Rívison Batista

26 de dezembro de 2015

O tempo é uma ilusão [ou Efeito Oddball]

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'O tempo é uma ilusão criada por nossas cabeças'. Assim me disse ele na última vez que o vi. Ele é Marshall, um nômade que vive vagando por essa cidade sem ponto fixo. Uma hora está embaixo de uma ponte, na outra está sentado em uma escadaria de um prédio antigo. Marshall é muito inteligente, talvez mais inteligente do que o normal. Fala sobre física quântica como uma criança que fala sobre o desenho animado favorito. Marshall é um gênio incompreendido que não teve dinheiro para estudar, mas pegou uns livros nas lixeiras de alguns professores e aprendeu tudo o que devia aprender. Tudo o que o dinheiro não compra. Um dia, ele me disse, por exemplo: 'Você sabia que experiências novas nos fazem ter uma percepção de tempo mais lenta do que quando conversamos com um amigo ou fazemos coisas comuns do nosso cotidiano? Chamam isso de efeito oddball'. É verdade. Na primeira vez que fui em uma montanha-russa, meu Deus, lembro como se fosse há uma hora atrás. O percurso do 'brinquedo' só durava dez minutos, mas cada minuto parecia uma hora. Quando saí daquilo, ainda meio tonto, mais parecia que eu tinha descido de um carro após uma viagem de dez horas. Quando eu filmei o nascimento do meu filho, quase meu coração saía pela boca. Assisti repetidas vezes quando estava em casa sozinho, sem nada para fazer, aquele vídeo editado de pouco mais de cinco minutos. Mas na sala de cirurgia, do lado da minha mulher, parecia que estava passando uma semana inteira. Hoje meu filho já está crescido, tem 15 anos, e quando converso com ele durante vinte minutos parece que o tempo não é nosso companheiro, pois encurta esse momento e faz parecer um minuto. Vivo dizendo para ele que precisamos passar mais tempo juntos. Mas será que devemos passar mais tempo juntos ou devemos aproveitar melhor o tempo que nos é dado? Está aí uma coisa a se pensar.

Einstein disse que o tempo é relativo. Ele também disse que, quanto mais algo fica perto do centro da Terra, mais lento o tempo vai passar para essa coisa ou ser vivo. Tem algo a ver com a gravidade. Marshall também me disse isso: “Será por isso que as árvores, com suas raízes fortes fincadas abaixo da terra, duram centenas de anos, e nós, pobres mortais, duramos pouco menos de um século?”, me perguntou aquele sábio mendigo. Alguns cientistas dizem que o universo está desacelerando e o tempo vai ficando lento com essa desaceleração. Dizem que tem a ver com a tal 'matéria escura', que ninguém pode ver e seria a própria escuridão do espaço. Eu particularmente tento viver minha vida com experiências novas todos os dias, não por causa do efeito oddball e não por causa das árvores que duram séculos (mas nem saem do lugar) e nem por causa da matéria escura, mas sim porque sei o que todos sabem e todos, às vezes, se esquecem: vamos morrer. Há algo que chamamos de morte, e essa palavra serve para descrever quando um organismo para. Alguns dizem que a morte não existe, que há algo chamado 'espírito'. Nós, a humanidade, demos o nome de espírito a alguma energia (ainda) misteriosa que habita em quase tudo que dizemos que têm vida e depois dizemos que 'morre'. Bom, eu acredito em uma continuação, mas essa continuação talvez não seja inteiramente 'eu'. Marshall também me falou disso: “Meu jovem, eu vou morrer e você vai também. A Bíblia é sábia quando diz que do pó viemos e ao pó retornaremos. Isso simplesmente quer dizer que somos um agregado de células e moléculas que um dia se juntaram e um dia vão se separar, mas ainda continuarão por aí. Não importa se você é um milionário ou um mendigo, cada átomo que forma seu corpo um dia formará outras coisas”. Sabe, Marshall, esse é um conceito interessante do que as pessoas chamam de reencarnação. E o mendigo continuou dizendo: “Então, a questão não é se você tem férias de um mês e não as aproveita, a questão é aquele minuto que faz sua vida parecer uma eternidade, como ver um filho nascer, praticar seu esporte favorito ou andar de montanha-russa. O tempo é puramente emocional, meu jovem”. E, depois disso, eu ainda não reencontrei meu amigo mendigo rico em sabedoria. Ele sabe como ser imortal.

*Rívison Batista é jornalista [os personagens descritos acima são puramente ficcionais]