Ailton Villanova

26 de Janeiro de 2016

O Bispo não era aquele!

     Oficial dos mais íntegros que a já vestiu a farda da Polícia Militar de Alagoas,  José Estevam do Rêgo legou aos seus pósteros qualidades que todo homem de bem deve possuir: integridade, decência, nobreza, respeitabilidade. Quando pendurou no cabide a farda de coronel, o fez com a consciência do dever cumprido.

     Disciplinado e disciplinador, coronel Estevam ocupou posições as mais destacadas no âmbito da Segurança Pública. Tímido, mas corajoso, metia medo com a cara dura que possuía. Nunca foi homem de brincadeiras.

     Na época em que era major PM, Estevam foi nomeado para exercer a função de delegado regional de polícia em Palmeira dos Índios, já tendo passado pela titularidade das congêneres de Penedo e Matriz do Camaragibe. Cumprida sua missão em Palmeira, foi transferido para Santana do Ipanema, onde permaneceu durante anos. Mas, foi na terra adotada por Graciliano Ramos que protagonizou um episódio interessante, mal tinha assumido o cargo de delegado regional.

     Naquela unidade policial trabalhava o soldado José Bispo, muito popular e benquisto na cidade de Palmeira dos Índios, dado o seu caráter conciliador. Era pau pra toda obra, conforme se diz na gíria, e Estevam logo o convocou para sua adjudância-de-ordem. Tudo o que ele queria era com o Bispo. Nesse tempo foi designado para destacar sob o comando do major-delegado o recruta intitulado Florêncio, um baixinho muito ativo e desenrolado. Logo no primeiro dia de serviço, recebeu uma missão da qual se desincumbiu com exagerada e confusa eficiência.

     Num final de tarde, Major Estevam tinha retornado de uma inspeção nas unidades militares da região e começou a procurar o soldado Bispo. Aí, ele pegou o PM Florêncio dando sopa no corredor da delegacia:

    – Ô praça, cadê o Bispo?

    O soldado Florêncio não conhecia o colega Bispo. Novo no destacamento, nem sequer tinha ouvido falar no seu nome. À indagação do superior hierárquico, cuja fama era a de durão, ele respondeu preocupado:

    – Eu não vi ele não, meu major! Eu acho que ele deve estar na casa dele!

    – Então me faça o seguinte: vá até lá e diga à ele que eu o quero aqui amanhã bem cedinho…

    – A que horas, meu major?

    – Às 7 horas em ponto!

    – Perfeitamente, meu major!

    Zé Estevam madrugava na repartição. Dia seguinte, ao chegar pro expediente, às 7 horas, encontrou bem sentadinho e muito tranquilo, na sala de espera, o bispo diocesano Dom Octávio Aguiar. O major tomou o maior susto!

     – Bom dia, Dom Octávio! – cumprimentou Estevam – A que devo a honra e o prazer da visita?

     E o prelado, bem humilde:

     – Eu é que lhe pergunto, meu filho. Estou aqui cumprindo ordens. Hoje bem cedinho, por volta das 5 e meia da manhã, esteve na residência episcopal um soldado seu, que exigiu a minha presença aqui a esta hora. Disse que a intimação era sua!

     Major Estevam do Rêgo ficou constrangido com a confusão provocada pelo subordinado hierárquico, e explicou ao religioso que ocorrera um lamentável equívoco. O Bispo a quem mandara chamar, era o soldado homônimo, seu ajudante-de-ordem. À ele seria dada a incumbência (conforme foi feito) de consertar a instalação elétrica do gabinete do delegado, que havia pifado na tarde anterior.

     Explicação dada, e naturalmente aceita, Dom Octávio e major Estevam deram boas gargalhadas.

 

 

Mazone e a rotativa

 

     O publicitário e jornalista Esdras Mazone tem um coração que supera qualquer defeito por ventura possua, ou que esteja na cara. Trabalhador incansável, chefe de família exemplar, ele venceu profissionalmente enfrentando as caretas da vida.

     Mazone começou a sua história na mídia, trabalhando na Gazeta de Alagoas. Foi trazido do interior para a capital, pelo saudoso senador Arnon de Mello, quando este fazia suas andanças pelo território alagoano, em campanha política.

