Ailton Villanova

5 de novembro de 2015

Finalmente, a tese!

      Depois de exaustivas e percucientes pesquisas, que duraram dez anos e meio, eis que finalmente conclui minha tese antropólogo-criminológica sobre o “Apodus Imbecilis Complicadus”. Companheiros diletos e amigos mais chegados acompanharam de pertinho esse meu esforço contributivo à ciência. “A tese é incontestável”, opina o ilustre mestre Valkimar Hipérides (qual o estudioso que não o conhece?)

      Aqui pra nós, caros leitores, essa tese irá causar o maior furor, pois traz à lume, à discussão, a existência do antropóide portador do ancilóstomo, quer dizer, o cérebro da lombriga. Revela a antropolatria de uma rara geração de apôdo, cujo único exemplar rasteja entre nós mortais. E eis que descobri a espécie!

       O meu título de Doutor (ufa!) já está sendo cuidadosamente elaborado. Será editado em letras douradas, revelou-me uma fonte credenciada.

       Pois bem, para chegar à definitiva conclusão de que o Apôdus Imbecilis Complicadus é uma degenerescência da Natureza, partida de Césare Lombroso, vali-me de Francis Galton, Magnam, Dallengne e Prichard. Aterrissei nos estudos de Piotr Scdruviski e Rampinuzzi, o Louco. Esses dois últimos dão excepcional importância à falha moral  e, partir daí, evidencia os fenômenos alarmantes da paralisia moral.

      Minha tese, a partir dessas pesquisas e descobertas, materializa o indivíduo que deambula e vomita palavras em vez de pronunciá-las, como qualquer um ser humano normal. Biglácio, outro que a história universal proclamou como gênio, instituiu o termo “abjeto” , quando pretendeu tornar conhecida a sua proposição científica a respeito do aleijado moral.

       Partindo do L’uomo Delinquentti , de Lombroso, iniciei minha pesquisa e não foi difícil chegar ao Apôdus Imbecillis. Bastou-me a paciência que herdei de minha saudosa e santa mãe. E o raro exemplar estava mesmo à mão!

      Na sua cabeça enferma faz morada a preocupação constante da intriga e da inveja. Ele é um tarado, um cretino, que mendiga prestígio e não sabe viver sem a fomentação da desídia. Seu cérebro de verme, como aqui já foi evidenciado, certamente servirá para novos estudos mais tarde, e aí a ciência terá outro grande motivo para comemorar mais uma descoberta sensacional, com o adendo de que o mérito inicial é meu.

      Batizei a criatura de Jotajó.

      Com apoios unânimes e louvores.

 

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E não viu mesmo!

      Duas garotas papeavam, enquanto caminhavam no calçadão da orla da Pajuçara. Em dado momento, uma delas perguntou a outra:

      – Como está o seu namoro com o Jota?

      – Ah, não está. Ele é muito idiota de marca maior! – respondeu a outra.

      – É mesmo, mulher?

      – É, sim. Quer um exemplo? Outro dia, a gente estava no motel e aí tomei uma decisão. Falei que não queria que ele me visse mais…

     – E ele?

     – Apagou todas as luzes do quarto!

 

Quem dá mais?

      Considerado o melhor narrador esportivo da atualidade, em Alagoas, o colega Arivaldo Maia também é um afamado leiloeiro de gado. Certo dia, no interior de Minas Gerais, ele comandava um pregão de animais nobres quando, a certa altura, teve de interrompê-lo para fazer um anúncio extraordinário:

      – Um dos cavalheiros aqui presentes perdeu sua carteira, contendo 20 mil reais. Ele está oferecendo uma recompensa de 1 mil reais para quem devolvê-la, imediatamente. Alguma pergunta?

      Fez-se aquele silêncio, que logo foi cortado por uma voz, lá do fundo: 

      – Mil e quinhentos reais?!

 

Um certo “compromisso diplomático” 

      Duas peças lordes do nosso cotidiano, o galego Álvaro Cleto e o Alberto Barros, o famoso Piu-Piu, decidiram dar um passeio pelos ares, sem destino previamente definido.

      – Pra onde é que a gente vai mesmo, galego? – quis saber o Piu-Piu, algo preocupado.

      E o Cleto, alisando a barba:

      – Deixa comigo. Tenho um compromisso sensacional! Afinal, estamos de férias, não estamos?

      – É… estamos. Mas…

      – Já te falei que deixa comigo, não falei?

      – Falou.

      – O negócio é o seguinte: primeiramente, nós vamos à Manaus, ver as bonitezas de lá, tá falado? Depois…

      – Depois… o quê? E que bonitezas vamos nós ver em Manaus, galego?

      – Mulherio, paisagens, monumentos… essas coisas!

      Finalmente, montada numa aeronave, a dupla se mandou de Maceió lá por cima, voando feito urubu. Depois de mais de 5 horas de vôo, desceram, os dois, em Manaus. Ao cabo de uma semana de andanças, muitas paqueras e boemias, eles arrumaram as malas, entraram noutro avião e fizeram viagem de volta. Os dois viajavam em poltronas contíguas quando, em dado, momento, Álvaro Cleto desafivelou o cinto, levantou-se e disse pro companheiro  de viagem:

      – Piu-Piu, aguenta a mão aí, que eu vou lá dentro, falar com o comandante!

      – O que é que você vai falar com o cara, galego? – quis saber o Alberto.

      – Assunto particular! – resumiu, ele.

      O galego demorou-se um tempão confabulando com o comandante da aeronave. Quando voltou ao seu lugar, ele e a passageirada toda, que se  destinava ao Rio de Janeiro, escutou o piloto anunciar:

       – Atenção, senhores passageiros! Vamos dar uma descidinha rápida, aqui pertinho, no aeroporto de São Luís do Maranhão. Não se assustem. É só para dar cumprimento a um assunto extraordinário de ordem diplomática!

       O avião, que não tinha escala no aeroporto supradito, pousou sem dificuldade em São Luís. Álvaro Cleto desceu, avisando a todos:

        – Relaxem, meus amigos. Volto já!

        O galego folgado demorou três horas e meia para voltar ao avião. Quando voltou, trazia à tira-colo uma morena sensacional. A galera masculina, que estava a ponto de explodir de raiva, mudou da água para o vinho quando botou o olhão nas pernas, nos peitos e na bunda da gostosura.

         Todo atrapalhado, o piloto quase não teve condições de comandar a decolagem! Mas decolou bem, sem problemas.

         Até hoje, passados quinze anos, o Alberto Piu-Piu continua falando, com indisfarçável emoção, da loura do galego Álvaro.