Ailton Villanova

22 de novembro de 2015

“ Êpa! Somente as bonitas!”

     Pelo menos duas características da personalidade do radialista e publicitário Luiz de Barros se sobressaem quando ele está de posse de um microfone: a fineza e a diplomacia. Bom amigo, profissional dedicadíssimo ao rádio e à propaganda, em que pese os seus mais de 80 anos de idade, Luiz de Barros permanece no batente, promovendo a alegria do público interiorano, através de shows artísticos, e até políticos, sempre patrocinados pelas prefeituras municipais. Luiz de Barros é muito querido nas Alagoas.

     Nas décadas de 50, 60, 70 e 80 LB reinou nos nossos auditórios, bem como Odete Pacheco, Sandoval Caju, Haroldo Miranda, Sabino Romariz, Luiz Tojal e Jorge Vilar, não cronologicamente nessa ordem. Um pouco mais para trás no tempo, o auditório da antiga Rádio Difusora de Alagoas – sediada, então, na rua Pedro Monteiro -, só faltava desabar de tão entupido de gente, quando Luiz de Barros levava ao ar, sempre às quintas-feiras, o seu famosíssimo “Vesperal das Senhorinhas”, que apesar do título sugerir ser a audição dedicada às madames já velhuscas, contraditoriamente só era frequentado pela juventude feminina maceioense. Em número reduzidíssimo, para lá também acorriam garotões namoradores, cujo intuito era o de paquerar as menininhas, muitas delas também com esse objetivo.

     As chamadas “pratas da casa“ não só se sobressaíam no Vesperal das Senhorinhas, inteligentemente escolhidas pela produção do programa, como também artistas pernambucanos e astros famosos do circuito Rio/São Paulo. Brindes, arrecadados no comércio local e que se destacavam como outros chamarizes do Vesperal das Senhorinhas, eram sorteados entre os frequentadores do auditório.

     As brincadeiras de auditório, na sua maioria de cunho educativo, eram outros dos atrativos que premiavam seus participantes. Frequentemente, surgiam no programa candidatos à cantoria que até surpreendiam. Eram os chamados “calouros”, que concorriam entre si com vistas a uma oportunidade no “cast” respectivo da emissora, ou aos prêmios que variavam entre calçados, liquificadores, bicicletas… uma gama de presentes valiosos. Essa sequência do programa era intitulada “A Hora do Calouro”. Vez ou outra,  Luiz de Barros bolava uma ideia para manter a hegemonia do programa. Um dia, ele lançou o concurso “A Garota Mais Bonita da Cidade”, cujo júri era composto de estrelados dos meios artístico, social, cultural, esportivo e estudantil locais. A premiação, Luiz de Barros anunciou com certo mistério:

     – A vencedora ganhará um prêmio milionário! Mas, por enquanto, é surpresa!

     No dia do lançamento desse segmento, as filas na rua Pedro Monteiro –  onde, conforme já disse, se situava a Rádio Difusora – eram enormes. De um lado, principiava na Praça dos Palmares. Do outro, tinha início na confluência com a Dias Cabral, artéria que passa pela frente da Santa Casa.

       O Vesperal das Senhorinhas nesse dia assinalava uma temperatura altíssima, apesar do período invernoso. Transpirando por todos os poros, Luiz de Barros comandava com mais entusiasmo ainda, a atração das quintas-feiras. O auditório, expectante e inflamadíssimo, se esgoelava até o último grau, na medida em que cada atração desfilava pelo palco/auditório da emissora.

        Já no final da tarde, eis que, finalmente, Luiz de Barros anunciou para o distinto auditório e público ouvinte, a grande atração do programa:

         – Atenção, senhoras e senhores! Caros ouvintes! É com grande prazer que anuncio a atração final do nosso programa… – aí, ele fez uma pausa.

         Nesse momento, a orquestra do maestro Antônio Paurílio mandou ver uma introdução de lascar, através dos seus metais:

         Tchannnn… Tchan… Tchan… Tchaaaannnnn…

         – … A Maaais Beeeela Garooota da Cidaaadddeee! – completou o apresentador.

         Outro acorde da orquestra do Grande Paurílio:

         Tchaaannn… Tchaaannn… Tchaaannn…

         O auditório quase foi abaixo. As candidatas, todas elas previamente selecionadas, estavam sentadas na primeira fila do auditório, na maior das apreensões. Algumas, até, roendo as unhas.

         E Luiz de Barros, no centro do palco, sem esconder a sua emoção:

         – Senhores do Corpo de Jurados, peço a melhor das suas atenções, porque este concurso é da mais alta responsabilidade…

         A palma comeu no centro. Assobios mil.

         – Peço silêncio a todos! – prosseguiu o apresentador. – Nossa responsabilidade é grande! Inclusive perante os nossos patrocinadores, que estão nos garantindo o sucesso desta atração…

         Mais palmas. Mais assobios.

         – Obrigado, auditório. Mas eu preciso continuar com a parte final do nosso programa. Devo anunciar que a primeira colocada, ou melhor, a Moça Mais Linda da Cidade ganhará uma viagem ao Rio de Janeiro, com direito a acompanhante!

         O auditório novamente ameaçou ruir, tal era a agitação da galera. E o Lula:

         – Por favor, minha gente, calma! Calma, porque agora eu vou chamar a primeira candidata a ser submetida ao crivo do nosso corpo de jurados!

         Dito isto, Luiz de Barros passou uma vista de olhos pelo auditório, inflou o peito e lascou lá:

         – A primeira candidata a desfilar no nosso palco é a senhorita…

         Silêncio sepulcral no auditório.

         – … é a senhorita Olávia Pliquitildes!…

         Da ponta direita da primeira fila do auditório destacou-se uma galegona dos seus mais de 100 kg, sorrindo de orelha a orelha. Com passos firmes, subiu ao palco, aplicou um sonoro beijo na bochecha esquerda do apresentador, levantou o braço tal qual militante petista e berrou para a platéia:

          – Alô auditóriôôôô…

          Ao levantar o braço roliço, a candidata exibiu uma pentelheira sovacal incrível. O apresentador, que atônito se encontrava até aquele momento, recuperou-se imediatamente e encarou a candidata:

          – Quem foi que teve a ousadia de lhe inscrever neste concurso?!

          E ela, mastigando chicletes:

          – Eu mermo seu Luiz! Por quê?

          – Porque o concurso é só para a moças bonitas…

          – Ôxi! E eu num sô bonita, não?

          – É não! É feia! Pode descer!

          Olávia desceu do palco no maior dos prantos e protestando mais do que militante esquerdista dos tempos gloriosos.

          O programa terminou aí.