Ailton Villanova

11 de Fevereiro de 2016

A mãe que adoecia demais

     “Coração de leão, alma de passarinho”. Assim Noaldo Dantas definiu a incrível figura do jornalista Zito Cabral. Nunca, Noaldo foi tão feliz na definição de uma pessoa.

     Excelente caráter, profissional correto, Zito nasceu no Pilar intitulado oficialmente (no batismo católico e no cartório do registro civil), José Cabral Irmão. Especializou-se na reportagem policial e, nesse mister, foi insuperável. Tornou-se ainda mais respeitado porque nunca se aproveitou da profissão, e das altas amizades que dela resultaram, para faturar em proveito próprio. Jamais se corrompeu.

     Baixinho, magrinho, não temia o tamanho de ninguém. Sabia ser brabo, valente, conforme lhes surgiam os momentos, as ocasiões.

     O início da sua vitoriosa carreira jornalística ocorreu na Gazeta de Alagoas, na qualidade de correspondente interiorano e, depois, como repórter. Estudava à noite e residia na Casa do Estudante, que ficava na esquina da rua do Comércio com a rua Augusta. Aproveitava os finais de semana para se mandar pro Pilar, o seu berço, e onde se achava toda a sua família. Esse era um ritual que cumpria religiosamente, nem que chovesse canivete. Mais das vezes, ele desaparecia da redação na quinta-feira e só estava de volta na segunda de tarde, com uma bela desculpa na ponta da lingua. Chegava pro secretário de redação ( função equivalente a do hoje editor-geral), que era o boníssimo Rodrigues de Gouveia, e teatralizava, com a maior cara de tristeza:

     – Meu chefe, não deu pra chegar mais cedo… Minha intenção era chegar na sexta de tarde, ou no sábado de manhã, mas minha mãe passou mal… Você sabe, mãe é mãe…

     Gouveia botava aquele olhinho vivinho, camuflado por grossas lentes de grau, e dizia, paternalmente:

     – Tudo bem, Zito. Tomara que sua mãe fique boa logo.

     Final de semana seguinte, cadê o Zito na redação? Estava no Pilar, tomando todas, na beira da lagoa Manguaba, com o Albérico Cordeiro e uma patota de biriteiros alopradíssima. Na seguda-feira, a desculpa de sempre. Mais um pedido de desculpa e novo perdão do Gouveia.

     Aí, Zito Cabral tomou gosto pela coisa, já que o compreensivo e franciscano Gouveia estava sempre disposto a relevar as suas faltas.

     O negócio já estava passando dos limites. Valmir Calheiros foi o primeiro a protestar na redação, através de uma “indireta”, que encaixou direitinho no ouvido do secretário de redação:

     – Eu gostaria de saber por que o Zito Cabral não trabalha mais nas sextas-feiras e nos sábados, como todo mundo aqui!

      O chefe da revisão, Edvaldo Farias de Menezes, o Tito, correu em socorro do colega:

     – A mãe do cara está muito enferma, Valmir! Olha a solidariedade!

     Na segunda-feira seguinte a esse diálogo, eis que emboca na redação o nosso Zito Cabral todo lampeiro, com a cara mais lisa do mundo. Dirigiu-se ao birô do Rodrigues de Gouveia para mais uma enrolação. No que tentou abrir a boca para se justificar pela centésima vez, Gouveia antecipou-se:

     – Já sei, Zito. Sua mãe adoeceu de novo, não foi?

     – Bem… – tentou falar.

     – Que doença estranha, essa da sua mãe, que só ataca nos finais de semana, hein, Zito?

     – Mas…

     – De agora em diante, só vou justificar as suas faltas mediante a apresentação do Atestado de Óbito, tá certo?

     Daquele dia em diante, a genitora do jornalista, que sempre gozou de excelente saúde, nunca mais teve, sequer, uma dorzinha de cabeça.

     Um mês depois, quem começou a adoecer foi uma tia do Valmir Calheiros, que morava em Atalaia.

 

 

O “fantasma” do Andrade

 

     A bela e histórica Penedo destinou para o rádio da capital grandes valores, todos donos de timbres vocais invejáveis. Por conta disso, e da competência profissional de cada um, eles fizeram grande sucesso, em períodos distintos. Lastimavelmente, a grande maioria desses valorosos artistas já se foi para sempre, e os únicos que ainda restam – Antônio Manuel e Stênio Reis -, estão sem prefixo. O primeiro por livre arbítrio; o segundo, amarga uma forçada e incompreensível aposentadoria, não por vontade própria.

   Os penedenses que atuaram em emissoras de rádio da capital inscreveram também a chamada “Época de Ouro” do nosso “sem fio”.

   Sabino Romariz, Guimarães Neto, Edvaldo Santos, Antônio Manuel, Stênio Reis… Andrade Filho. Todos principiados (menos Sabino) na Emissora Rio São Francisco.

   Destaco este último dos demais, para homenageá-lo como admirador e amigo.

   Andrade Filho amou o rádio até quando sua consciência permitiu. Senhor de uma das vozes mais belas do país, arrancou suspiros de donzelas e arrasou corações de mulheres de todos os matizes e classes sociais, suas fãs ardorosas. Mas só amou verdadeiramente, uma: Lenir, a mãe dos seus quatro filhos, dos quais sempre se orgulhou.

   Gentil, elegante, bonitão, sempre estava pronto para atuar, profissionalmente, em qualquer ocasião. Vestia-se com o aprumo de um diplomata.

   Boêmio, nômande, viajou muito por esse Brasil, sem esquecer sua terra. Viveu tão intensamente quanto amou sua Lenir. No dedo carregou até a morte um anel de chapa onde tinha cravado o nome dela.

   Um dia, Andrade bebeu mais da conta. Foi num domingo de carnaval. Ele teria que render o colega Eutêmio Baracho na locução de estúdio, na Rádio Gazeta. Foi cumprir a escala, puxando o maior fogo. Passou pelo estúdio, cumprimentou o colega a quem iria substituir e fez sinal dando a entender que passaria, primeiramente, no banheiro. E desapareceu, misteriosamente, fato que causou o maior rebuliço na emissora.

    Na quarta-feira de cinzas, quando todos ainda comentavam o seu enigmático sumiço, eis que surgiu Andrade Filho no estúdio de locução, todo empoeirado e curtindo a maior ressaca. O locutor do horário, que era o Guimarães Neto, quase morreu de susto, pensando que era um fantasma.

    Mais tarde, Andrade explicou que quando se dirigia ao banheiro, perdera o equilíbrio, dado ao seu avançado estado etílico. Aí, caiu num buraco existente na parte posterior do palco – que separava a cabine de locução da cabine da sonotécnica -, e lá permaneu desmaiado durante dois dias e meio.