Ailton Villanova

18 de novembro de 2015

O troco da Maricleusa

     “Uma pessoa de Deus”. É assim que parentes, amigos e vizinhos ainda hoje classificam a Maria Maricleusa Alecrim, evangélica tradicionalíssima lotada na não menos conservadora Igreja do Amor Divino, administrada pelo pastor Angélico Beltrão, religioso muito diferente de certos colegas que só pensam em arrancar dinheiro de ingênuos fiéis; quando não isso, se apossam da boa fé de seguidores incautos, roubando-lhes até a dignidade.

     E Maricleusa, muito bonita fisicamente, belíssima e digna no mais alto conceito comportamental de mulher, apaixonou-se, um dia, pelo tal de Pertínio, evangélico só de fachada. Sujeito boçal, ele também caiu de amores por ela e logo a estava conduzindo à presença do pastor Beltrão, que oficiou o casório numa cerimônia cheia de pompas.

     Maricleusa, além de excelente dona de casa, era funcionária pública federal de categoria. Na repartição onde atuava (hoje está aposentada), sempre foi querida por todos. Por outro lado, o marido, que se dizia “corretor de imóveis”, jamais conseguiu vender uma choupana, não porque não tivesse papo pra isso, mas porque era preguiçoso além da conta. A mulher era quem sustentava a casa e o luxo do marido, que só andava montado num carro novo, comprado com o dinheiro da dedicadíssima esposa. E tem mais: muito na moita, o sacana bebia a sua cervejinha até altas horas da noite, aí pelas quebradas da cidade. Quando voltava pra casa, era botando banca.

     Um belo começo de madrugada, quando chegou para dormir, Pertínio encontrou Maricleusa cuidando do almoço do dia seguinte (o casal não dispunha de empregada doméstica e, ainda mais, porque, de manhã, logo cedo, ela teria que partir para o trabalho).

     – Ainda tá na cozinha esta hora, mulher? – indagou o marido, cheio ironia.

     – É o jeito, não é meu amor? – respondeu a santa esposa.

     – Por que não arruma uma empregada pra fazer esse serviço?

     – Porque não tenho dinheiro suficiente para contratar uma cozinheira. Se pelo menos você contribuísse com algum dinheiro… acho que poderíamos nos  dar à esse luxo. – ponderou Maricleusa.

     E o cara:

     – O que é que você tá querendo dizer com isso? Tá me chamando de vagabundo?

     – Você é quem está dizendo. Só sei que eu é que tenho de me esforçar para manter a casa…

     – E ainda mais dando uma de cozinheira! – censurou o marido. – Se ao menos soubesse cozinhar…

     – Pois fique sabendo que eu cozinho muito bem. Se você quiser comer da minha comida, coma. Se não quiser, procure um restaurante bacana.

     A discussão rolou durante mais de uma hora, com o chato do Pertínio imputando à mulher os erros ocasionalmente cometidos na administração do lar:

     – Você é uma incompetente! Além de não saber cozinhar, não sabe passar roupa a ferro, não sabe trocar uma lâmpada queimada, não sabe pregar um prego na parede…

     – Isso é serviço seu, que só quer viver na malandragem! – rebateu a mulher.

     – Sou malandro, sou? Mas você gosta quando está comigo na cama, não gosta?

     – Não gosto e nem preciso disso, fique sabendo. Gostaria, se você fosse homem de verdade!

     – Está me chamando de frouxo, é, sua quenga? Pois você vai ver agora o que é um macho de verdade!…

     Mal fechou a boca, Pertínio partiu pra cima da mulher com gosto de gás. Mas o seu ímpeto foi contido por uma providência defensiva da delicada e santa esposa: a panela de água fervente que tinha nas mãos, ela atirou na cara do sujeito – chuuuááááá…

     O que se sabe é que Pertínio já se submeteu à 35 cirurgias reparadoras na cara e ela jamais voltou ao normal. Maracujá maduro é mais bonito.

 

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Valeu pela enfermeira

     Numa lanchonete de determinado shopping da cidade, dona Percilina encontrou-se com a amiga Tamarinda, e tome papo. A certa altura, a amiga perguntou:

     – Que novidade, você passeando a esta hora aqui no shopping, Perci!

     E ela:

     – É que estou meio de folga, sabe, Tamá? Meu marido Oscar está internado no hospital. Quebrou o dedinho do pé numa pelada e vai passar dois meses no estaleiro.

     – Dois meses internado por causa do dedinho?! – espantou-se Tamarinda. – Tem certeza? Você já viu o médico?

     – Bem, o médico ainda não. Mas vi a enfermeira…

 

Como não chorar?

     O bonitão dirigia o seu conversível importado quando uma deliciosa morena, postada na margem da pista, deu com a mão pedindo carona. Ela entrou no carrão e logo entrosou um papo com o galã. Conversa vai, conversa vem, pouco depois estavam íntimos. Porém numa curva, estourou um pneu, o carro se descontrolou e saiu da estrada. Imediatamente, encostou um guarda rodoviário e encontrou o bonitão chorando desesperado, agarrado ao volante.

     – Calma, amigo. Não precisa chorar desse jeito. Não aconteceu nada à moça. Quando o carro saiu da pista, ela foi jogada fora e caiu num monte de palha. Só desmaiou.

     – Eu sei, eu sei – soluçou o cara. Mas você viu o que foi que ficou na mão dela?

O primeiro marido

     O guarda do cemitério, ao fazer sua ronda, deparou com a triste cena de um homem, debruçado sobre um jazigo, soluçando profundamente e socando a lápide com os punhos.

     – Por que você tinha de morrer? Por quê? – ele chorava incontrolavelmente.

     O guarda chegou junto e tentou consolar o infeliz:

     – A perda de um ente querido é realmente terrível, meu amigo. Um dia a dor passará.

     – Ente querdido? – rebateu o chorão, com expressão um tanto surpresa. – Eu nem conhecia o cara!!! 

     – E por que está chorando tanto?

     – É que ele foi o primeiro marido