Rívison Batista

20 de Janeiro de 2016

Sobre a culpa e uma manhã de domingo

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Era um começo de manhã de domingo. Em uma das casas daquela rua tranquila, a empregada preparava o café da manhã na cozinha. Uma batida na porta, ela olhou pelo olho mágico, e não viu ninguém. Uma segunda batida, ela olhou novamente e não viu ninguém. Acreditando que fosse um cachorro, abriu a porta para vê-lo. Ao colocar um pouco a cabeça para fora, uma pistola veio contra sua testa. A empregada foi amarrada e jurada de morte caso tentasse algo para fugir. O bando criminoso era composto por três indivíduos, mas o pior e líder era um meliante conhecido como Cachaça. O casal dormia na suíte e Marcelo, um jovem de 17 anos, dormia no próprio quarto. Com facilidade, o casal foi rendido e também amarrado. Porém, quando Cachaça se dirigiu para o quarto de Marcelo, não encontrou uma fechadura. A porta não podia ser aberta por fora e a fechadura era retirada toda noite e ficava ao lado da cama do adolescente. Tudo estaria bem, se um dos ladrões não tivesse ouvido passos de Marcelo e uma conversa em voz baixa. 'Ele ligou para a polícia', falou aos comparsas. O que era para ser mais um assalto, com dinheiro e pertences roubados, transformou-se em uma situação com reféns.

Marcelo, apavorado no quarto, ouvia o choro da mãe e as tentativas de negociação do pai com o grupo criminoso. Cachaça deu três tiros na porta do quarto do jovem, mas milagrosamente a porta se mantinha intacta. Marcelo ficou deitado no chão com medo de ser atingido. 'Vão embora! Vão embora!', gritava o rapaz. A polícia então chegou. 'Vamos resolver essa situação de maneira pacífica. Libertem os reféns', dizia o policial no megafone. Marcelo, naquele instante, era algo que fugia ao controle de Cachaça, e o bandido não gostava do que não podia controlar. Apontou a arma para a cabeça da mãe. 'Se você não abrir, mato ela!', gritou Cachaça. Dona Afrodite, mãe do jovem, então falou em voz alta e calma: 'Filho, eu já morri, não se importe mais comigo'. Marcelo então chorou, mas não conseguiu abrir a porta porque estava paralisado pelo medo. Cachaça teve muita raiva e deu um tiro na testa da matriarca. Após assassinar a refém, o bandido encostou o cano da arma no olho esquerdo de Abel, pai de Marcelo. 'Quer ver o cérebro do seu pai voando pela sala também, garoto? Se você não abrir será a vez dele de morrer'. Cachaça parecia impiedoso. 'Filho, sei que está com medo, mas não precisa abrir essa porta para provar coisa alguma. Nunca se esqueça: Você não tem culpa!', disse Abel em voz alta, porém serena. Marcelo vomitava e chorava dentro do quarto quando ouviu o tiro que matou o pai. 'Marcelo, abre a porta, estamos todos mortos! Todos mortos!', gritou a empregada e logo depois também foi assassinada. Marcelo era o último refém. Cachaça não queria voltar à prisão e estava com muita raiva do adolescente. Ordenou que os comparsas queimassem a casa.

'Garoto, você é um covarde. Você matou seus pais! Vai pro inferno com essa culpa!'. Cachaça não tinha escrúpulos. Rapidamente, o fogo se espalhou pelo quarto do jovem, que começou a ser queimado vivo. Então Marcelo acordou. Era uma madrugada de domingo e tinha sido um pesadelo. Marcelo se levantou ofegante. Estava se sentindo diferente, seus passos cambaleavam, sua visão não funcionou muito bem. Precisou se apoiar na parede do banheiro para urinar. Quando voltava para o quarto, deu de cara com o espelho. Marcelo se entristeceu ao voltar à realidade e ver que já tinha 83 anos. Tinha sido professor de filosofia e simpatizava com personagens bíblicos. Há quarenta anos atrás, perdeu o controle do carro e o acidente matou os pais. Se culpou pela vida toda da tragédia. Virou alcoólatra, seu principal inimigo, por muito tempo, foi a cachaça. Chorou ao voltar para cama ao lembrar que morava sozinho. 'Você é um covarde. Estão todos mortos', dizia para si mesmo enquanto deitava. A viagem de volta à juventude tem seu preço: reviver as velhas feridas. 

 

*Rívison Batista é jornalista [os personagens descritos acima são puramente ficcionais]