Ailton Villanova

9 de Janeiro de 2016

Igual a Cristo!

     No mesmo dia em que foi empossado no cargo de governador do Estado, major Luiz de Souza Cavalcante recebeu o convite do prefeito de Palestina para visitar aquela cidade. A intenção do alcáide interiorano era faturar prestígio, e o governador manjou ligeirinho na jogada. Mas, como nunca foi de enjeitar parada, topou na hora.

     No dia combinado, a comitiva governamental saiu de Maceió bem cedinho, para enfrentar os 222 Km de chão, até Palestina. Quando a se aproximava da entrada da sede do município, Major Luiz falou pro motorista do carro governamental:

     – Gelma, dê uma paradinha aí, por favor.

     Seu Gelma Amaral parou o carrão, major Luiz desceu e se dirigiu a dois matutos que caminhavam pelo acostamento da rodovia, puxando suas respectivas montarias – dois burros -, pelas rédeas.

     – Os senhores estão indo para Palestina? – perguntou.

     – Tamos indo, sim sinhô, – respondeu um dos matutos.

     E o governador:

     – Vocês me conhecem?

     Os dois homens abanaram a cabeça em sinal de negativo e o mandatário completou:

     – Eu sou o governador de vocês!

     Os matutos arregalaram os olhos. Nunca tinham visto um governador tão de pertinho. Ficaram sem saber o que fazer e o que dizer. Depois de alguns minutos, o mais desarnado dos dois finalmente decidiu: ajoelhou perante o major e pediu:

     – Abênça, incelênça?

     Major Luiz deu uma gargalhada, abençoou a dupla e tomou emprestado um dos burros. Entrou em Palestina montado no animal, com a fileira de carros atrás.

     Reparando naquele espetáculo inusitado, o prefeito, que havia organizado uma grandiosa recepção pro chefe do Executivo alagoano, ficou decepcionado e correu pra junto do governador, mais subserviente do que já era:

     – Mas, Excelência! Uma autoridade tão importante… montado num burro!!!

     E o major Luiz, completamente à vontade:

     – E o que tem demais, nisso, meu caro? Jesus, que é Jesus, entrou em Jerusalém montado num jegue…!

 

 

“Mas morreu ótimo, não foi?”

 

     Do saudoso e ilustre anadiense doutor Francisco Arlindo contam as mais incríveis histórias. Médico e deputado estadual legou à posteridade a estrópica e abstrusa filosófica: “A vida é uma longa estrada que caminhamos sobre a qual”.

     Chico Arlindo foi o rei dos folclóricos. Coração imenso, dedicou-se intensamente à saude dos mais carentes. Não tinha dia e nem hora para atender ao povo.

     Certo dia, ao deixar o plenário da Assembléia Legislativa e ao dirigir-se à sala do cafezinho, foi abordado por um rapaz:

      – Boa tarde, deputado!

      Imediatamente, ele reconheceu o cara. Deu-lhe um espalhafatoso abraço e perguntou em seguida:

     – E o Renato, seu pai… como vai ele?

     O jovem baixou a cabeça e respondeu emocionado:

     – O pai morreu, deputado…

     Chico Arlindo deu um pulo para trás e arregalou o olhão:

     – O Renato morreu?! Não me diga!

     – Pois é, deputado… O meu velho, o senhor sabe, era diabético, sofria de pressão alta, tinha cirrose, hipertensão…

     O parlamentar concordou  tristonho:

     – É verdade… Você tá lembrado que outro dia eu descobri que ele tinha gastrite e doença de chagas?

     – Tô lembrado, deputado.

     Chico Arlindo coçou o queixo, ajeitou o nó da gravata, soltou um pigarro e comentou cheio de piedade:

     – Coitado do meu amigo Renato… Tão cheio de saúde!

 

 

Ceguinho vivinho

 

     O radialista, ator, teatrólogo e apresentador de Sabino Romariz foi campeão de votos em Alagoas. Elegeu-se deputado com votação histórica e arrastou três com ele para a Assembléia Legislativa. Morreu ainda jovem, tentando recuperar o mandato.

     Na Assembléia, seu gabinete vivia entupido de gente de toda espécie. Sabino não tinha tempo nem de respirar. Atendia a todos indistintamente. Foi alvo da mentira, da inveja e da maldade. Corajoso, não tinha papas na língua. Quiseram calar sua boca na base da porrada. Não conseguiram.

     Mas Sabino sabia levar a vida na graça. Sua ausência ainda hoje é sentida. Ele faz falta, sim.

     Quando era deputado, numa bendita manhã bateu em seu gabinete um ceguinho conhecido como Dedé, oriundo da Chã do Pilar:

     – Dotô Sabino, eu priciso que vossa incelênça me arrume uma passage de avião pra Sunpaulo…

     Sabino foi sincero:

     – Lamento, meu amigo… Passagem de avião pra São Paulo eu não tenho. Serve de ônibus?

     E o ceguinho, meio decepcionado:

     – Qui jeito, né, dotô Sabino? Sélve de ôinbus mêrmo. E tem mais uma coisinha…

     – E que “coisinha” é essa?

     – Vossa incelênça vai tê de me arrumá um rabinho de saia pra me fazê cumpanhia… Vossa incelênça sabe cuma é difíce um ceguinho viajá sozinho purestas istrada…

     Sabino respondeu:

     – Sinto muito, meu velho… Eu sou deputado, não sou cafetão!

 

 

Cadê o Tota?

 

     Na tradicionalíssima e ecológica cidade de Murici existiu um vereador chamado Fláusio da Silva Santos, figura obrigatória no folclore político de todo o Vale do Mundaú.

     Ele adorava fazer discurso.

     Certa feita, surgiu um boato na cidade dando conta de que a folha de pagamento do pessoal da prefeitura estava cheia de irregularidades. Cônscio dos seus deveres e obrigações perante o povo muriciense, o que fez, então, o nosso impoluto Fláusio? Requereu ao presidente da Câmara Municipal que oficiasse ao prefeito no sentido fosse encaminhada ao legislativo uma cópia da questionada folha de pagamento.

     Assim que recebeu o pedido, o prefeito mandou confeccionar uma cópia da bendita folha. Como na época não existia o recurso da xerox, muito menos do fax, o secretário da edilidade preparou a dita cuja na máquina datilográfica. Na pressa, cometeu um ligeiro lapso: ao pé da soma dos salários, ele grafou a palavra “Total” sem o “l” final. Ficou escrito “Total”. Errozinho safado.

     Naquilo que pegou a cópia da folha de pagamento, o vereador Fláusio correu para o plenário e pediu a palavra “pela ordem”. Concedida, ele lascou o pau.

     A medida em que ia lendo ao microfone o nome de cada servidor, com respectivo salário, ele ia correndo o dedo pela lista e conferindo as cifras. De repente, estacou de olho arregalado, e abriu o bocão:

     – Achei a mutreta, senhor presidente, senhores vereadores! Eu não falei? Olhaqui! Enquanto quase todos os funcionários da prefeitura recebem salário mínimo, tem aqui um tal de Tota que ganha por todo mundo junto. Eu quero saber quem é esse Tota!