Ailton Villanova

15 de Fevereiro de 2016

Tavares nos EUA

      Causou um reboliço danado a chegada do colega Israel Tavares aos Estados Unidos da América do Norte. Ele e mais onze delegados de polícia civil de Alagoas tinham ido pela primeira vez aos “States” com a finalidade de participar de um curso sobre “Polícia & Segurança Pública”, promovido e patrocinado pelo governo norte-americano.

      Avião já ingressando nos ares estadunidenses, eis que Tavares se levantou da poltrona que ocupava e anunciou a decisão que acabara de tomar: visitar, antes que tudo, a badaladíssima Miami. Um dos parceiros de viagem, o delegado Jorge Barbosa de Almeida, discordou da ideia:

      – Você está doido, Israel?! Estamos viajando com destino certo e você acha de querer mudar a rota! Quer complicar, rapaz!

      E ele, bem firme:

      – O curso começa depois de amanhã, não começa?

      – Começa.

      – Então, eu tenho pelo menos um dia e meio para dar uma esnobada no mulherio de Miami. Vir aos Estados Unidos e não conhecer Miami é a mesma coisa que ir à Roma e não ver o papa!

      Depois de muita discussão, Israel Tavares foi excluído da delegação. Para não ficar sozinho e perdido em território norte-americano, os colegas Jorge Barbosa e Antônio Rosalvo Cardoso, o Mamão, decidiram que o acompanharia. O resto da turma seguiu com destino a Orlando, na Flórida, local do curso.

      O avião fez escala em Miami e Tavares logo chamou a atenção da gringada.

      Naquilo que abriram a porta da aeronave, o ilustre delegado pinoteou pra fora, crente que iria abafar. No pescoço, ele tinha pendurados pelo menos uns dez trancelins de ouro, que reluziam sob a ação do sol miamense; no pulso, outro monte de pulseiras (mais de 50) davam o grau. Tavares vestia uma camisa verde com listras amarelas, roxas e pretas, aberta no peito. O paletó era vermelho e a calça azul-marinho. Sapatos brancos. Escanchado no pau da venta, um óculos escuro cujos aros eram enormes e dourados. Carregava na cintura um pau-de-fogo  niqueladíssimo, cheinho de balas.

      Naquilo que Israel Tavares (seguido pelos fieis escudeiros Jorge Barbosa e Antônio Rosalvo) assentou o solado dos pés no solo quente de Miami, o pessoal da Inteligência federal botou o olho nele. Um dos agentes americanos apontou pra ele e bradou:

      – Olha lá o Pablo Escobar!

      (Para quem não sabe, Escobar, chefão da máfia colombiana, foi o maior traficante de drogas do mundo. Confundir Tavares com o mafioso é o fim da picada!)

      Nesse momento, tudo quanto foi de tira do FBI caiu em cima da autoridade policial alagoana, que teve de mostrar toda a sua categoria e conhecimentos de tae-kwon-do, karatê  e outras milongas das artes marciais universais.

      Ainda bem que a carteirinha da Polícia Civil de Alagoas é respeitada nos Estados Unidos.

 

Método infalível

      Sábado de manhã, a patota de sempre se reuniu para bater uma bolinha no campinho de futebol da propriedade do distinto Reinaldo Honório. Dessa vez o racha começou atrasado por causa da demora de três dos costumeiros peladeiros. Assim que o trio de retardatários surgiu no cenário, o Reinaldo lascou lá uma censura velada:

      – Quê que houve, minha gente?

      – Ah. Bicho, pra minha mulher me deixar eu vir a esta pelada eu tive de dar uma dúzia de rosas pra ela – explicou o que se chamava Aldábrio.

      – Foi mesmo?! – interferiu o segundo, conhecido como Bicleudo. – Eu comprei uma pulseira de ouro. Só assim ela me liberou.

      Aí, o terceiro, o Brivaldo, entrou no papo:

     – Comigo não teve nada disso. Eu acordei cedo, soltei um peidão daqueles arrasa-quarteirão, cocei o saco, mandei ver um arroto de lascar e perguntei à “dona Encrenca”: “Comequié, minha filha… futebol ou uma transadinha?” Ela olhou pra mim, pulou da cama e respondeu: “Peraí que eu vou pegar as suas chuteiras!”

 

Morreram e derrame!

      Havia dois anos o trabalhador rural Amabílio Romão estava morando em Maceió, mais precisamente no Farol, com a atribuição de cuidar do sítio de um doutor cheio da grana. Durante todo esse tempo não teve condições de voltar à sua terra natal, Pariconha, ou por falta de tempo ou de grana mesmo. De modo que ia empurrando com a barriga a oportunidade de matar as saudades, revendo amigos e parentes.

       Um dia, aproveitando uma folguinha do serviço, ele dava umas voltas pelo mercado público da Levada quando se deparou com o conterrâneo Januário da Silva. Os dois se abraçaram na maior alegria e Amabílio não perdeu tempo:

      – Entonce uquié qui tu tá fazendo puraquí, hôme de Deus?

      E o Januário:

      – Eu vim no Funrurá arresorvê uns pobrêma…

      Amabílio queria saber mais:

      – E os pessuáu lá na Pariconha, cuma vão?

      – Tudo cum as urêia apregada na cabeça, rá, rá, rá… – brincou o amigo.

      – E tua famia?

      Januário respondeu com a cara mais triste do mundo:

      – Morrêro cáje tudo!

      – Vixe mãe do céu! Morrêro de quê?

      – De derrame!

      – De derrame, Januáro?!

      – E num é qui foi! Vinha o meu pai, a minha mãe, o veínho meu avô, minha tia e minha mulé Severina, tudo atrepado num caminhão. No meio da viaje, o disinfiliz virou justamente numa ribancêra da mulesta e derramô eles tudinho, lá im bacho!

 

Tudo muito claro

      Seu Dorival é um antigo dono de boteco na região da Levada. Desde que se entende por gente, a vida dele é despachar birita por trás de um balcão. Ultimamente melhorou de vida e entendeu de derrubar a birosca de madeira que possuía no Brejal, e no mesmo local construiu um barzinho de alvenaria, todo aprumadinho. Pintadinho com as cores do CSA (azul e branco), seu time do coração, até toalete para a freguesia de ambos os sexos, o novo estabelecimento comercial do Dorival possui.

        No dia da inauguração do barzinho, a negrada do Brejal e adjacências compareceu em massa. Gente que nunca acabava e chegando mais, incluindo aí a pessoa do tal de  Zé Petrúcio, mais conhecido como Zé da Mirôxa, batedor ingome no terreiro do “pai” Lulu. O cara já chegou querendo aliviar a bexiga:

       – Adonde qui fica a privada dos hôme, seu Dori? Tem privada dos hôme, num tem?

       – Mas é craro qui tem! Será qui tu é cego, Zé da Mirôxa? Olhe ali no canto. Tá vendo não?

       – Tô vendo, mas num seio qual é!

      – Eita cabra burro da peste! É aquela ali qui tem um “Si” pintado na porta. Viu agora?

      – Qual das porta? Ali tem duas, uma do lado da outra, cada qual com um “S” pintado!

      Seu Dori perdeu a paciência e respondeu meio zangado:

      – Ô seu anarfabeto, você num tá vendo qui um “Si” é de Sinhora e o outro “Si” é de Sinhô?