Ailton Villanova

30 de Janeiro de 2016

Só pra sacanear o goleiro!

     O histórico bairro do Bom Parto, hoje esquecido e abandonado pelo poder público, produziu para a glória e a fama uma gama de gente famosa – historiadores, políticos, professores, magistrados, jornalistas, esportistas… artistas de todos os naipes.  Entre tantos desses, me ocorre a lembrança a figura intrincada do Dogival Santiago, o “Dóge Dandoca”. Se a Petrobras não houvesse surgido no seu caminho, certamente hoje ele estaria estrelando a galeria dos heróis da seleção canarinha nacional.

     Com a pelota nos pés, Dóge Dandoca complicava a vida do adversário. Não porque era um esforçado pretendente a craque, mas também porque sabia “matar na unha” esse mesmo adversário, enchendo a sua paciência. Herdou o estilo do seu tio Dé, que corria na frente do adversário e deixava a bola para trás. Depois, dava meia-volta para pegá-la novamente. Dóge sempre soube complicar.

     Certo domingo, depois de uma partida amistosa entre o time que defendia, o Internacional Futebol Clube, do Bom Parto e o Arsenal Esporte Clube, do bairro do Prado, Dogival bebia caldo de cana com pão doce, no bar de seu Pedro Oliveira, ao tempo em que discutia com alguns companheiros de time. O foco da arenga era o pênalte que ele havia perdido no finalzinho do jogo, ocorrido no campo da Vila Operária bompartense. Em face disso, o Internacional saiu perdendo de 1×0, quando poderia ter deixado o campo com um empate.

      Dorgival se justificava:

      – Perdi o pênalte só pra sacanear o goleiro!

      – Ah, não venha com desculpa… – interferiu um dos parceiros.

      E ele, insistindo:

      – Palavra! Perdi o pênalte só de sacanagem. Na hora em que me preparava pra chutar, o filho da puta do goleiro começou a fazer guerra de nervos comigo: “Se você chutar no canto esquerdo, eu pego; se chutar no direito, eu também pego; se chutar no centro, aí é que eu agarro tranquilo!” Então, vocês viram o resultado. Me invoquei, chutei pra fora e sacaneei ele! Rá, rá, rá!     

 

 

Egoísta prevenido

 

     Em que pese quase cinquentona, madame Tricolina Aspásia não ficava a dever a nenhuma cocota, dessas que estão com tudo em cima. Belo par de pernas, corpo sinuoso, enxuto, traseiro sensacional, ela era a dor de cabeça do marido Perival Lisóstomo Amêndola. O cara morria de ciúmes da gostosona.

     Um dia, esse ilustre marido começou a sentir umas dores estranhas no baixo ventre, popularmente conhecido como “pé do pente”, e teve que se internar em caráter de urgência urgentíssima. Semana e meia no hospital foi suficiente para submeter-se a uma bateria de exames. O resultado foi cruel: câncer. Segundo o médico, ele não teria mais que dois meses de vida.

      – Nem um pouquinho de tempo mais, doutor? – Perival apelou patético.

      – Sua doença está em estado avançadíssimo, meu caro! Se eu fosse você aproveitaria bastante o restinho de vida que tem.

      Perival Lisóstomo saiu do hospital arrasado, quase arrastando a venta no chão. Ao chegar em casa, chamou o filho mais velho para acompanhá-lo ao bar, onde pretendia encher a cara e desabafar com o rapazinho.

      – Desce uma cerveja pra mim, e um suco de laranja aqui pro meu garoto! – pediu ao garçom.

      Perival lascou o pau a beber. Quando estava no auge da bebedeira, chegaram alguns amigos, que ficaram preocupados quando o viram naquele estado de embriaguês. Um deles adiantou-se e perguntou:

      – O que está havendo com você, Perival? Nunca o vi beber desse jeito!

      E ele:

      – É que eu descobri que estou com aids e vou morrer daqui a um mês!

      Apavorada, a turma saiu de perto. Surpreso, o garoto comentou:

      – Mas, pai, o senhor não disse que está com câncer?

      – Pois é, meu filho, eu estou mesmo. Acontece que eu não quero ver nenhum desses filhos da puta saindo com sua mãe, depois que eu morrer…

 

 

Uma morte certa

 

     Cintiliógeno e Oribalda estavam casados há 30 anos. A vida dos dois era uma vida chata, modorrenta, sem novidade alguma, bem diferente dos primeiros anos de matrimônio. O marido estava sempre se queixando que a mulher não lhe dava mais importância pra nada. A vida dela era em frente a um aparelho de Tv.

      Era um casamento gelado, feito casamento de esquimó.

      Um dia, Cintiliógeno andou passando mal, depois de um rango gorduroso e teve de ser levado às pressas ao hospital, pela própria Oribalda. O médico que o atendeu pediu um monte de exames e determinou sua internação em “edição extraordinária”.

      Depois, com o resultado dos exames nas mãos, o médico chamou dona Oribalda para conversar:

      – Olha, o problema do seu marido é sério…

      – É?

      – É sim, minha senhora. Tenho que lhe fazer algumas recomendações…

      – Tem, é? E quais são?

      – Primeiramente, a senhora deverá tratá-lo de maneira gentil e afável. Comece por preparar-lhe um café bem reforçado de manhã, com frutas, vitaminas e cereais. No almoço, faça uma refeição bem nutritiva e diferenciada a cada dia, variando entre as comidas italianas, francesas, japonesas, etc.

      – O senhor tem certreza de que isso é mesmo necessário, doutor? – aparteou a madame      .

      – Mas é claro que é. Bem, continuando: no jantar, um acepipe mais leve, mas igualmente saudável, sempre regado com muito carinho e atenção. Não contrarie nenhuma das suas vontades, mantenha sempre um bom estoque de cerveja gelada no freezar e não o atrapalhe na hora em que ele estiver assistindo a um jogo de futebol na Tv.

       Na saída do hospital, Cintiliógeno perguntou à mulher:

      – E aí, o que foi que o médico disse?

      – Ele disse que você vai morrer!