Ailton Villanova

29 de novembro de 2015

Fim de Papo!

     Na juventude, o Elesbão Gumercindo foi um boêmio de marca maior. Concluiu o antigo curso primário no Grupo Escolar Alberto Torres, localizado no histórico e tradicionalíssimo Bebedouro, e logo passou a exercer o ofício de vigilante da estação de passageiros da Rede Ferroviária do Nordeste, situada no sobredito bairro. Naquela época, idos de 1937, ele já era ligado no barato musical que mais fazia sucesso nas vozes de Ataulpho Alves, Ciro Monteiro, Vicente Celestino, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Ivon Cury, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Francisco Alves. Na verdade, Elesbão era um cantor frustrado. Incontáveis foram as tentativas que fez para ingressar na vida artística, interpretando as chamadas “cavernosas”, que tanto maltratavam os corações das donzelas e balzaquianas apaixonadas, nas vozes dos astros relacionados nas linhas anteriores.

     Quando estava de serviço na estação da RFN, Elesbão não pregava o olho, porque estava sempre ligado nos programas das rádios Tupy, Nacional, Record, Mayrink Veiga e Clube de Pernambuco (Alagoas ainda não tinha ingressado na era da radiodifusão). Ele prestava mais atenção no receptor (um aparelho Philps de 12 válvulas), que levava de casa (na cabeça) para se deleitar com as audições musicais que varavam as madrugadas e entravam pelas manhãs. Valia a pena escutar os musicais, que eram apresentados pelos famosos locutores Jorge Murad, César Ladeira, Flávio Cavalcanti, José Renato, Collid Filho, César de Alencar… Décadas mais tarde, com a chegada da televisão, quase todos esses astros se transferiram definitivamente para ela.

     Vibrado nos musicais de outrora, Elesbão foi o primeiro alagoano a se utilizar da grande novidade da década de 50: o rádio portátil a pilha. Para onde ia, levava o aparelho à tira-colo. Morador da histórica Rua do Banheiro, que ficava a poucos metros de sua residência, no Bebedouro, Elesbão também tinha facilitado o seu acesso ao “gamba” do Alto da Palmeira, através de uma ladeirinha que serpenteava por trás de casa. As quengas do pedaço adoravam quando ele baixava por lá, carregando o seu volumoso rádio portátil. Parecia mais uma maleta.

     Elesbão já tinha a sua mesa garantida na birosca da Jandira, uma raparigona adiposa, cujos peitos desabavam até a altura dos joelhos. O amigão puxava a cadeira, sentava a bunda nela, sintonizava o aparelho radiofônico, abria o volume até topar, mandava descer uma garrafa de cachaça “Chica Boa” e um prato de sururu afarinhado… E chamava na grande. Era vida de rei.

     Nessa vivência, Elesbão gastou mais da metade do tempo estipulado para sua permanência no serviço ativo da empresa ferroviária. A boemia estragou sua performance como vigilante do patrimônio da RFN. Dia sim, dia não, ele chegava ao trabalho mais bêbado do que gambá. Depois, começou a faltar ao serviço. Foi demitido.

     Sem ter nada mais importante para fazer na vida, Elesbão Gumercindo resolveu fixar residência na área reservada ao meretrício do Alto da Palmeira e lá permaneceu até ser expulso pela dona do barraco que ocupava, por inadimplência e outras irresponsabilidades mais. Mas o rádio portátil ele não largava. E ficou fazendo biscates para sobreviver, em tudo quanto era biboca de Bebedouro e adjacências.

     A teimosia desse ilustre cidadão foi a salvação da sua “lavoura”, por um considerável período.

     Os anos se passaram, vieram os tempos mais difíceis e tortuosos que Elesbão teve de enfrentar. Mas, ele venceu, mais uma vez, a desgraça. Foi quando lhe surgiu uma oportunidade de emprego, dentro daquilo que ele mais sabia fazer: atuar como vigilante noturno numa empresa de transporte coletivo.

      Elesbão já completara 60 anos de idade e a boemia para ele já era considerada praticamente coisa do passado. Na ocasião em que foi confirmado para assumir, de imediato, o posto de vigilante noturno na sede da empresa referenciada, Elesbão fez uma exigência:

     – Concordo com tudo o que está aí o papel. Mas tenho uma pretensão, que gostaria fosse atendida…

     – Pois não. Que pretensão é essa, senhor Elesbão? – perguntou o rapaz que respondia pelo setor de pessoal.

     – Gostaria que a empresa me liberasse um rádio portátil, porque o meu não funciona mais. – esclareceu ele.

     – Perfeitamente! – concordou o funcionário. – Infelizmente, não podemos liberar hoje, esse rádio para o senhor…

     Exibindo a maior cara de tristeza, Elesbão lamentou:

     – É uma pena, doutor. Eu me habituei a trabalhar de vigia escutando rádio, sabe? Sou louco por um rádio. Não abro mão de ouvir a minha musiquinha, enquanto trabalho. Até porque o rádio não me deixar cochilar.

      Cidadão de bom coração, o chefe de pessoal compadeceu-se da situação do vigilante:

      – Vou quebrar o galho pro senhor… Mas, provisoriamente, certo?

      – Certo, doutor! – alegrou-se Elesbão.

      – Vou fazer o seguinte… lá dentro, no escritório, tem um rádio portátil muito lindo, que pertence à esposa do patrão. Por sorte, ela o esqueceu aqui!

      – Ôba!

      – Como o senhor vai começar no serviço esta noite, e não temos condições, no momento, de comprar um rádio novo, vou quebrar o seu galho lhe emprestando da patroa. Mas, vou logo lhe advertindo, seu Elesbão: esse rádio é caríssimo. Foi presente de aniversário do doutor Maurício para dona Ismênia, a esposa dele, que completou hoje 60 anos!

       – Parabéns pra ela! – bajulou Elesbão.

       – Um momentinho, que vou lá dentro busca-lo!

       Não demorou muito, o cara voltou com um embrulho finíssimo. Depositou-o sobre a mesa e, de dentro do referido, retirou um receptor radiofônico todo cheio de floreios dourados, coisa finíssima!

        – Olha, seu Elesbão, este vai ser o nosso segredo. Ninguém pode saber que lhe abri essa concessão. – advertiu o funcionário. – Ouça a sua musiquinha e depois coloque o rádio no devido lugar, tudo na conformidade do que encontramos, tá bom assim?

        – Tá, ótimo doutor. Deus lhe pague! Agora vou trabalhar sossegado.

        Horas se passaram e aí, por volta de meia-noite, Elesbão ligou o rádio no programa “Fim de Papo”, do Stênio Reis, puxou a cadeira que lhe fora destinada, sentou-se nela, esticou as canelas para relaxar um pouco e… tão cansado se achava que, sem querer, fechou os olhos. Mal fechou os olhos, agarrou no sono. Coincidentemente, naquele momento, foi passando um ladrão, sem e menor pretensão de afanar alguma coisa naquela empresa. Mas, ao reparar naquela coisa linda de rádio dando sopa no colo do vigilante, que puxava um ronco seguro, apossou-se indevidamente do aparelho. E saiu, rua afora, escutando, numa boa, o baixinho Stênio Reis interagir com os seus ouvintes.

     Dia seguinte, estavam no olho da rua, o bem intencionando funcionário da autoviária e, claro, o azarado Elesbão Gumercindo.