Ailton Villanova

15 de novembro de 2015

“Defunto” fujão

     O vaqueiro Floriano Pereira, vulgo “Fole Véio”, tido e havido como exímio montador de todas as raças de cavalo, facilitou demais numa corrida aloprada atrás de um garrote desgarrado e… cataplaft! – caiu do cavalo. Literalmente. Isso, em plena caatinga. No que caiu, enfincou a cabeça numa pedra enorme. E ficou lá, sem sentidos, em estado comatoso.

     Uns colegas que assitiram à cena pegaram Fole Véio e correram com ele pro hospital de Delmiro Gouveia, onde passou mais de uma semana, até ser declarado “meio morto, meio vivo”; mais pra lá do que pra cá. Aí, surgiu uma alma boa e solidária que soprou no ouvido da quase viúva, dona Maria do Amparo:

    – Olha, lá em Arapiraca tem um doutor que é que nem Jesus: de vez em quando faz um milagrezinho. Se eu fosse a senhora, pegava o seu marido e corria com ele pra lá. Não custa nada, né não?

    Dona Amparo deu garra do Fole Véio, botou numa ambulância, e se mandou com ele até a clínica do doutor Warner Leite de Assis, que na época ainda não tinha trocado a Medicina pelo Direito.

    Warner meteu o olho clínico no doente e diagnosticou, ligeirinho:

     – Bom, madame, o juízo do seu marido ficou meio frouxo com a porrada que levou. Se por acaso escapar, ficará lelé da cuca…

     E dona Amparo, toda chorosa:

     – Eu sei que é Jesus no céu e o senhor na terra… Dê um jeitinho no meu marido, doutor!

     E Warner, bastante sincero:

     – Às vezes, madame, tem casos que nem Deus dá jeito. Este é um deles. Acho bom a senhora ir logo preparando o caixão, as velas e a sepultura pro infeliz!

     Religiosíssima, dona Amparo definiu:

     – Tá bom. Mas o meu marido só será enterrado depois que o padre “encomendar” a alma dele à Deus!

     Depressinha mandaram chamar um padre, que já entrou na clínica do Warner de terço na mão e reza na ponta da língua. Em seguida, sapecou água benta no quase-morto e danou o “par de queixos” pra frente. No primeiro Amém, Fole Véio abriu os olhos. O reverendo persignou-se e o candidato a finado sentou-se na cama, espantado:

     – Uquié qui tá havendo puraqui? Onde qui tô? Pur qui essa rezadêra toda no meu pé d'uvido??

     E o padre, cheio de direito:

     – Fique quieto e preste atenção nas orações! Estou ministrando a Extrema Unção!

     – Ôxi! E qui danado é isso?

     – É a encomendação da sua alma à Deus. Você está às portas da morte, meu filho!

     – Tô uquê?

     – Tá quase morto! Silêncio que agora eu vou terminar a reza.

     Fole Véio passou o olho em redor, e a primeira coisa que viu foi a esposa desmanchando-se em lagrimas. Depois, reparou no caixão de defunto encostado na parede, prontinho para ser utilizado.

     Fole Véio não esperou por tempo pior. Pinoteou da cama e disparou porta afora e ganhou o ôco do mundo.

     Nunca mais se ouviu falar dele.

 

 

Azar do “pé-de-pano”

 

     O telefone tocou na residência do Otonebaldo, ele atendeu e o amigo Floriolano disparou de lá:

     – Amigão, estou te telefonando para te dar uma notícia triste, rapaz.

     E o Otonebaldo:

     – Olha, vem devagar, hein? Meu coração anda meio esculhambado desde que a Marinete me abandonou…

     – Tá legal. Vou devagar.

     – Então, manda!

     Floriolano mandou:

     – Sabe quem esticou as canelas?

     – Puta merda! E isso é devagar, cara? Diz logo quem morreu.

     – Foi o Bezerrão, meu primo!

     – Ô mano, meus pêsames. Do que foi que ele faleceu? Infarto?

     – Não.

     – E qual foi a causa, então?

     – A causa foi a porra de um avião!

     – Avião?! Onde foi o desastre?

     – Na casa do assassino mesmo.

     – Assassino? Ah, já sei: o avião caiu na casa do assassino, então. Mas assassino de quem? Me explica aí, que eu não estou entendendo nada!

