Rívison Batista

18 de dezembro de 2015

Carta de um Brasil chateado a um povo confuso

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Meu nome é Brasil. Nasci de pais diferentes, num processo chamado imigração. No começo, eram portugueses e africanos. Depois holandeses. E depois, para completar minha mistura, vieram italianos, alemães, japoneses e um pouco do mundo todo. Fico chateado quando os meus filhos brasileiros criticam imigrantes, pois muitos dos que criticam não existiriam se não fossem outros povos. Fui batizado em homenagem a uma árvore. A ironia disso é que meus próprios filhos adoram maltratar a minha natureza. Desmatam minhas florestas, caçam meus animais e matam meus rios e lagos. Tudo isso por causa de dinheiro. Meus primeiros filhos, os índios, conseguiram viver milênios sem dinheiro. Foram chamados de índios por engano dos europeus. Deveriam ser chamados de 'povo nativo'. Meu nome é Brasil, e às vezes me sinto uma Ferrari nas mãos de quem não tem carteira de motorista. Tenho tantas qualidades, meu povo é tão bonito, mas quem me guia não enxerga isso, só enxerga o tal do dinheiro. Eu sou o Brasil, e não sou PT, PSDB, PCdoB ou black bloc, muito menos ditadura militar. Sou uma nação apartidária que não entende como tantas promessas caem por água abaixo quando a pessoa sobe ao poder. A única ideologia política que deveria existir é a do apoio ao mais necessitado.

Assisto calado a um povo mudo sofrer e uma minoria desfrutar de mansões. Talvez, a cura para a falta da fala se chame educação, mas os governantes do povo mudo parece que gostam do silêncio. Meu nome é Brasil, e minha juventude vive meio sem esperança. Tenho grandes universidades, mas não tenho empregos para a demanda que se forma. Eu sou a mistura perfeita entre o negro e o branco. Entre o som da guitarra e o tambor do maracatu. Entre o contrabaixo e o berimbau. E não entendo como meu povo ainda conserva um preconceito por causa da cor da pele. Não entendo como ainda há pessoas que dizem que existe uma raça superior, quando na verdade não existe outra raça a não ser a raça humana. Eu sou o Brasil, e sou evangélico e candomblecista. Sou católico e espírita. Sou todas as religiões, e, ainda assim, há aqueles que fazem da sua crença um motivo para odiar o próximo. Deus deveria ser amor, e não uma arma ou armadura. Eu sou a cachaça e o chimarrão. Sou a Coca-Cola e o suco de laranja. Eu sou todos os sabores, e no entanto ainda há quem goste de ser amargo e xingar o próximo por causa da região de origem. Eu sou o Brasil. Sou um resumo do mundo. Sou fruto de uma invasão e sou um projeto ainda inacabado depois de mais de 500 anos. Me chamam de “País do Futuro”, mas não vejo futuro para muitos. Tenho o futebol melhor do mundo, mas também gostaria de ter a melhor educação do mundo e o melhor sistema de saúde do mundo. Tenho o tal do dinheiro para isso, mas muito desse dinheiro vai parar fora do meu alcance, na Suíça, ou dentro da cueca de algum político sacana.

Atenciosamente (e um pouco chateado),

República Federativa do Brasil.

 

*Rívison Batista é jornalista.