Rívison Batista

10 de dezembro de 2015

O homem máquina depois do apocalipse

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Um dos últimos homens da Terra, com a incrível idade de 102 anos e a jovialidade de um adulto de 40, caminhava por um litoral poluído, cheio de peixes mortos. Baleias boiavam ao longe, à medida que seus corpos se aproximavam da terra firme. Ele não sabia muito bem o ano em que estava, pois desde que começou a última grande guerra a energia no mundo acabou. Primeiro foi a falta de eletricidade, depois a falta de baterias, pilhas e geradores, e, por fim, a falta de petróleo. Não se tinham mais relógios para contar as horas e a passagem dos dias após a grande destruição ficou irrelevante. Ele nem sabia que tinha 102 anos. Tinha partes robóticas. Teve dinheiro para se cuidar, foi nos melhores centros de rejuvenescimento, mas agora o dinheiro era irrelevante. O sol começava a nascer na praia, misturando os raios de luz com o cheiro da morte. Alguns crustáceos corriam da pisada do homem, que já tinha sido milionário e agora andava como um animal moribundo. O “homem máquina” sentia a água bater no seu pé esquerdo (o direito era de metal) e lembrou de um tempo que a água era o “novo ouro” do mundo. Após desastres ambientais, a maioria dos rios e lagoas tinha perecido. Após a guerra nuclear entre ocidente e oriente, os oceanos ficaram tão radioativos que eliminaram a vida marinha. “Mas não era o mundo que estava morrendo, eram os seres. O mundo adoeceu, mas continua vivo”, pensava o “homem máquina”. O sol nascia e se erguia no céu cinzento. Nuvens de poeira cobriam boa parte da atmosfera. O mundo já conheceu épocas assim na antiguidade, quando grandes vulcões entraram em erupção e cobriam o planeta com cinzas, mas o homem armado e inconsequente superou a natureza usando bombas e queima de combustível. O cyborg caminhava tentando rezar o Pai Nosso. Já tinha esquecido de umas partes, seu cérebro era humano e falho. O messias não apareceu para salvar ninguém. Nem o pastor, nem o padre, nem o judeu, nem o homem-bomba. A humanidade discriminou e matou milhões por fé, talvez tenha faltado fé em si mesma. A última grande guerra foi denominada pela mídia logo no início de “A Guerra Santa”, pois o motivo do conflito foram diferenças religiosas. Durou anos, décadas. Atentados, mortes, prédios desabando, aviões caindo, milhões morrendo. Quando a situação se agravou mais, quando começaram os ataques nucleares, os presidentes das grandes nações dos homens se enfiaram em buracos com dezenas de metros de profundidade, mas a destruição não parou e muitos desses poderosos morreram de uma causa típica da miséria que ajudaram a criar no mundo: a fome. O sol já subia no céu, devia ser umas 9 da manhã. O “homem máquina”, a maravilha da tecnologia, cansou e sentou na areia fria. Pensou que talvez, depois de mil anos, o mundo se recuperasse. Com a fé perdida na humanidade, imaginou o paraíso que seria o mundo sem homens depois de mil anos. Pediu perdão ao deus que acreditava em nome de toda a espécie humana e caiu em um sono sem sonhos.

*Rívison Batista é jornalista.