Ailton Villanova

11 de novembro de 2015

Um artilheiro realmente matador

     Nos meados dos anos 40, existiu no Tabuleiro do Martins um time de futebol intitulado Botafogo, cujo atleta principal era um tal de Pirrita, caboclinho de metro e meio de tamanho e das canelinhas fininhas. Seu nome verdadeiro era Anacleto Gomes. Dizem os de sua época que ele era o cão chupando manga, quando estava com a pelota nos pés. Driblava até deitado. Quando pisava no campo do bate-bola, o adversário começava a rezar.

     Segundo o jornalista e maior pesquisador do esporte nacional Lauthenay Perdigão, Pirrita só não foi convocado para o selecionado brasileiro de 1948 por um detalhezinho safado: ele só entrava em campo biritado.

     Belo dia, o Botofogo desse fenomenal pebolista, recebeu o convite para preliar amistosamente com o Esporte Clube 11 de Março cuja sede social ficava no antigo Planalto do Jacutinga, hoje Farol, mesmo local onde mantinha a sua praça de esportes. Convite aceito, chegou o dia do prélio, um domingo de tarde.

     O local da contenda encontrava-se entupido de torcedores, que haviam se deslocado da Pitanguinha, Pinheiro, Bom Parto e Bebedouro. Maior agito. Um detalhe: o campo do bate bola não possuía grama. Era de chão batido e nenhum jogador calçava chuteiras, porque naquela época só quem se dava a esse luxo era jogador de time grande, da elite, como CSA e CRB. No caso presente, só quem não estava de pés descalços era o goleiro Tibúrcio, do 11 de Março, que era sargento da Polícia Militar. Ele entrou em campo com os pés protegidos por um tremendo coturno.

     Começou o jogo.

     Na primeira bola que o Pirrita pegou, ele quase foi assassinado pelo seu marcador, o zagueiro chamado Môa Pé de Prancha. O cara pulou com os dois pés na caixa dos peitos do baixinho, cujo coração quase saltou pela boca. O árbitro, um tal de Batata, fez que não viu o lance. Naquela hora, inventou de cortar a unhas, com uma tesourinha que tirou do bolso da calça.

     Novamente, Pirrita com a bola. Ele fez que ia pra cima do Pé de Prancha, o dito cujo avançou babando, e de dente arreganhado. O baixinho girou o corpo para a direita, jogou a bola por entre as pernas do grandalhão e deu uma volta pela esquerda. O sujeito caiu de bunda no chão, humilhadíssimo.

     O primeiro tempo terminou com o Botafogo vencendo de 18 x 0 e o seu astro principal quase morto de tanto levar porrada. Mas ele voltou pro segundo tempo com ar misterioso e segurando a cintura.

     Nâo demorou muito, veio o lance fatídico. Pirrita ajeitou a pelota na coxa direita e se preparou para, mais uma vez, enfrentar o Môa Pé de Prancha. Foi quando este, sacando uma faca peixeira do calção, gritou cheio de ódio:

     – Se prepare para morrer, nanico fiadaputa!

     Tranquilo e calmo, Pirrita só fez meter a mão por baixo da camiseta, puxar um revolverzinho do calibre .22 e chamar o dedo no gatilho – pá, pá, pá, pááá… quatro tirinhos só.

     E Pé de Prancha caiu estrebuchando no chão. Não morreu mais vezes porque ele era um só.

 

 

O morto não era tarado!

 

     Quando a fábrica de tecidos do distrito fabril de Saúde fechou suas portas, centenas de pessoas ficaram desemparadas. Um dos seus operários, o Manuel Messias, procurou se virar, atuando na construção civil, alimentando a esperança de que um dia voltaria a manusear teares em alguma indústria têxtil.

     Inexperiente no setor, o Messias trabalhava como auxiliar do chefe da obra, no décimo andar de um edifício em construção na área elitizada da capital, quando, de repente, atacou-lhe a irreprimível vontade de fazer um pipizão. Achando que não haveria tempo descer até o térreo para esvaziar a bexiga, ele resolveu que seria ali mesmo. E ja desabotoava a braguilha do macacão quando surgiu o engenheiro da obra:

     – Êpa, rapaz! Aí, não! Vai ficar cheirando a mijo!

     – Mas, doutor, até que eu chegue lá embaixo eu me urino todinho!

     O engenheiro resolveu colaborar:

     – Então, vamos fazer o seguinte… eu pego essa tábua do andaime, deito ela aqui no piso, empurro a metade para fora e fico fazendo pressão aqui em cima, na outra metade, do lado de dentro. Você vai até a ponta e, tranquilamente, despeja o mijo lá pra baixo, tá ok?

     – Tá ok, doutor!

     Messias posicionou-se conforme sugerira seu chefe, começou a fazer chuvisquinhos de mijo quando alguém gritou para o engenheiro:

     – Doutor Claudemir! Telefone pro senhor, no 9° andar!

     Esquecendo-se do operário, o profissional da engenharia desceu correndo para atender ao chamado telefônico. A tábua, onde Messias se apoiava, despencou, então, do décimo andar, conduzindo o infeliz, que estatelou-se lá embaixo.

     Minutos depois chegava a polícia, para fazer o levantamento do local, porque perícia criminal não existia. Enquanto os investigadores faziam o seu trabalho, o delegado do plantão interrogava testemunhas. Ninguém na obra nada tinha a acrescentar ao que já se sabia, isto é, que a vítima havia caído do 10° andar. Em dado momento, chegou um policial conduzindo um cidadão à presença do delegado, afirmando que na hora em que se deu o fato, o referido se achava na janela do seu apartamento, no prédio fronteiriço e que ele tinha visto tudo. O delegado, então, perguntou se ele tinha realmente tinha alguma coisa a declarar:

     – Tenho, doutor… Acho que o morto era tarado! – respondeu a testemunha.

     – Tarado? Mas por que o senhor afirma isso?

     – Eu não afirmo. Apenas tenho a impressão…

     – Tá bom. Por que o senhor tem a impressão que a vítima era um tarado?

     – É que quando ele estava despencando do alto do prédio, de braguilha aberta, segurando o pênis pra fora, ele gritava: “Cadê aquele viado? Cadê aquele viado?”

 

 

Nem jogo e nem novela

 

     O popular Giba “Cara de Queijo” encontrava-se num pé e noutro, doidinho para ver, pela televisão, o seu Corinthians jogar com o Palmeiras. Mas cadê que estava conseguindo?

     Na noite daquela quarta-feira, a mulher dele, dona Marsúpia, monopolizava o único receptor de Tv que havia em casa. Ela assistia à novela das oito, da Rede Globo.

     E o Giba, aperreado, pra lá e pra cá:

     – Como é, mulher, essa merda de novela ainda não terminou? Quero ver o meu jogo pela Bandeirantes!

     – Ahá! É ruim, hein? Jogo nem tão cedo! Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva. Quando eu acabar de ver a minha novela, vou mudar de canal pro SBT. Não posso perder o programa da Hebe Camargo! (É claro que a Hebe nem sonhava em morrer!)

     – E o meu jogo, mulher? Quero ver o meu Corinthians!

     – Vão pra casa da peste você e o seu Corinthians! Tô nem aí! Por que você não compra outro televisor?

     O que aconteceu a seguir, foi um negócio incrível. Impedido de ver o seu “coringão” bater bola na TV, o Giba endoidou: ele pegou o televisor e atirou na cabeça da mulher, quase abrindo-a em duas bandas. Em seguida, juntou os cacos do aparelho e jogou no meio da rua.

     Nem jogo e nem novela!