     Assim que Mazone botou os pés na Gazeta, estreando como office-boy, recebeu o seu “batismo” tal qual eram aplicados àqueles que iniciavam nas rotineiras tarefas de um auxiliar de redação de jornal. Garoto ainda, atento à oportunidade de ser útil, estava cumprindo o expediente da tarde quando o repórter Rubens Cerqueira, o Caximbáu, entendeu de lhe passar o primeiro trote. Parou de dedilhar a máquina datilográfica e chamou o Mazone:

     – Ô menino, vem cá!

     Mais que depressa Mazone esbarrou diante da mesa de trabalho do repórter:

     – Pronto, chefe!

     E o Caximbáu, muito sério:

     – Me faça um favor, meu filho… Dê um pulinho lá em baixo, na oficina, e peça ao senhor Zacarias Santana que me mande, por gentileza, a ROTATIVA. Sabe quem é o Zacarias?

     – Sei sim senhor. Não é aquele gordo, de bigode?

     – É esse mesmo. Vá…

     O garoto Esdras Mazone desapareceu na última curva da escadaria que ligava a redação às oficinas, e daí a instantes estava de volta, arquejando:

      – O doutor Zacarias mandou dizer que está usando a ROTATIVA. Disse que daqui a pouco o senhor pode mandar buscá-la.

      E ficou lá num canto da redação, olhinhos vivinhos, atentos ao movimento da turma. Era um matraquear danado. Fumaça de cigarro pra todo lado.

      Passados mais ou menos 10 minutos, Caximbau levantou a vista do papel. O Mazone estava ligadão nele.

      – Chefe, posso ir lá embaixo de novo?

     – É bom. Diga ao Zaca que não posso esperar muito por essa rotativa. Diga que estou invocado. Faça aquele drama!

     – Sim, senhor!

     Zacarias Santana, criatura incrivelmente bondosa e íntegra, também sabia encarar uma brincadeira numa boa. Com a competência de um maestro de orquestra sinfônica, encontrava-se ele, na oficina de impressão, distribuindo ordens aos seus auxiliares, quando chegou o Mazone vexadinho, implorando:

     – Pelo amor de Deus, doutor Zacarias! O homem lá em cima está aperreado. Quer a ROTATIVA de qualquer jeito! Dá pra levar agora?

     O velho Zaca riu de leve, coçou o cucuruto, pegou o Mazone pelo braço e saiu levando ele, até que parou diante de uma monstruosa máquina de muitas toneladas de peso. Era, a tal ROTATIVA, a impressora do jornal.

     – Pronto! Aqui está ela! Pode levá-la!

     – Mas doutor Zacarias, deixe de brincadeira! Como é que eu posso com uma montanha de ferro dessa?

     – Você não estava insistindo tanto em lavá-la? Leve-a!

     A partir desse dia, todas as vezes que o Esdras Mazone era solicitado para apanhar qualquer objeto, dentro ou fora do jornal, primeiro ele especulava a respeito.

 

 

Tremendo pé frio!

 

     No último esforço, antes de morrer, o velhusco Flósculo Leão segurava a mão da mulher, dona Balmásia:

    – Quando voltei ferido da Primeira Guerra, em 1918, você estava ao meu lado. Quando me soltaram do campo de concentração, em 1945, você me esperava…

    Sem conter as últimas lágrimas, continuou:

    – Quando a minha velha loja teve que fechar e fiquei sem um tostão, você sempre esteve comigo. Há alguns anos, quando o médico diagnosticou este câncer, você estava comigo. E agora, estou aqui morrendo, e você aí, ao meu lado.

    Engasgado de emoção e do esforço, ele ainda conseguiu mais uma frase:

    – Puxa, minha velha, você é um tremendo pé frio!

 

 

Teria sido mais fácil

 

    Abenergaldo chegou em casa furioso, depois de ter perdido uma tarde inteira num posto do INSS:

    – Pois não é que perderam todos os meus documentos? – desabafou com a mulher. – Foi uma luta convencê-los de que tenho idade para me aposentar. Tive de mostrar os meus cabelos brancos.

    E a mulher:

    – Se você tivesse abaixado as calças, meu filho, teria sido muito mais fácil. Eles imediatamente lhe teriam dado aposentadoria por invalidez.