     O Floriolano explicou:

     Bezerrão fora executado pelo marido da mulher com a qual havia sido flagrado numa horizontal imprópria para menores de 25 anos. Altíssima sacanagem.

     O tal marido, que àquelas alturas deveria estar em São Paulo, havia perdido o avião.

 

 

Tentando driblar a morte

 

     Convocado para participar de um “racha” na praia do Sobral, o escurinho Murilo Jorge, o Nêgo Lápis, aceitou entrar em “campo” numa boa.

     Bom de bola, assim que pegou na pelota driblou quase todo time adversário e fez o primeiro gol. Vibração total entre os companheiros de equipe.

     Novamente o negrão com a bola no pé. Dessa vez ele passou da conta na humilhação: driblou todos os contrários, incluindo o goleiro e os reservas, foi até a boca do gol, voltou para o meio do campo e sentou na pelota. Muito puto, o zagueiro adversário chamado Louro Pezão, por sinal ex-presidiàrio, decidiu tomar-lhe a pelota, e partiu firme pra cima do atleta abusado. Ficou de bunda no chão, desmoralizado.

     Dessa vez o negão decidiu fazer o gol. Fez. Na volta, zonou com a cara do Pezão:

     – Vai pra casa, perna de pau!

     Pezão jurou pra si mesmo que se vingaria pela humilhação sofrida. Disfarçadamente, foi até o lugar onde havia deixado suas roupas e, de lá, retirou uma faca-peixeira, que botou na cintura. Ninguém viu nada.

     Novamente Nêgo Lápis com o balão de couro. Ele corria na areia de dente arreganhado pra cima do zagueiro, quando aconteceu a tragédia: desabou no chão, esvaindo-se em sangue. O Pezão havia cravado a faca no meio da barriga do negrão.

     Até hoje Nêgo Lápis tenta driblar a morte.

 

 

Duas más notícias

 

     Quatro sujeitos transportavam um piano até o 10° andar de determinado prédio de apartamentos. Insatisfeitos com a missão e já cansados, um deles falou:

     – Alguém aqui vá saber quantos andares nos faltam…

     Aquele que se achava na parte dianteira da subida, respondeu:

     – Deixa comigo, que eu vou saber.

     O cara subiu até o décimo andar e deduziu: “Bom, se subi seis andares, é lógico que estamos no quarto andar.

      Ele retornou e falou para os companheiros:

      – Turma, tenho duas más notícias…

      Aquele que primeiro havia reclamado do cansaço, retrucou:

      – Acho bom você deixar de conversa mole. Diga apenas uma notícia. A outra você diz quando a gente estiver lá em cima, no décimo andar.

      – Ok! Faltam seis andares para a gente chegar no décimo…

      E assim foi. Os quatro cansados pra caramba, chegaram quase mortos ao 10° andar e um deles perguntou àquele que havia subido antes para conferir o número de andares a serem alcançados:

      – E agora, meu chapa, qual era a outra má notícia?

      – O prédio não é este!

 

 

Medicação ideal

 

     O farmacêutico Paulo Nascimento chegou cedo a sua farmácia e observou que havia um cara petrificado, com os olhos esbugalhados, mão na boca, encostado em uma das paredes. Intrigado, ele perguntou ao auxiliar:

     – O que significa isso, Laércio? Quem é a pessoa que está encostada naquela parede?

     Laércio esclareceu:

     – Ah, é um cliente. Ele queria comprar remédio pra tosse. Como está caro e ele não tem dinheiro, eu lhe vendi um laxante.

     O dono da farmácia invocou-se:

      – Você ficou doido, rapaz? Desde quando laxante é bom pra tosse?

      E o Laércio:

      – Veja o medo que ele tem de tossir!

  

Erros demais

 

     Tremendo cara-de-pau, o Josclério entrou pisando firme no gabinete do chefe de departamento pessoal da empresa para a qual trabalha, e reclamou pro referido:

     – Doutor Píndaro, este mês o meu salário veio faltando R$ 500!

     Tranquilão, o chefe respondeu:

     – Josclélio no mês passado, nós lhe pagamos R$ 500 a mais e você ficou quieto. Agora que a gente está lhe pagando R$ 500 a menos para compensar, você reclama?

     E o Josclélio:

     – Um erro eu deixo passar, mas dois já é demais!