Ailton Villanova

24 de outubro de 2015

Pepê, o exorcista

     O cara tem o nome de remédio para tratamento de hemorroidas e é um tremendo malandro. Pergalênio Pereira, é ele, o sujeito que protagoniza esta história. Ganhou o pre-nome Pergalênio, porque seu pai, o caminhoneiro Arquibaldo Pereira, que sofria horrores de varizes das veias anorretais – as proverbiais “tripas gaiteiras” -, só se aliviava com a pomada intitulada “Pergalen”, que lhe fora receitada pelo doutor Bráulio Cavalcante. E seu Arquibaldo ficou tão dependente do medicamento que, para não tirá-lo da memória, registrou e batizou o único filho com o nome do referido.

     Pergalênio não gostava da designação patronímica de sua pessoa, ou por outra, o próprio nome. Por isso, não escondia a mágoa que tinha do pai pelo que sempre considerou um “castigo” imposto por ele. Assim sendo, preferiu optar pelo apelido que ganhou na escola primária – Pepê. E Pepê ficou sendo chamado permanentemente.

     Quando completou 25 anos de idade, Pepê perdeu o pai, vitimado por um insólito e prosaico “ataque hemorroitico”. Seis meses mais tarde, lá se foi dona Lupicínia, a mãe. Órfão, Pepê passou a viver da grana deixada pelos pais. Grana, aliás, insuficiente para manter as despesas sempre crescentes desse herdeiro boêmio e gastador desenfreado.

     Como não possuía habilidade profissional alguma, que lhe possibilitasse exercer um trabalho decente, digno e honesto, Pepê passou a viver de expedientes escusos, o que lhe valeu algumas prisões. Entretanto, dono de um papo daqueles de derrubar avião, sempre se safava numa boa.

     De trambique em trambique, Pepê se viu, repentinamente, investido nas funções de pregador e missionário evangélico de uma certa Igreja Evangélica do Amor Divino. Certa tarde de domingo, numa de suas empolgadas “Exaltações ao Senhor”, em praça pública da periferia, uma ouvinte emocionou-se demais e começou a gritar e a se debater, no meio dos curiosos que ali se aglomeravam. Aí, a cachola do Pepê deu um estalo e ele aproveitou para fazer a sua média. Abriu o bocão, apontou para a infeliz e bradou:

     – Irmãããooos, Satanás está presente!

     E a galera:

     – Aleluia! Aleluia!

     – Olhem para aquela mulher! Ela está possuída por Satanás! Aleluia!

     – Aleluia! Aleluia!

     Pepê entusiasmou-se e foi em frente, na sua encenação. Equilibrou-se na ponta dos pés e discursou:?

     – Satanás, eu lhe ordeno: abandona esse corpo! Abandona esse corpo, Satanás!

     Nesse momento, a mulher abriu os olhos e reparou, espantada, naquele monte de gente em seu redor. Respirou fundo e perguntou:

      – O que está havendo aqui, minha gente? O que está acontecendo?

      A resposta partiu da boca do próprio Pepê:

     – Você esteve sob o domínio de Satanás, minha irmã!

     E a mulher, mais atônita ainda:

     – Eeeeuuuu?

     – Sim, irmã! Mas não se preocupe porque eu expulsei o Satanás! Encarei ele de frente e ordenei: Abandona esse corpo, Satanás! E ele botou o rabinho entre as pernas e se mandou. Aleluia!

      – Esse homem é um santo! – gritou uma mulher do meio do povo.

      A galera acompanhou:

      – Ele é um santo! Ele é um santo!

      Nessa tarde noite, Pepê deixou aquela praça nos braços do povo. A repercussão foi grande e o chefe da Igreja do Amor Divino, o notório bispo Galileu Colombo, tratou, imediatamente, de colher os louros daquilo que considerou “uma vitória de sua facção. E, montado na sua autoridade, elevou Pepê ao posto de pastor. Foi a glória para o malandro.

     A partir desse episódio, que foi confundido como “milagre”, e não apenas como uma coincidência de fato, o pastor Pepê passou a se apresentar como exorcista e milagreiro. E por mais que se esforçasse para repetir a “obra”, esse ânimo morria na tentativa.

     Devido ao insucesso de seus esforços, Pepê foi perdendo a credibilidade e o prestígio perante aqueles que o tinham na conta de um verdadeiro santo. Até que seu superior hierárquico, o bispo Galileu Colombo, o chamou ao seu gabinete:

     – O que está acontecendo com você, pastor Pepê? Nunca mais administrou um exorcismozinho e nem operou nenhum milagrezinho!… O que é que há?

     E Pepê, tentando se justificar:

     – É a fase, senhor bispo! Pra tudo existe fase, não é verdade?

     – É verdade. Mas essa sua fase de abstinência exorcismal está demorando demais! Acho que o Demônio de estar vibrando com essa sua… digamos assim, falta de produtividade.

     – Prometo que vou me recuperar, senhor bispo.

     – E, olha, você precisa melhorar também a sua arrecadação financeira. O dinheiro que vem da sua parte está deixando muito a desejar!

     – Vou melhorar essa parte, também.

     O diabo é que Pepê se achava mesmo exorcista e milagreiro de marca maior. E manter aquilo que considerava “hegemonia” nesse barato,  estava sendo muito difícil, para não dizer impossível, para o Pepê. Botando a cachola para funcionar, ele considerou de bom alvitre que, para salvar o seu cartaz e recuperar o seu prestígio perante os fiéis e a cúpula da Igreja do Amor Divino, um trambiquezinho, uma fraudezinha poderiam ajudar, e muito, nesse seu projeto. Aí, caiu em campo.

      Com a cumplicidade de um antigo parceiro de malandragens, o notório Antiógenes “Mão de Onça”, pastor Pepê bolou uma espécie de representação teatral, que culminaria com uma apoteótica encenação de um milagre.

       – Com essa vamos matar a pau, amigo Antiógenes! – vibrou Pepê.

      – Espero que assim seja. – respondeu sem muito entusiasmo, o parceiro. – Tomara que o Hércules tenha decorado direitinho o papel.

      O “espetáculo” todo cheio de pompa, bolado pelo oportunista Pepê, foi marcado para o domingo seguinte ao do diálogo registrado linhas acima, e deveria contar com a presença da cúpula da igreja. O local: um campo de futebol, onde seria armado um palanque no centro do gramado.

       No domingo, o local do evento com todas as dependências lotadas, eis que surgiu no cenário, acenando para o público, o pastor Pepê. De posse do microfone, ele anunciou:

       – Caros irmãos, sem mais delongas, iniciarei o espetáculo milagroso desta tarde, com a prática de um milagre.

       E, virando-se para o lado, determinou a um dos seus assessores:

       – Traga ao centro deste palco, o homem que deseja ser transformado em mulher! Quero operar esse milagre na vista de todos!

       Nesse momento, invadiu o palco um baixinho rebolativo e cheio de trejeitos, fazendo uma força danada para falar grosso.

       – Olha, pastor, – disse a criatura – desisto! Não quero mais participar dessa encenação, por dois motivos: primeiro, porque não consegui decorar o texto e, segundo, porque gosto mesmo é de ser mulher. Arrume outra! Tchau!