Ailton Villanova

4 de novembro de 2015

Pavor de ladrão

      Dona Eclúsia, caríssima esposa do cidadão Ausclípedes Mamede, o Clipe, é uma madame extremamente sensível. É dessas que vai às lágrimas com a maior facilidade. Quando está vendo novela na TV, por exemplo, ela tem que ter ao lado um recipiente para aparar a cachoeira que desaba dos seus olhos.

      Bom marido, o Clipe tem feito o possível no sentido de que sua cara-metade viva uma vida tranquila e calma. Mas não pode, porque dada a hiper sensibilidade de que é portadora, Eclúsia se assusta com tudo, também.

       Dias atrás, eis que Ausclípedes chegou ao trabalho ostentando olheiras profundas, bocejando bastante, com todo o jeito de quem passou a madrugada num velório, ou farreando. Ao vê-lo nessa situação, o colega Benerildo comentou:

      – Puxa, mas que cara, hein, Clipe? Tá adoentado, meu? Ou tá de ressaca?

      E ele, acabadão:

      – Nem uma coisa e nem outra. Mas acho que vou ficar doente de verdade, se continuar nessa batida…

      – Que batida?

      – Sem dormir, rapaz!

      – Mas por quê?

      – É que minha mulher não me tem deixado pregar o olho! É só escutar  um barulhinho e logo acha que é um ladrão. E me acorda! É mole?

      – Ô rapaz, diz pra ela que ladrões não fazem barulho… diz que eles agem na maciota, no silêncio!

      – Pois é, eu já disse.  Depois disso, é que ela não tem me deixado dormir mesmo!

 

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Coisa de louco

      Galdelízio, é um exemplar funcionário de conceituada clínica psiquiátrica. Exerce com invulgar determinação a tarefa de coordenador da equipe de segurança da casa. Olhos sempre atentos, jamais deixou passar nada.

      Então, lá estava o Galdelízio no seu posto de observação quando reparou na figura de um paciente piradão fazendo o maior esforço para subir na árvore mais alta da clínica.

      – Ei! Desça já daí, rapaz! – ordenou.

      O paciente não deu a menor bola para o apelo do funcionário e prosseguiu na subida até a pontinha da árvore. Ligado aos movimentos do cara, Galdelízio observou quando ele afixou um papel lá em cima. Feito isso, o paciente desceu rapidinho e chegou ao chão numa boa.

      Mas que diabo de papel era aquele?! Galdelízio não contou história. Deu início a escalada da árvore para verificar aquele negócio direitinho. Depois de sacrifício enorme, chegou ao ponto onde o maluco havia espetado o papel. Pegou o sobredito e leu o que estava escrito nele: “Fim da árvore”.

 

Nem todos

      Médico recém-formado, doutor José Carlos Sílver – doutor Lalo, para os amigos do peito -, dava plantão no antigo Hospital de Pronto Socorro de Maceió quando, certa noite, foi chamado às pressas para atender a uma madame em vias de dar à luz, nos confins do Tabuleiro do Pinto.            Pegou uma ambulância e subiu o morro, com sua equipe de apoio. Quando chegou lá, ficou surpreso: a mulher já havia desocupado o ventre, estava bem e o recém nascido mamava no peito da parturiente, numa boa.

      Enquanto adotava os providenciamentos pós parto, doutor Lalo ia batendo papo com a mãe:

      – Quantos filhos a senhora já teve?

      E a parturiente:

      – Sete…

      – Todos do mesmo jeito?

      – Que nada, doutor. Três deles foram na cama, um no sofá da sala, outro na pia da cozinha e dois no matinho que tem atrás de casa.

 

E o bilhete?

      Todos os dias, finalzinho de tarde, seu Jacó Felinto corria pro pé do rádio e ficava, ouvido bem aberto, escutando o resultado da loteria. Acabava, reclamava:

       – Merda de sorteio! Não ganho nada nessa porcaria!

       A cantilena era a mesma todos os dias:

       – Meu Deus, repare só a minha situação… Dificuldades tremendas, devendo a todo mundo… Por favor, faça com que eu ganhe na loteria… nem que seja uma vez!

       E lá vem mais resultado da loteria e nova choradeira de seu Jacó:

       – A situação ainda tá mais precária, Deus! Dê uma forcinha pra eu ganhar. O senhor não imagina o galho que iria me quebrar!

       O último apelo que Jacó Felinto fez ao Pai Criador foi pra lá de veemente:

        – Comequié, Deus? Ajuda ou não ajuda? O Senhor tá vendo aqui o meu sufoco!

      Aí, o Pai Eterno se fez ouvir pela boca da mulher do desesperado. De lá da cozinha, dona Agliberta gritou:

      – Ô Jacó, pelo menos compra um bilhete da loteria, né?

 

Correr mais rápido: eis a questão!

      O mecânico de autos Eurico Godofredo é chegadíssimo ao esporte da caça. Quando se enfurna na mata, passa dias e mais dias exercitando a prática de predador da fauna silvestre. Seu companheiro de aventuras, é o vizinho Zelândio Batista. Dias antes daquela fatídica Copa, decidiram matar pacas e veados lá pras bandas de Viçosa. Encheram uma caminhonete do indispensável à caçada e se mandaram.

      Não fazia nem meio-dia de permanência na mata, os dois estavam mais perdidos do que cachorro quando cai de caminhão de mudança. Cadê acharem o caminho de volta ao ponto de partida? De repente, ouviram aquele urro: “Grrrraaaaauuuurrrr…”

      – O que foi isso? – tremeu Eurico.

      – Deve ter sido uma onça daquelas bem graúdas! – sugeriu Zelândio.

      Mal ele fechou a boca, outro urro mais terrível ainda:

      “Grrrrrrraaaaauuuurrrrgggrrrr…”

      Rapidamente, Eurico Godofredo tirou as botas para correr melhor e o parceiro Zelândio advertiu:

      – Não adianta fazer isso não, rapaz. Com botas ou sem botas você jamais vai poder correr mais que uma onça!

     E o Eurico:

     – E quem disse que eu quero correr mais rápido que a onça? O que eu quero é correr mais rápido que você!