Ailton Villanova

22 de outubro de 2015

Finalmente, o dente certo!

    Meu saudoso cunhado Edmilson Lopes Agra, foi um dentista competentíssimo. O galego, foi também um craque na produção de próteses dentárias. Basta que eu diga que suas criações específicas, destinadas à restauração, substituição ou correção de dentes eram exemplarmente perfeitas. Doutor Edmilson não era fraco, não. Quando ele cismava de caprichar numa peça dentária mais simples, uma “perereca”, por exemplo, ela resultava tão perfeita que já entrava na boca do freguês com dentes cariados e até com mal hálito. Isso, dependendo da vontade desse mesmo freguês, claro.  

     Doutor Edmilson Agra, pelo cidadão modelo que foi; pelo caráter, pela conduta ilibada que marcaram sua vida, merece todas as homenagens que se possam prestar a um homem digno, honrado.

     Neste exórdio, presto minha singela, mas sincera homenagem ao galego Edmilson, cuja saudade vai permanecer sempre no seio de sua família e nos ambientes onde preponderam seus amigos verdadeiros.

      Como extensão dessa homenagem, e na lembrança desse caro amigo, abro espaço para um causo que me foi passado, em tom de anedota, pelo próprio Edmilson, nada me custando acrescentar que ele (o causo) é verdadeiro, como verdadeiros foram outros que aqui já contei.

      Nascido e criado no bairro da Pitanguinha (à época distrito do Farol), o Luiz de Sá, não batia bem da cachola. Ele ficou lelé da cuca depois que caiu do colo de uma tia e enfincou a cabeça chão. Segundo o médico que o assistiu, desde a hora em que ingressou no antigo Pronto Socorro da rua Dias Cabral, o seu cérebro entortou de tal modo que nem Padre Cícero com todas as suas rezas e milagres seria capaz de deixá-lo funcionando normalmente. Do jeito que ficou, “dava bem pro gasto”, conformou-se dona Dalila, sua genitora.

      Das pessoas que conviveram com o Luiz de Sá, incluindo aí a sobedita genitora, nenhuma delas ainda hoje passados tantos anos, consegue explicar porque ele se ligou no barato da Odontologia. A tal ponto que, inexplicavelmente e a muito custo, logrou passar no vestibular respectivo e, mais incrível, inda, conseguiu graduar-se doutor dentista. Edmilson Agra o conheceu na Faculdade de Odontologia.

     Seus pais, seu Severo e dona Dalila, investiram pesado na sua formatura e muito mais no consultório odontológico. As pessoas não confiavam entregar sua boca ao doutor Luiz de Sá, dada a sua fama de maluco, mas o prestamista Damázio Santana foi suficientemente louco para escancarar a sua cavidade bucal a fim de que ele escarafunchasse os seus dentes.

       A tarde era de uma sexta-feira e o consultório do doutor Luiz estava, como sempre esteve, completamente vazio.

       – Boa tarde, doutor! – cumprimentou o Damázio, ao chegar.

       – Boa tarde! – respondeu o dentista.

       E o recém-chegado:

       – Doutor, eu gostaria que o senhor desse uma olhadinha aqui na minha boca…

       O dentista nem deixou o cara terminar de falar:

       – Então, vá logo abrindo essa boca!

       Damázio abriu a boca, o dentista espiou para dentro dela e disse, encarando o paciente:

       – Pronto, já olhei! O que é que você quer mais?

       – Eu gostaria que o senhor me extraísse o dente que não me deixa dormir sossegado. O infeliz dói a noite inteira!… – respondeu o cara.

       – Abra a boca novamente!

       O paciente escancarou a boca, Luiz Sá só faltou entrar dentro dela. Espiou, espiou e definiu:

       – Já localizei o infeliz! Aguente a mão aí que eu vou extraí-lo num instante. Quer com dor ou sem dor?

       – Como assim, doutor?

 anestesia? Se você for macho, eu arranco sem anestesia!

       – Eu sou macho, doutor!

       – Nesse caso, vou arrancar esse peste sem anestesia.

       Dito isto, doutor Luiz Sá deu garra de um alicate que não tinha mais tamanho e mandou:

       – Abra a boca!

       O cara atendeu a ordem e o dentista segurou o dente. Balançou pra lá, balançou pra cá e puxou o mastigante – tchuuummp!

       – Aaaaaaaaiiiiiii! – berrou o paciente.

       E o doutor:

       – Eita! Que “cagada” que eu dei!

       – O senhor se cagou, doutor? – perguntou o cliente. – Quem devia estar cagado era eu!

       – Mas a “cagada” a que me referi, não foi essa que você está pensando! A “cagada” que dei foi ter errado o dente!

       – O quêêê?

       – Arranquei o dente errado! Quem mandou você entronchar a boca?

       – Eu não entrochei a boca coisa nenhuma! – respondeu a vítima expelindo sangue pra todo lado. – Minha boca estava toda certinha!

       – Então, vamos tentar outra vez!  – avisou o dentista. – Abra bem essa porcaria de boca!      

       Damásio abriu a boca. O odontólogo prendeu aquele que imaginou seria o dente doente e… tchuuummmp… zic! – puxou o bicho fora. E haja sangue!

       – Uuuuuiiiiii…Aaaahhhh….

       – Tá vendo? Tá vendo a merda que você fez?

       E Damásio segurando o queixo:

       – O que foi dessa vez? Qual foi a merda que eu fiz?

       – Você virou a cabeça de lado!

       – E aí?

     – “E aí”, que, quando você virou a cabeça, eu peguei o dente que não era pra pegar!  

     – E o que aconteceu?

     – Arranquei outro dente errado!

     – Porra meu louro, doutor! Você tirou outro dente que não era pra tirar?

     – Por culpa sua, errei novamente!

     – Pode parar! Não quero que o senhor mexa mais na minha boca. Vou procurar outro dentista!

      – Mas de maneira alguma! Você está me chamando de incompetente?

      – Ainda não chamei, mas vou chamar: in-com-pe-ten-te, pronto!

      – Vou lhe provar que não sou incompetente. Abra a boca porque agora eu vou extrair o miserável desse dente com anestesia.

      – De jeito nenhum!

      Meia hora depois de uma grande discussão, o dentista privou a boca do paciente de total sensibilidade e meteu mãos à obra. Pelo menos para chegar até o dente que deveria ser eliminado, doutor Luis Sá teve de extrair todo o sistema dentário inferior do desafortunado Damázio, que hoje em dia só se alimenta de papinhas e afins, porque não possui mais dentes para mastigar conveniente e adequadamente. Além do mais, passou a ter ojeriza a dentista.