Ailton Villanova

20 de outubro de 2015

O Mal Intencionado

     A balzaca de nome Erothildes Cardoso, professora aposentada, entrou pisando firme na delegacia de polícia de plantão, localizada na Rua do Macena, encarou o agente da recepção e disse:

      – Cadê o delegado? Ele está, moço?

      E o indagado:

      – Está sim, madame…

      – Madame, não! Eu sou uma jovem solteira e… virgem! – respondeu a coroa.

      – Desculpe, ma… digo, senhorita. Qual o assunto?

      – É só com ele. Deixe de ser curioso, rapaz. Vá chamar o delegado!

      O policial acionou o interfone, aguardou um minutinho e depois falou:

       – Doutor, Carlomano, aqui tem uma senhorita que exige falar com o senhor…

       Do outro lado da linha, o delegado plantonista Carlomano de Gusmão Miranda (que sempre foi mais grosso do que papel de enrolar prego), respondeu:

       – Manda essa égua entrar!

       Não demorou nadinha, a égua, digo, a balzaquiana, estava adentrando ao gabinete da autoridade policial.

       – O senhor é o delegado? – indagou.

       – Sou sim, minha senhora.

       – Senhorita! – corrigiu Erothildes.

       – Vá lá que seja. Mas que você não tem cara de senhorita, isso é indiscutível. Deixa pra lá. Diga qual é o seu problema.

     E ela:

     – Fui atacada por um tarado, nestante, no Cine São Luiz!

     – Dentro do cinema?!

     – Sim senhor!

     – O malandro aproveitou o escurinho e chamou na colher, não foi?

     – Foi!

     – É, no escurinho, todo mundo se confunde!

     – Mas esse não se confundiu não, doutor. Ele foi muito objetivo, sabe?

     O delegado esclareceu melhor a sua observação, com a sinceridade – ou a grossura, tanto faz –, que sempre o caracterizou:

      – O que eu quis dizer é que, se ele tivesse reparado direitinho na sua cara, não teria lhe importunado! Mas, me conte como se deu o ataque do degenerado: 

       A balzaquiana temperou a goela e mandou:

       – Bom, eu estava concentrada na tela, adorando uma cena tão linda de amor, quando o sujeito, sorrateiramente, se sentou na poltrona ao lado. Sentou e perguntou: “Por acaso este lugar estava reservado para alguém? Um namorado, por exemplo?” Aí, eu respondi que não; que ele ficasse à vontade…”

       – E o safado ficou além da conta, não foi?

       – Mais ou menos…

       – Continue. Estou gostando da história.

       – Sim… como eu estava dizendo, eu me achava bastante ligada na fita, quando notei aquela mão forte e quente, alisando o meu ombro… Confesso, doutor, que senti aquele arrepio!…

       – Mãozinha boba, hein? Só quero ver como vai terminar essa história. Vá, prossiga.

       – Então, doutor… – ela continuou – o sem-vergonha foi subindo a mão e passou a acariciar a minha orelha… Depois, foi descendo a maldita mão pela parte de trás do meu pescoço. De repente – zipt! – puxou o meu cordão de ouro, com crucifixo também de ouro, e se mandou! Gritei por socorro, mas ninguém conseguiu pegar o desgraçado!

     – Mas você não me parece uma pessoa ingênua! Como é que se deixou enganar por um malandro desse?

     – Acontece, doutor, que eu pensei que ele estava com boas intenções!…

 

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Bem a tempo

     A turma do Brederodes fazia a sua farra de final de semana, no boteco de sempre, na orla marítima. Enquanto bebiam, os caras escutavam música, através do rádio da casa, ligado em determinada emissora local. De repente, a música foi interrompida e o locutor entrou com uma notícia, em “edição extraordinária”:

     – E atenção, senhores ouvintes. Acaba de dar entrada no Hospital de Pronto Socorro, em estado grave, o cidadão Florinaldo Campos. Segundo informou o plantão policial daquele nosocômio, o citado Florinaldo teve o seu pênis decepado pela esposa, a cabeleireira Marilda Campos, por questões de ciúme!…

     Ao escutar a informação, o Brederodes emendou:

     – Escutaram? Foi por isso que eu larguei a Benilda!

     Aí, um dos colegas de copo retrucou:

     – Mas o que tem a ver sua mulher Benilda, com a história desse infeliz que ficou sem o pau?

     – Tem muito a ver, sim. Quando ela chegou em casa dizendo que ia fazer o curso de cabeleireira, arrumei minhas coisas e me mandei!…

 

Pescaria errada

     Um certo Eufrásio Ramos, antigo funcionário da Petrobras, aposentou-se da empresa e fez uma poupança para realizar o maior sonho de sua vida: pescar no gelo.  Viajou à Noruega e, logo que desembarcou em Oslo, largou a bagagem no hotel e correu para os arredores da cidade. Depois de caminhar um pouco, parou numa bela planície coberta de gelo, serrou um círculo e lá introduziu o anzol, à espera da primeira fisgada. De repente, uma voz trovejante veio do alto, assustando-o:

     – Aqui não tem peixe!

     Eufrásio Ramos olhou para os lados, não viu ninguém e, recomposto do susto, retomou ansioso o caniço. Mais alguns minutos, novamente a voz:

     – Aqui não tem peixe!

     Desesperado, Ramos ergueu o olhar para o céu e implorou:

     – Meu Deus! Por que me privas de peixe, depois de tanto sacrifício para fazer esta tão longa viagem?

     – Deus coisa nenhuma, pô! – respondeu a voz. – Sou o chefe da torre de controle do aeroporto. Saia já daí que está pousando um superjato da Norway Air Lines!

 

Última esperança 

     Inexplicavelmente, um sujeito despencou do vigésimo andar de um edifício e, enquanto caía, gritava em desespero:

     – Abaixo o governo! O presidente é ladrão!

     Uma senhora que estava numa janela, ainda teve tempo de perguntar ao cara por que ele estava fazendo aquele escarcéu.

      Ele respondeu:

      – Estou tentando ser preso antes de me espatifar no chão!