Ailton Villanova

31 de outubro de 2015

O trote do Vilar

      Quando jovem, em Bebedouro, Bianor Correia Marinho, era que nem uma vara de virar tripa – fininho, fininho –, e possuía orelhas que mais pareciam abanos. Um dia, com uma bela ideia na cachola, pegou o bonde  na praça Santo Antônio (hoje Lucena Maranhão), desceu na Rua do Comércio, caminhou até a Rádio Difusora, que ficava na Pedro Monteiro e encarou o diretor artístico Lima Filho, que tinha a fama de brabo.

      Naquela época, estrelavam a emissora oficial do estado nomes como os de Haroldo Miranda, Otávio Braga, Jesualdo Ribeiro, Roland Benamor, Castro Filho, Odete Pacheco, Seton Netto, Antônio Paurílio, Umberto Guerrera… entre outros famosos.

       – Eu queria fazer um teste pra locutor… – disse, mal se sustentando nas finas canelas.

       Lima Filho deu-lhe a oportunidade solicitada. Bom de gogó, Bianor saiu-se bem.

       – Como é o seu nome, garoto? – bradou o temível Lima Filho.

       – Bianor… Bianor Correia Marinho. – respondeu o rapaz.

       – Bianor???!!! E Bianor é nome de gente? Trate logo de arrumar outro nome mais decente, mais simpático. Radiofonicamente “Bianor” não soa bem! Hoje mesmo você vai ser escalado para apresentar a resenha esportiva, mas não com esse nome!

        Nesse mesmo dia nasceu artisticamente Jorge Vilar.

        No rádio ele fez de tudo: locução, redação, animação, narração esportiva; foi rádio-ator, humorista, produtor, disque-jóquei, corretor de anúncios e diretor.

         Vilar era um tremendo gozador. Costumava rir das amarguras da vida e da desgraça alheia com uma facilidade incrível. Mas não gostava que tocassem no seu ponto fraco: as orelhas, que eram grandes demais. O seu maior destaque no rádio alagoano, depois do programa noturno “Discofone”, foi o  humorístico-esportivo domingueiro “Ora Bolas”.

         Jorge Vilar também atuou fora de Alagoas. Mais precisamente no Rádio Jornal do Commércio, do Recife. Com Luiz Tojal e comigo, constituiu um trio que marcou época em programas de auditório nas noitadas maceioenses.

       Das incontáveis molecagens que aprontou, destaca-se uma das mais notórias e crueis. A vítima foi o sonotécnico Oscar da Silva, o famoso Piabinha.

       Os dois trabalhavam, então, na Rádio Progresso, que funcionava no último andar do edifício Ary Pitombo, situado na Praça dos Palmares. Um dia, Piabinha teve a infelicidade de ser escalado para o mesmo horário do Vilar. O programa que ele comandava aos domingos, ia ao ar às 20:00 hs, estendendo-se até às 22:00hs, tendo como ouvinte principal o diretor-geral da emissora, doutor Sizenando Nabuco de Melo, não por deliberada opção, mas porque possuía em casa, no bairro do Jaraguá, um rádio cativo, sintonizado permanentemente na Progresso.

      Mal o Vilar entrou no estúdio, Piabinha mandou para o ar a característica musical do programa e abriu o som para o microfone da locução e avisou:

      – É com você, orelhudo!

      Piabinha não devia ter tirado essa onda, tocando no ponto fraco do colega, que deu o troco na hora. Não disse nada, ficou apenas mexendo os lábios, dando a impressão que estava falando. De sua cabine, o sonotécnico virava e revirava a chave do controle de som – plact, vapt, plact – e nada! Som nenhum! Preocupado, ele gritou pro Jorge:

       – Vai, fala, orelhudo! O som estava aberto!

       E Jorge Vilar, muito sério, mexendo os lábios.

       – Novamente, Piabinha aperreado:

       – Não tá saindo nada  no ar! Fala de novo, rapaz!

       E Jorge só naquela de abrir e fechar a boca, sem articular som algum. Nervoso, o sonotécnico sugeriu:

       – Acho que o microfone pifou!  

       Indolentemente, Jorge Vilar saiu do estúdio de locução, abriu a porta e logo estava dentro da cabine de controle-de-som.

       – O que é que está acontecendo, Piabinha? – perguntou. – Estou ficando rouco de tanto falar e não sai nada!

       E o sonotécnico, aperreado:

       – Eu tenho pra mim que o seu microfone pifou! Vou verificar isso!

       – Vá!

       Piabinha foi. Pegou o microfone, deu umas porradas nele – pou, pou, pou – e gritou:

       – Alô? Alô? Tá ouvindo alguma coisa aí, Jorge?

       E ele calado, segurando-se para não rir.

       Em casa, o público ouvinte estava sem entender nada, muito menos doutor Sizenando, o diretor.

       E Piabinha, danado berrando:

       – Alô? Aaaallllôôôô? Fiiiiiiuuuu! Tá me ouvindo, Jorge?

       A inusitada pantomima já durava uns quinze minutos.

       – Esta porcaria de microfone não presta pra nada! E agora? Tá conseguindo me ouvir, Jorge? Eita microfonezinho filho da puta!

       Aí, foi demais! O diretor resolveu acabar com aquele escândalo de maneira enérgica. Pegou o telefone e ligou para a emissora. Oscar atendeu:

       – Alô? O que é?

       – Aqui quem fala é o Sizenando!

       – Olá… dou… doutor…

      Que diabo está acontecendo aí, meu rapaz?

      E Piabinha agoniado:

      – O microfone pifou, doutor, e eu estou tentando consertá-lo!

      – Mas desse jeito, com tanta pancadaria e tanto palavrão? Você ficou maluco, Oscar? Está demitido! Apareça amanhã no meu gabinete para acertar as suas contas!

       Jorge Vilar se tocou. Tinha ido longe demais. Comoveu-se com as copiosas lágrimas do colega. Até então não atinara para a gravidade do problema que havia provocado. Dia seguinte, bem cedinho, estava batendo na porta do diretor e foi muito macho para assumir a sua responsabilidade no caso. Livrou o Piabinha da demissão, mas não de uma suspensão de 15 dias.