Ailton Villanova

18 de Fevereiro de 2016

Fogo por baixo

     Antes de fechar definitivamente suas portas, o Cine Ideal, que pertenceu a uma das maiores empresas de diversões do pais – a Luiz Severiano Ribeiro Ltda – , passou um tempão somente exibindo películas pornôs. Era cada uma mais safada que a outra. Tinha dias que o pessoal da limpeza trabalhava dobrado ao final da última sessão, que começava às 21 horas. Infinitilhões de espermatozóides jogados fora!

     O Cine Ideal ficava no bairro da Levada, mais precisamente na rua 16 de setembro. Uma de suas vias de escoamento de espectadores dava para a Feira do Rato. Numa tarde de sábado, um tal de Nosibaldo Damião, balconista da lojinha intitulada Flor da Levada, localizada na referida feira, aproveitou a folga do meio expediente e entrou no Ideal, pra lá de biritado. Fazia-se acompanhar da namorada, a pinguça Raquelina, recém conquistada no Bar do Bozó, durante a farra que promovera com um amigo, depois do expediente comercial. Raquelina também estava cachaçuda.

      Mal entraram no cinema, a mulher, que era analfabeta,  reclamou:

     – Ah, esse firme é daqueles que tem letrinha im bacho, num é? Pensei qui era nacioná! Quero vê, não!

     E o Nosibaldo:

     – Você fica só se ligando nas figuras, mulé! Daqui a pouco, depois do “trêlo”, vai começar o filme principal. Guentaí!

     – Falô! – conformou-se a pinguça.

     Não demorou muito, começou o filme propriamente dito. Na tela, um casal mandava uma brasa violentíssima. Gemidos adoidado. Excitadão, Norisbaldo falou para a namorada:

     – Raquelina, quero ver a tua perereca!

     – Ôxi! Tu tá doido, hôme?!

     – Quero ver. – insistiu o cara.

     – Não! – resistiu a mulher.

     – Olha que eu faço um escândalo nesta merda de cinema!

     – Tá bom, vai…

     Raquelina tirou a calcinha e deixou o namorado dar uma olhada na genitália dela. Mas o cara não se deu por satisfeito.

     – Num tô enxergando nada, nesse escuro! Me arruma aí um fósforo.

     – Ôxi! Tu malucô mêrmo, num foi?

     – Ah, é agora que eu vou fazer aquele escândalo!

     Diante de nova ameaça, a namorada passou a caixa de fósforo pro Nosibaldo. Ele acendeu um palito e falou, todo agoniado:

     – Ah, Raquelzinha, que maravilha! Mija, mija, mija!

     – Qualé, seu nojento? Agora tu pirô de vêis!

     – Mija, Raquelina! Mija! Os seus pentelhos estão pegando fogo!

 

 

Viúva de carreira

 

     Grazileu Barbosa virou mal-elemento depois que saiu do exército. Foi contaminado por um valentão chamado Tercilaldo Lanhoso, vulgo Testa de Galo, com o qual serviu, lado a lado, no finado 20° Batalhão de Caçadores. Depois que virou malandro, ele passou a viver na zona do baixo meretrício do Jaraguá, o famigerado Duque de Caxias. Foi lá que se apaixonou por uma rapariga do pedaço, a Eutanásia, e amancebou-se com ela.

     De posse da fama de brabo, Grazileu auto-intitulou-se dono do brega caxiense e danou-se a exigir que a mulher lhe dispensasse os mais endiabrados carinhos, comida boa e roupa lavada e engomada no melhor dos trinques. Quando a mulher deixava de atendê-lo, o pau comia adoidado. Um dia, cansada de tanto levar porrada do malandro, Eutanásia bolou um plano cruel para livrar-se do infeliz e o executou num sábado quente de verão.

     Grazileu acordou às 10 horas da manhã e berrou para a companheira:

     – Eutanázia, sua quenga safada, eu quero você prepare pra eu comer hoje, um bife de caçarola abarrotado de cebola, acompanhado de farofa de frango, entendeu bem?

     A mulher preparou tudo no capricho. Mal o valentão acabou de comer, assentou o cabelo, vomitando sangue pra todo lado.

     À noite, depois do enterro, Eutenásia, debruçada na janela, e com a maior cara de felicidade, desabafava com uma vizinha:

     – Não tem coisa melhor do que vidro ralado para mulher que quer fazer carreira de viúva. Devia até ter regulamento pra esse tipo de serviço!

 

 

Incendiário progressista

 

     Na cidade de Poço das Trincheiras, jamais alguém duvidou da loucura do Meoneocrates Botelho. As pessoas começaram a evitá-lo  quando ele ainda era criancinha dos seus três ou quatro anos de idade, ao assassinar com quatro tiros na cabeça, o cachorrinho de estimação da vizinha, dona Eulâmpia. É que o pai havia deixado o revólver dando sopa em cima do criado-mudo, e, então, o garoto achou por bem utilizá-lo. E o estrago só não foi maior porque na arma só existia aquelas quatro balas mesmo.

     Os anos se passaram e Meoneocrates virou o terror da cidade. O pai gastou horrores com os maiores psiquiatras do Nordeste e os melhores remédios para doidice. O rapazinho só se tranquilizava quando estava dormindo. Mesmo assim, acordava de madrugada soltando berros terríveis.    

     Um dia, Meoneocrates botou na cachola idéia de que estava faltando em Poço das Trincheiras um bom motivo para agitar a galera. Pensou, pensou e concluiu que, como a cidade nunca havia registrado um incêndio, nada melhor que um festival de muitas labaredas.

     Meoneocrates pegou desprevenida uma casa velha na periferia da cidade e esvaziou nela duas garrafas de querosene. Em seguida, riscou um fósforo. Não só ardeu a casa como mais seis outras vizinhas. 

     Preso, finalmente, o incendiário justificava o seu ato, cheio de orgulho, perante o delegado municipal, sargento PM Valdemar Pitombeira:

     – Cidade que não tem incêndio não é cidade. Incêndio traz progresso. Com uma incendiada só já dei trabalho para uma dezena de pessoas. Ao invés de me prender, sargento, o senhor devia era me dar uma medalha!

 

 

Um delegado ortodoxo

 

     Na época em que, para ser delegado de polícia nas Alagoas, como de resto no Nordeste, não precisava, o caboco, ter farda e nem anel de bacharel em direito no dedo, um dia, em Maribondo, assumiu a função um certo Oliboldo Juberaba. A lei pra ele, era a “lei do cão”.

     Sempre que se ausentava da cidade, Oliboldo deixava na porta da delegacia, em letra de forma, os motivos de sua ausência.

     Em certa ocasião, e, segundo consta, foi a última do indigitado investido na figura de autoridade policial, ele deixou escritado o seguinte recado:

     “A autoridade competente foi a serviço na Capital, pelo que pede à educada população de Maribondo que não mate e nem esfole ninguém em minha ausência. Eu mesmo, que ando querendo quebrar a cara do tal de Tupinambá Capanema, só vou ter esse procedimento quando voltar, pois desejo abrir inquérito contra mim mesmo na minha presença e nunca na minha ausência”.