Ailton Villanova

19 de Janeiro de 2016

Melado em dose dupla

 

     Se em circunstâncias admitidas como normais o Aflaudísio Nonato já exagerava na birita, imagine ele comemorando uma promoção no emprego. Dose pra leão!

     Numa sexta-feira, o chefão o chamou ao seu gabinete e comunicou:

     – Olha Flau, você acaba de ser promovido a chefe do almoxarifado, com um aumento de vinte por cento no seu salário. Tá bom? Parabéns!

     – Obrigado, doutor Epaminondas! – Aflaudísio agradeceu emocionado.

     Já montado na autoridade de chefe e cheio de euforia, o Flau saiu da repartição direto pro Bar do Juca, onde esvaziou incontáveis garrafas de bebidas de todos os tipos e espécies, existentes no local. Afinal, aquele era um dia especial.

     Bêbado além da conta, o Flau acabou vomitando na camisa nova que havia sido presenteada pela dedicada esposa Edvalda.

     – Ah, meu Deus! O que é que eu faço agora? A mulher vai me matar! – gemeu o infeliz.

     Juca, o dono do bar, logo encontrou uma idéia salvadora:

     – Isso é bronca safada, Flau! Olha, eu tenho este bar há mais de 20 anos e conheço todos os truques, todas malandragens… O que você deve fazer é simples. Pegue uma nota de 10 reais e coloque no bolso da camisa. Aí, é só chegar pra “dona encrenca” e dizer que um colega vomitou na sua camisa e lhe deu 10 paus pra mandar lavar. Funciona sempre, meu!

     – Porra! Que idéia genial, cara!

     Aflaudísio voltou pra casa feliz da vida. Mal botou o primeiro pé na entrada, deu de cara com a madame, cuja cara não era das mais simpáticas:

     – Bonito, não é seu Flau? Olha só o estrago que você fez na camisa novinha que eu lhe dei! Vomitou tudo! Você é um porco!

     – Êpa! Peraí, mulher! Não é o que você está pensando. A camisa tá vomitada, sim, mas quem vomitou nela não fui eu. Foi um bêbado, lá no bar. Por sinal, ele me deu 10 reais pra mandar lavá-la. A nota está aí no bolso. Veja você mesma.

    Dona Edvalda enfiou a mão no bolso do Flau e retirou duas notas de 10.

     – Mentiroso! Aqui tem duas de 10!

     – É que ele deu outros 10, porque cagou também nas minhas calças!

 

 

Revide bem dado

 

     Dona Magnólia Bezerra, avó predileta do pentelho Cacá, é uma coroa que não acumula papas na língua. Ela tem resposta pra tudo, a tempo e a hora. Certa ocasião, boquinha da noite, ela e o seu netinho do coração viajavam do Farol com destino a Ponta Verde a bordo de um taxi. Quando passavam pela Avenida da Paz, o garoto perguntou:

     – Vó, o que é que aquelas moças estão fazendo na calçada, rodando a bolsa?

     Magnólia engasgou-se, mas se saiu bem:

     – Ah, Cacá… é que elas estão esperando os seus namorados voltarem do trabalho.

     O taxista, um sujeito suarento e mal educado, intrometeu-se na conversa:

     – Fala a verdade pro menino, dona. Isso aí são prostitutas, garoto. É tudo puta atrás de macho!

     Magnólia ficou tão chateada que quase perdeu a voz. Mas o fedelho nem notou e continuou perguntando:

     – E elas têm filhos, vó?

     – Tem sim, meu amor.

     – E o que é que os filhos delas fazem?

     Dona Magnólia respirou fundo, abriu um sorriso sarcástico e respondeu:

     – Dirigem taxi, meu amor.

 

 

Vozes que incomodam

 

     De tanto biritar, o Alcolídio começou a ver coisas estranhas, tipo elefante subindo coqueiro calçado de tamanco e jacaré andando de bicicleta no meio da noite, na Ladeira dos Martírios. Aí, doutor Humberto Gomes de Melo, profissional competentíssimo no barato psiquiátrico, deu um grau nas visões do caboco e ele nunca mais reclamou das sobreditas.

     Cerca de dois meses depois, ele voltou ao consultório do especialista com nova reclamação:

     – Doutor Humberto, agora eu ando escutando vozes!!!

     E o esculápio:

     – Não diga! Que tipo de vozes, meu caro?

     – Masculinas, femininas… Todas!

     – E quando isso acontece?

     – Quando atendo o telefone!    

 

 

Um baile avacalhado

 

     Há um tempão de muitos fevereiros passados, isso pelos idos de 1950, um grupo de animados foliões do bairro do Farol, inventou de promover um baile de carnaval à fantasia. Acatada a idéia, partiram para a bolação do tema que marcaria a popularíssima festa: figuras da história mundial. O baile propriamente dito foi um sucesso, mas o concurso de fantasias é que foi decepcionante.

     Dos incritos no concurso, o primeiro desclassificado foi Geraldo Menezes, o Escurinho, pelo seguinte: ele foi fantasiado de Faraó do Egito montado numa bicicleta e de boné.

     Outro que foi desclassificado por deficiência histórica: Jurandyr Baêta. Ele apareceu de Nero, o Imperador, mastigando chiclete e tocando sanfona de oito baixos.

     Também não foi feliz o Abelardo de Lima, o popular Béu Catenga Doida, que entrou no baile dando uma de Pedro Álvares Cabral. A personagem histórica do descobridor do Brasil vestia um jaquetão marrom com listras amarelas e calçava sandálias sertanejas. Ademais, fumava um charuto tipo “braço de judas”. Do cronista social da época, Dodô Bonfim Coqueiro, a fantasia de Cabral mereceu o seguinte registro:

     – O jaquetão até que dava um toque de elegância, mas aquele charuto de fazer gambá desmaiar na hora, foi o que avacalhou de uma vez o coreto.

 

 

Olho por dente e vice versa

 

     Na histórica e saudosa Festa da Mocidade, que se realizava anualmente em Maceió, na antiga Praça da Cadeia, dois distintos amigos – o comerciário Feliciano Amadeu e o marceneiro Vascolino Abreu – bebiam uma cachacinha escorado no balcão de uma das barracas armadas no meio da praça. Em dado momento, faltou fundo monetário no bolso do Feliciano, e ele, pretendendo continuar farreando, idealizou tirar uma grana do parceiro, numa boa.

      – O amigo Vasco gostaria de me ver mordendo meu próprio olho?

      – Deixa de conversa, rapaz! – retrucou o outro – Pelo que sei, você não é mágico.

      – Pois sou capaz de morder o meu próprio olho. Quer apostar?

      – Quero. Aposto dez mirréis!

      A estas alturas já tinha um monte de gente em redor dos apostadores. Feliciano olhou para todos, abaixou a cabeça e, com incrível destreza, retirou o olho de vidro que usava, levando-o a boca e mordendo o referido.

      Feliciano ganhou a aposta e não pretendeu ficar apenas nisso:

      – Aposto que sou capaz de morder o outro olho!

      Aí, o parceiro Vascolino, na ânsia de recuperar as dez mil pratas que perdera, topou na hora:

      – Pois meu amigo, eu aposto logo 500 mirréis, porque eu sei que você não tem os dois olhos de vidro!

      Fechada a nova aposta sob os aplausos do público, eis que Feliciano Amadeu tirou da boca as duas próteses dentárias – a superior e a inferior – e, calmamente, com elas, mordeu o olho que não era de vidro.