Ailton Villanova

28 de outubro de 2015

Excesso de pena

      Doutor Lourival Baptista foi um juiz de direto dos mais respeitados no estado de Pernambuco. Aposentou-se já velho, no princípio de 1941. Morreu aos 87 anos de idade com a consciência tranquila, porque jamais cometeu uma injustiça contra alguém no exercício da magistratura. Uma vez, apenas, deu uma mancada. Mas consertou-a.

      Certa ocasião, doutor Lourival Baptista teve de aplicar pena duríssima no réu Manuel Gedeão Ferreira, que fora acusado de haver praticado um crime de morte na cidade do Recife. Constava dos autos que o indigitado cometera um “crime hediondo”, quando a realidade dos fatos era outra. Esse infeliz provocara a morte de um desafeto ao repelir uma agressão à mão armada. Por má fé, ou incompetência mesmo do delegado de polícia que presidira do inquérito respectivo invertera a ordem dos fatos. A peça informativa chegara às mãos do magistrado com a verdade de cabeça pra baixo. O réu já estava preso, aguardando julgamento, havia 15 anos.

      Prolatada a sentença, um amigo chegou junto do magistrado e soprou no ouvido dele:

      – O senhor cometeu uma injustiça, Meritíssimo…

      Doutor Louro, conforme era chamado, mandou revisar caso, apesar de transitada a sentença.

       E ele teve a hombridade de mandar buscar o preso na cadeia para desculpar-se:

       – Errei na sua condenação e lhe peço desculpas…

       E o condenado, com a cara mais feliz da vida:

       – Carece isso não, excelência. Eu tô bem na cadeia, pode crer!

       – Não, não e não! Jamais alguém estará bem na prisão, seu Manuel!

       – Pois eu tô, repito pra vossa excelência!

      O juiz prosseguiu:

      – Olhe, eu realmente fui injusto com o senhor. Apliquei-lhe 15 anos de cadeia, quando o senhor já tinha cumprido outro tanto!

      E Manuel Gedeão:

      – Ora, ora! Se aperreie não, excelência. Só 15 anos a mais?

      – E ainda acha pouco? Eu não posso permitir que o senhor tenha esse acréscimo de pena sem justificativa alguma!

      – Ah, é isso, excelência? Se o senhor me der licença eu saio daqui agorinha mesmo, vou lá em casa, mato a desgraçada da minha mulher e fica tudo certo!

 

Melhor o sexo!

      Senadinho da Rua do Comércio, centro de Maceió.

      Todas as tardes, considerável número de aposentados se reúne local para um papo descontraído, falar mal da vida alheia ou para paquerar as menininhas. O saudoso radialista Jorge Vilar era um deles.

       Sentados num dos bancos do passeio, conversavam dois dos mais antigos frequentadores do pedaço: seu Farias e seu Pedro Cordeiro. De repente, o assunto passou a versar sobre Natal. Aí, o velho Farias se virou para o amigo e perguntou:

      – Ô Pedro, o que é que você prefere: Natal ou sexo?

      O indagado soltou um risada a respondeu, cheio de convicção:

      – Ora, eu prefiro sexo. Natal tem todo ano!

 

Mas que velocidade!

      O cara saiu do Bar do Duda, em Mangabeiras, no maior porre do mundo. Trocando as pernas, disparou na direção de um taxi que se achava estacionado nas proximidades.

      Na embalada que ia, o bêbado tropeçou antes de pegar no trinco da porta do carro, deu uma pirueta no ar, passou pela janela, empreendeu mais duas voltas acrobáticas sobre o banco e passou pela janela, se esborrachando no asfalto. Desorientado pelo espetacular tombo e mais ainda pelo porre, o bebão se levantou, olhou para o taxista e desabafou:

     – Porra! Mas tu corre, hein? Tu é um verdadeiro louco do volante. Deus me livre! Quanto é que eu te devo, ô irresponsável?

 

Farofa e disfarce

      Tremendo gozador, principalmente quando está biritado, o Enoque Fonseca parou num daqueles barzinhos da orla, ocupou uma mesa e pediu uma cerveja. O garçom, um sujeito muito de-li-ca-do, atendeu ao pedido e quis saber mais:

      – O que o senhor deseja para tira-gosto?

     Aí, Enoque entendeu de tirar uma onda com o delicado garçom:

     – Bundinha ao molho, com arroz e farofa…

     O garçom ficou todo sem jeito:

     – Ui! Mas que coisa! Eu falei sério e o senhor me respondeu na base da anarquia. Nem ao menos tentou disfarçar, perante a freguesia aqui presente…

     E o Fonseca:

     – Mas é claro que eu disfarcei. Detesto farofa!

 

Faltou o revólver!

      Delegado recém investido no cargo, o bacharel Eduardo de Moraes Maia assumiu o comando da delegacia distrital de Arapiraca, todo metido a arrochado.

      Assim que acomodou o traseiro na cadeira da autoridade policial, chegou um dos seus agentes auxiliares e disse:

      – Doutor Eduardo, acabaram de prender um cara que tentou matar a esposa…!

      Dudu vibrou! Com que, então, aquele seria seu primeiro caso policial. Ajeitou-se todo na poltrona, temperou a goela e retrucou:

      – E onde está o fidapeste?

      – Tá aí fora, com o pessoal da PM, doutor!

     – Ahá! Agora ele vai ver o que e bom pra tosse!            Manda trazê-lo pra cá!

     Levaram o acusado a presença do doutor Dudu Maia, que entrou de sola no indigitado:

     – Então, você é o valentão que tentou matar a coitadinha da mulher, não é?

      – Sou sim, doutor… 

       – Tentou matar com que instrumento?

      – Com uma faca…

      – E será que você poderia me explicar por que queria matar a mulher a facadas?

      – É porque não achei o meu revólver, doutor!