Ailton Villanova

21 de outubro de 2015

O freguês indesejado

      Trabalhador incansável, praticamente às 24 horas do dia – apenas um pouco de exagero na afirmativa -, o agricultor Alonso Gastão mal dispunha de tempo para tirar uma madorna, atitude que ele próprio a si impôs, desde quando era rapazinho, no pé da serra de Água Branca. Seu tempo era todo destinado ao cultivo da macaxeira, da batata e do inhame. “Loitando” na propriedade rural que herdara do velho pai, seu Agapito, o Alonso também não tirava dos pés um par de botas de couro velhusca, descolorida, deformada e bastante avariada pelo uso permanente. E tem mais: era o único calçado de que dispunha, coisa que dona Estefânia, sua esposa, mais censurava. Um dia, ela abriu o jogo:

     – Hôme, tenha veigonha nessa cara! Compre um sapato novo, pelamordedeus!

      E ele:

      – Ô mulé, pra quê sapato novo, se esse ainda tá dando pro gasto?

      – Já deu pro gasto inté dimais, hôme!

      – Essas bota ainda “vai” guentá uns dois ano, pur fé de Deus!

      Convém que se frise, nesta história, que o Alonso Gastão jamais apreciou uma coisa chamada “asseio corporal”. Por ocasião da discussão copiada linhas acima, dona Estefânia lembrou:

       – E a prepóse, Alonso, me arresponda quando é qui você vai arresorvê tumá banho, hem? Já fáis uns dois ano qui num lhe vejo intrá no banhêro!…

       – Deixa de cunvelsa, mulé. Tumei banho ano passado, no Natá, tá alembrada não?

       – Do qui me lembro, de verdade, o banho qui você tumô foi no dia do interro do seu pai, purquê chuveu! É mintira? Eu num tô aguentando mai a sua catinga! Já pensô uquié drumi c’um cabra fedorento qui nem você?

       Alonso Gastão envergonhou-se com a revelação da mulher e fez uma promessa:

       – Apois intonce, amenhã vô tumá banho e vô na loja adiquirí uma bota nova. Tá bom assim?

       – Tá ótimo, meu marido. Já qui dicidiu assim, eu também dicido: você só deita na cama pra drumi cumigo, adispois qui tumá banho e tirá essa bota dos pé!

       Dia seguinte, de manhã bem cedinho, Alonso pulou da cama e correu para o banheiro, que ficava nos fundos da casa. Entrou lá, despejou no corpo meia dúzia de latas d’água e se deu por satisfeito. Tomou banho, mas não tirou as botas dos pés.  

        O comércio da cidade de Água Branca sempre abriu cedo, e naquele dia não podia ser diferente. Às sete e meia da manhã, o Alonso já estava ingressando na Sapataria Sandálias de Ouro, de propriedade do cidadão Chico de Assis, que também era vereador na cidade.

        Assim que pousou a vista no distinto freguês, o gerente da loja, chamado Gabriel, abriu um sorriso de orelha a orelha:

        – Mas o que lhe trás por aqui tão cedo, seu Alonso?

        E ele:

        – Aduvinha!

        – Não me diga que veio comprar um calçado!… – aventurou o gerente.

        – Eita cabra aduvinhão da gota serena! Vim, sim!

        – Nesse caso, seu Alonso, eu tenho pro senhor a peça mais lorde da nossa sapataria!

        – Mai tem qui sê uma bota toda furnida, qui nem essa minha! – determinou o freguês.

        – Pois o senhor vai ver. É a mais reforçada de todas as botas lançadas no comércio.

        – Danou-se! Quero uma dessa!

        Todo cheio de mesuras, o gerente puxou uma cadeira do assento alcochoado para perto do nobre freguês e disse:

     – Queira se sentar, enquanto eu pego as suas novas botas na prateleira. 

     Qual o número do seu calçado?

     – Quarenta e quatro! – respondeu Alonso, se ajeitando na cadeira.    

     O gerente Gabriel retornou depressinha à presença do cliente.

      – Vamos provar as suas botas novas, seu Alonso. Por favor, queira tirar dos pés essas que o senhor está usando… – sugeriu Gabriel.

      Ele não devia ter dito isso, mas disse. Alonso pôs mãos à obra, fazendo um esforço enorme para retirar do pé, a primeira bota. Nhéééc…splosshhh…

       Quando, finalmente, o danado do calçado saiu do pé do Alonso, um odor terrivelmente insuportável tomou conta do ambiente. E o infeliz do gerente, que se achava acocorado diante do freguês, foi quem recebeu, na cara, todo o impacto do mau cheiro que se desprendeu do pé do matuto.

        Gabriel, que entrara imediatamente em coma irreversível, depois de ter aspirado a carga letal do chulé do Alonso, esticou as canelas no dia seguinte. 

 

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Sobrou até pra mãe!

     Além de barbeiro de profissão, o Zé Ciríaco dirigia muito mal. Como os negócios não iam bem na sua cidadezinha do interior, ele resolveu tentar a sorte na capital. Só que a cada “fechada” que dava no trânsito, um motorista protestava:

     – Barbeiro! Barbeiro!

     Impressionado, ele contou a história à mãe, dona Bertulina. “Todos me conhecem, é incrível!”  A velha não acreditou e foi com ele de carro, conferir. Mal chegaram, ele quase jogou o veículo contra um taxi. Puto da vida, o taxista gritou pela janela:

     – Barbeiro filho da puta!

     Zé Ciríaco olhou para a mãe e falou:

     – Tá vendo, mãe? Conhecem também a senhora!

 

Sem esfolação

     Mocinha do interior, Zitinha, lindinha, ingenuazinha veio passar uns tempos na capital, em casa de parentes, e logo se apaixonou por um tal de Ronaldo, que conheceu numa festinha. Daí para o motel foi um salto. Quando já estava se preparando para cair na horizontal, viu largada no chão, estendida, uma camisinha usada.

     – Ai! Valei-me meu Padim Ciço! – ela exclamou assustada.

     – Ué! – disse o Ronaldo. – Não se usa isso no lugar de onde você veio?

     – Claro que sim – ela respondeu. – Só que, lá, a gente não esfola e joga a pele fora.

 

O marido fenômeno

     A jovial senhora da cidade passeava pela fazenda com a filhinha de 6 anos de idade. No pasto, um jumento com a “peça” ereta. A menina apontou para ela, a peça, e perguntou:

     – Mãe, o que é aquilo que tá pendurado na barriga do cavalo?

     – Não é nada não, filhinha…

     – O que é aquilo, mãe? – insistiu a garotinha.

     – Já disse, minha filha, não é nada!

     Um matuto, sentado ao lado da cerca, pitando, tranquilo, o seu cigarrinho de palha, olhou bem para o membro do animal, depois fitou a garota curiosa e finamente encarou a mãe:

     – Vixe Maria, dona! A senhora me descurpe, mas se aquilo num é nada, o seu marido é um fenômeno!