Ailton Villanova

10 de novembro de 2015

– Acooorda Ernande!!!

     Advogado, funcionário aposentado da Assembléia Legislativa Estadual, José Carlos Campos foi um respeitado locutor esportivo nas Alagoas. Também atuou, com grande sucesso, como disquejóquei.

    Boa praça, Zé Carlos frequentou todos os prefixos da capital, mas foi na Difusora onde mais se deu. Uma coisa que não mexeu com o espírito desse ilustre radialista foi a televisão. Apesar de inativo profissionalmente, ainda hoje ele continua “viciado” em rádio e torcedor fanático do CRB. Tanto que, quando na ativa, dificilmente era escalado para transmitir jogos envolvendo o alvirrubro da Pajuçara. Zé Carlos torcia mais do que narrava.

     Quando integrava a equipe esportiva da Difusora, dividindo com Reinaldo Cavalcante e Arivaldo Maia a responsabilidade de comandar as transmissões de jogos tanto em Maceió, quanto no interior, e além das fronteiras de Alagoas. Belo domingo, ele foi escalado para fazer a narração do jogo CSA x ASA, na cidade de Arapiraca, válido pelo campeonato alagoano.

     A equipe em referência, que além do Zé Carlos era constituída, do repórter João José (o finado “Psí”) e do sonotécnico José Mário, saiu de Maceió pela manhã bem cedo, depois do café, levando ainda, de “penetra”, o contra-regra e cantor Ernande Silva. O almoço ocorreu numa churrascaria da periferia da “Terra do Fumo”. Zé Carlos e equipe optaram por uma carne de sol, que estava danada de salgada.

     Antes de iniciar a narração do jogo, Zé Carlos já havia tomado uma dúzia de refrigerantes, porque a sede, resultante do sal exagerado da comida, começou a exigir líquidos e mais líquidos no organismo da turma, com maior ênfase para o narrador.

     Terminado o primeiro tempo do prélio, José Carlos Campos botava fumaça pela boca, tão seca ela se achava. Aí, ele aproveitou o intervalo e mandou goela abaixo, dois copos de caldo de cana e mais um litro de água gelada. Então, na condição de líder da equipe, se achou no direito de dar uma tarefa ao Ernande, que estava ali para “alguma eventualidade”. Chamou-o num canto e falou:

     – Ernande, é o seguinte… já que você veio, vai ter que trabalhar também. Fique aqui por perto, porque, de repente, a sede volta a me bater durante a transmissão e você vai ter que correr até o bar, com a incumbência de pegar um refrigerante pra que eu possa molhar a garganta, tá entendido?

     – Falou, colega. Pode deixar comigo. Quando quiser, é só dar o toque, que estarei aqui, bem pertinho.

     Tudo combinado, Zé Carlos passou a grana por Ernande e entrou na cabine de locução, onde deu sequência ao trabalho de descrição da partida. Enquanto isso, o que fez Ernande Silva? Meteu um óculos escuro na cara, sentou no último degrau da arquibancada, colou o radinho de pilha no ouvido, apoiou as costas na parede e agarrou no sono, apesar de toda a gritaria da torcida.

     Não demorou muito, olha o Zé Carlos com sede, novamente! De lá da cabine de transmissão, dava pra ele ver o Ernande à vontade. Imaginando que o companheiro estava ligado no serviço, Zé Carlos fez um sinal com o polegar levantado. Nada do Ernande se mexer. Levantou o polegar mais alto. Ernande nem aí, puxando um ronco seguro.

     Como o folgado auxiliar não dava sinal de vida, e imaginando que o radinho de pilha que ele tinha ao ouvido serviria para alertá-lo, o Zé Carlos passou a usar a narração da partida como último recurso para despertar o dorminhoco. E se saiu assim:

     -“Bola na esquina da área… perigo para a meta do time arapiraquense… ACORDA, ERNANDE!… Rechaça a zaga do ASA, o balão de couro viaja alto, cai na intermediária adversária… ERNANDE, OLHA O MEU REFRIGRANTE, RAPAZ!… Arremesso lateral para o CSA, que é interceptado pelo ataque alvinegro arapiraquense… A SEDE TÁ DE LASCAR, ERNANDE!…”

     Atrás da meta do ASA, o repórter João José estranhou a inclusão daquele atleta de nome Ernande na narração do Zé Carlos. Consultou suas anotações, não constava o nome do cara em nenhuma das escalas dos litigantes. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, ele indagou do companheiro, em plena transmissão:

     – Meu caro José Carlos Campos, em que time está jogando esse tal de Ernande?

      O indagado não perdeu tempo e respondeu em cima da bucha:

      – Esse cara não está jogando em nenhum dos dois times, João José. O que ocorre é que faz um tempão que estou tentando acordar o Ernande Silva, que está dormindo aqui na arquibancada. Estou querendo que ele me traga um refrigerante, porque estou com a garganta seca… ACORDA ERNANDE!

      Ernande acordou atordoado, girando que nem peru bêbado, porque as duas torcidas ali presentes, repetiu em peso o apêlo desesperado do José Carlos Campos. Foi um grito só, que ecoou no estádio inteiro:

     – ACOOORRRDAAA, ERNNNAAADEEE!

 

 

Música de milhões

 

     Gama Filho foi um esforçado corretor de anúncios para o rádio que, um dia, teve a infeliz idéia de ser locutor. Estreou na Rádio Palmares, à época de propriedade da Arquidiocese de Maceió, com a bênção do saudoso Dom Fernando Iório Rodrigues, que ainda não era Bispo. Era cônego e diretor-geral da emissora.

     Homônimo de uma das mais brilhantes inteligências brasileiras – o renomado prof. dr. Gama Filho, patrono de uma das maiores universidades privadas do país -, o nosso Gama Filho foi, o que se pode afirmar, o oposto, em termos de cultura geral, principalmente no trato com a língua pátria.

     Montado na condição de locutor de rádio, o bom Gama Filho inaugurou na Palmares o programa “Gama Show”, aquele besteirol que a gente está acostumado a ouvir nas nossas rádios.

     Meados de 62, estava ingressando nas paradas de sucesso do país inteiro uma música lançada pelo grupo vocal Renato & Seus Blue Caps, que tinha um tíitulo insólito: “467723”. Pronunciava-se assim: “Quatro-meia, sete-sete, dois-três”. Resumia o apêlo de um desafortunado rapaz, que pretendia contato com a garota dos seus sonhos. Num trecho da composição músical, emergia, desse modo, o apelativo do tal jovem perdido de paixão:

     “Meu amor, preciso lhe falar/ ligue pra mim: quatro-meia sete-sete dois-três”, etc, etc.

     Gama estava por fora dessa música. Aliás, ele sempre estava por fora de tudo quanto era música, apesar de autointitular-se disquejóquei. Então, o discotecário (hoje nominado produtor músical) Járed Calheiros programou a dita música pro programa do Gama, certo de que o indigitado estava ligado no barato. O sonoténico rodou a música e, quando ela terminou, o Gama teria que anunciar corretamente o seu título, seguido do nome do compositor, conforme é de praxe no rádio. E saiu-se assim:

     – Acabamos de ouvir, na interpretação de Renato & Seus Blue Caps, o grande sucesso intitulado… hummm… errr… aahnn… xovê… Aahááá! “Quatro milhões, seiscentos e setenta e sete mil e vinte e três”! Eita musiquinha pai d'égua! É número que não acaba mais!