uma pessoa do bem, mesmo. Humilde, jamais constituiu motivo de aborrecimento para os companheiros de trabalho. Também nunca foi de cair bêbado na rua. Sua embriagues, por incrível possa parecer, sempre teve limite. Aliás, limite que ele jamais impôs. A própria natureza é que sempre determinou o “basta” na sua biritagem.

                                                     ***

      Durante anos, a Rádio Progresso funcionou no último andar do Edifício Ary Pitombo, na Praça dos Palmares. Quando os elevadores do prédio pifavam, o sufoco era grande. Subir e descer dez andares no amor febril significava o mais atroz dos castigos. Mas, para o Doutor, isso não constituía problema algum. Ele subia e descia a quilométrica escadaria numa boa.

      Do primeiro ao nono andar funcionavam repartições do antigo Ipase: perícia, médica, ambulatórios, clínicas médica e odontológica, além dos setores burocráticos e administração. Nesse mundão todo, Doutor era bastante festejado.

      Num dia de segunda-feira, o velho Olegário, porteiro do penúltimo andar (no último funcionava a Progresso), necessitava ausentar-se temporariamente do serviço para resolver um problema particular no Comércio. Procurava alguém que o substituísse no serviço quando deu de cara com o Doutor que, de folga, zanzava pelos corredores do edifício. Aí, pediu-lhe a gentileza de ficar no seu posto, “por um instantinho só”, enquanto “ía ali e voltava logo”. Doutor ficou, porque nunca foi de negar favor a ninguém, muito menos a um amigo.

       – Vá tranquilo e com Deus, seu Olegário! – desejou-lhe Doutor.

       No penúltimo andar, a clínica do Ipase tomava o ambiente inteiro. Vivia entupida de gente. Filas enormes diante dos guichês das fichas para consulta médica. Em dado momento, abriu-se a porta do elevador e de dentrou saiu um velhinho segurando a barriga e caminhando com alguma dificuldade.

      – Cadê o dotô, ele tá? – perguntou, aperreado.

      Lá de um cantinho, alguém levantou o braço e respondeu:

      – Eu tô aqui!

      O velhusco aproximou-se todo encolhidinho, mal podendo andar:

       – Me salve, doutor! Tô com uma caganeira infeliz! Faz mais ou menos uns três dias que eu tô mijando pelo fiofó, que nem pato!

       O pessoal da fila, maioria gente aposentada, lascada da vida, espiava compadecida para o velho. Aí, Doutor assumiu pose de facultativo, temperou a goela e indagou, com o maior bafo:

        – O senhor num parou de cagar nem um minuto?

        – Parei não, doutor! Num aguento mais!

        Para não passar em baixo diante da plateia, desde que havia sido identificado como “doutor” , o radialista não se fez de rogado:

       – Tome um vidro de “Ducoláquis”!

       – Duco… Como, doutor? – indagou o velho, todo atrapalhado.

       – Ducoláquis. Esse é bom demais! Já tomei muito!

       – Dá pro senhor anotar direitinho no papel?

       Escrever não era com ele. Então, disfarçou. Começou a mexer nos bolsos, coçou a cabeça e finalmente desculpou-se:

      – Agora não dá! Tô sem os meus óculos e sem o caderninho de receita.

      Aí, uma mocinha que acompanhava uma velhota que estava na fila, interferiu no papo:

      – Eu tenho papel e caneta aqui, moço! Quer que eu anote?

      Ambos, “paciente” e o falso médico concordaram e a garota escreveu bem legível e certinho, com letrinha de forma: Dulcolax.

       Com mil agradecimentos, o velho girou nos calcanhares e foi embora.

                                                         ***

        Decorridos mais ou menos dois meses desse episódio, o tal velhinho voltou à clínica médica do Ipase. Mal se punha de pé, coitado. Estava acabado, mais parecendo um cadáver. Caminhava amparado por dois sujeitos parrudos.

       – Cadê o canalha do doutor que tentou assassinar o nosso pai? – berrou um deles.

        E quem era maluco dedurar o Doutor?

        Seu Olegário, que sabia da história, foi corajoso:

        – Esse doutor não trabalha mais aqui.

        – E pra onde ele foi?

        – Ele foi transferido pro Maranhão!

        Doutor havia escapado de uma boa. A sua irresponsabilidade quase matou o velhinho. O remédio que havia “receitado” para o infeliz é conhecidíssimo pela sua eficiência na abertura das comportas anais até de elefante. Não há fiofó que resista.

        Contam que o ancião quase morreu derretido de tanto fazer cocô. Ele havia seguido à risca a recomendação do falso médico. Dizem que foi salvo por um milagre atribuído ao Padre Cícero.