Ailton Villanova

23 de dezembro de 2015

– “Explicou também pro outro, professor?”

     Na sua humildade franciscana o saudoso Manuel Fernandes da Silva, que não era outro senão o indefectível Pai Manu, também se houve como um grande sábio. E no que se relaciona ao futebol, ele manjava de tudo e do resto.

     A partir de sua academia de futebol, o brioso Universal, Manu destinou ao bate bola nacional verdadeiros craques. No dia em que ele fechou os olhos para sempre, o Universal o acompanhou à eternidade.

     Manu morreu esquecido, como indigente, num leito de enfermaria hospitalar, vitimado por um acidente vascular cerebral – AVC. Por tudo o que fez pelo futebol amador, Manuel Fernandes da Silva ainda não mereceu o devido reconhecimento. Ainda estão lhe devendo uma verdadeira e justa homenagem.

     O bairro do Prado foi o reduto, o ponto de referência do velho “Universá” (era assim mesmo que Manu, seu criador, o chamava) e o saudoso campinho da Faculdade de Medicina, hoje transformado em praça pública (hoje recebendo os devidos cuidados da municipalidade), foi mais que seu “estádio”. Foi o seu templo.

     Certa época, entre os inúmeros atletas em formação no plantel universalino encontrava-se o distinto mancebo intitulado Reginaldo Macário (ele fazia questão de ser chamado de Régis), que insistia em jogar na posição de ponta-direita, em que pese não ter a menor habilidade para a posição que um dia foi honrada pelo maior jogador de futebol de todos os tempos, o Mané Garrincha. Bem que o bom Manu, com aquela sua paciência de Jó, tentou fazer do camarada um jogador de futebol.

     Certo domingo ensolarado de Verão, antes de um prélio vespertino amistoso com o Ponte Preta, no campo da Vila Operária da fábrica Alexandria, encravado entre o Bom Parto e o Farol, Manu resolveu dar uma oportunidade ao impoluto Régis. Chamou-o num canto e o advertiu:

     – Caboco, você vai jogar. Mas preste atenção numa coisa: esse Ponte Preta tem um fubéque chamado Gedivá, que é o cão chupando manga! Pra passá por ele com a bola no pé, o cabra tem que ser bom; tem que ser mais que Satanás!

     – Tem problema não, seu Manu. – retrucou o Régis. – Pode deixar ele comigo.

     Realmente, o zagueiro Gedival, irmão do grande Joab (aposentado do futebol e radicado em Portugal), era insuperável no desarme. Nenhum atacantezinho metido a besta passava por ele, impunemente, com a pelota no pé. A bola passava, mas o infeliz ficava estirado no chão, com a canela esfolada.

      E lá estava Pai Manu ensinando o Reginaldo como proceder para superar o Gedival:

      – Olha, menino, você vai pegar a bola e partir pra cima desse béque. Quando ele “vinhé”, você faz que vai sair pela direita, mas não sai. Você corta pro meio, tá entendendo?

      – Hum… Hum…

      – Então, quando ele voltar, você corta novamente pra direita e cruza pra cabeçada do “centrefó”, que já vai tá na “ária”, esperando a bola pra fazer o gol, entendeu?

      E o Régis, todo preocupado:

      – Ô seu Manu, eu agora fiquei pensando numa coisa…

      – Que coisa?

      – O senhor explicou isso também pra esse tal de Gedival?

 

 

Andava perdido

 

     Todo mundo biritando sossegado no Bar do Duda, em Mangabeiras, quando ingressa no ambiente o tal de Aristófelis, vulgo Biguá, bêbado virado na peste. Ele parou no meio do salão, deu uma cusparada de lado e mandou:

     – Feliz Ano Novo, rapaziada!

     Um dos farristas rebateu:

     – Qualé, ô cara? Tu tá bêbo ou tá doido? Já estamos em março!

     – Março???

     – Claro! Hoje é 27 de março!

     – Putaquipariu, meu! E onde bubônica eu estava até agora?!

 

 

Qual a bebida?

 

     Esta é do tempo em que a zona boêmia funcionava a todo vapor no bairro do Jaraguá. Sua via principal, a Sá e Albuquerque, era infestada de lupanares e barzinhos, que só abriam à noite. Pelo dia permanecia sendo, como ainda hoje, um logradouro pacífico, com um comércio tão movimentado quanto importante.

     Numa das transversais, estendendo-se até o Duque de Caxias, meretrício reservado à categoria dos viventes mais simples, funcionava a birosca do Nelson, um PM aposentado cuja pança era mais adiposa que a do sargento Garcia, desafeto do Zorro. O Bar do Nelson tinha um garçom chamado Fidélis, que era metido a entender de língua estrangeira. A zona do Jaraguá vivia entupida de embarcadiços estrangeiros, dada a proximidade do cáis do porto.

     Bendita noite, ingressa no bar em questão um grupo de negrinhos, todos alegrezinhos, que logo se acercaram de uma mesa. Eram marinheiros africanos. O que parecia ser o líder do grupo chegou pro Fidélis engrolando a língua:

     – Ugbuba uba tota ung skindô Coca-Cola?

     Fidélis olhou em redor para conferir a plateia, estufou o peito e respondeu cheio de boçalidade:

     – Sí, sí. Os señiores quieren un refrigerantito bien gelatito. Só non entendi lá marca!

 

 

Cocô fora do vaso

 

     Alcidésio Algaroba entrou em casa bronqueadíssimo e cheirando a merda. Dona Aristodêmia, sua esposa, reagiu espantada quando bateu o olho nele:

     – O que foi que houve, homem de Deus?

     – Tô puto, mulher! Tô puto!

     – Isso eu já notei. Fuuuuummmm… Mas… que fedor é esse?

     – Caguei na calça, num tá vendo?

     – Como foi isso, Cidinho?

     Ele se viu obrigado a explicar:

     – Eu estava voltando de Maragogi e aí resolvi parar num restaurante para fazer cocô. Eu estava que não me aguentava…

     – Mas cagou na calça!

     – Peraí, mulher! Deixe-me explicar!

     – Vá, explique.

     – Bom… arrieiei as calças, sentei no vaso e comecei a reparar no que estava escrito nas paredes… essas coisas idiotas que esses fiadaputas escrevem…

     – Sei, sei.

     – Tinha lá escrito: “Lá fora você é valente, mas aqui você é cagão”. Achei interessante e continuei lendo: “Não caga cantando que a merda sai dançando!”…

     – Essa é demais, nego! Rá, rá, rááá…

     – Também tinha essa que é incrível: “Se fiofó fosse ruim, Deus teria feito ele quadrado e cheio de espinhos”…

     Dona Aristodêmia embolou de rir:

     – Essa é pro sujeito se melar mesmo, meu filho!

     – Mas não foi com essa que eu me caguei.

     – Foi não?

     – Não. Bem na minha frente tinha uma frase escrita em letrinhas bem miudinhas. Sentado no vaso não dava pra ler de jeito nenhum. Cheguei mais pra perto, não conseguí… Então, me aproximei até quase encostar a venta na parede…

     – E o que tinha escrito, meu amor?

     – Estava lá: “Senta, babaca, que você está cagando fora do vaso”!