Ailton Villanova

18 de outubro de 2015

Transporte indesejado

      Na década de 50, era comum serem vistos circulando pelas ruas de Maceió os proverbiais auto-lotações, transporte coletivo concebido como meio alternativo de locomoção mais rápido à qualquer ponto da cidade. Alguns desses veículos mal davam para conduzir seus passageiros com algum conforto, tão pequenos eram. Outros, cumpriam seus itinerários transportando comodamente o usuário, justo aquele melhormente abastecido de grana. Eram carros maiores, com autonomia para conduzir folgadamente vinte passageiros.

     Naquela época, os “lotações” conviviam tranquilamente com os ônibus. Entre seus donos não havia aquela “guerra” que hoje se observa entre taxistas e profissionais do volante que surgem como possibilidade de escolha do passageiro que pretende chegar mais rápido ao trabalho, ou dele voltar, ou, ainda, para cumprir algum compromisso, pagando tarifa mais conveniente e justa.

     Um dos habituês dos lotações era o Vilfredo Soares, biriteiro semanal, morador do Bebedouro. Às sextas-feiras, quando saía do trabalho, na oficina de consertos de veículos oficiais da prefeitura de Maceió, localizada na rua General Hermes, localizada no antigo distrito da Cambona, ele se mandava para o ponto de parada de ônibus e ficava aguardando o seu lotação. Quanto ele pintava no pedaço, Vilfredo pinoteava dentro e só ia desembarcar no Jaraguá – o lotação de sua preferência era aquele que fazia a rota Bebedouro/Jaraguá.

      Vilfredo só voltava pra casa na segunda, às 8 da noite. Dormia todo o final de semana na zona do saudoso “Duque de Caxias”, com a quenga de sua preferência e meio amante, de nome Terta, tomava o café da manhã com a referida na segunda, cedinho, pegava o mesmo lotação, de volta, e saltava na porta do trabalho, às 8 da manhã. Do trabalho ele largava às 6 da tarde.

      Num determinado final de semana, Vilfredo bebeu além da conta por um motivo justificado: no sábado, foi o dia de comemorar o aniversário da Terta. Ele começou a beber logo na sexta-feira à noite, quando baixou na casa da puta. Aí, os dois emendaram na biritagem e nos birinaites. Quando o entusiasmado Vilfredo se lembrou da segunda-feira, já era quase o dia seguinte.

     – Eita, minha nega! Já estamos entrando na terça-feira! – alarmou-se o mecânico.

     E a Terta:

     – Valei-me meu Padrinho Cícero! Você perdeu um dia de trabalho, meu nego! Se mande para não perder mais um dia!

     Ele se mandou!

     Mastigando um pedaço de pão e vendo o mundo emborcado, Vilfredo correu para o ponto do ônibus. Como estava com a vista embaraçada, porque ainda estava embriagado, ele não reparou direito no tipo de veículo que estava passando. Aí, levantou o braço, fazendo o gesto de quem solicita uma parada. O carro parou e o motorista, cheio de má vontade, disse:

     – Lá atrás! Abra a porta traseira e entre!

     Vilfredo entrou lá. O ambiente dentro do carro, além de escuro que nem breu, era malcheiroso ao extremo.

      – Eita catinga da bubônica da peste! Que lotação mais fedorenta! Ô motorista, pare aí que eu quero descer!

      O motorista não parou, até porque não ouviu o apelo do “passageiro”. E foi em frente. Só estacionou no Instituto Médico Legal.

      Quando abriram a porta para a descarga dos “passageiros”, Vilfredo pinoteou de dentro, botando todo o conteúdo do estômago pela boca: “bleeeaaaarrrrfff…” Quando acabou, limpou a boca com a ponta da camisa, encarou o funcionário do IML e indagou:

     – Ô seu cobrador, que lotação mais fedorenta é essa, rapaz?! Esse carro tá mais parecendo um carro de defunto podre!

      E o funcionário:

      – E é! E você estava pensando que era o quê?

      – Eu já disse! Eu tava pensando que era o auto-lotação que eu pego todo dia!

      – Pois dessa vez você pegou o bonde, digo, o lotação errado. Esse carro é daqui do IML e os passageiros são todos defuntos podres que fomos buscar no lixão de Cruz das Almas!

  

É só decidir!

     Quatro amigos se encontraram num bar, beberam muito e foram embora embriagados. Passando por uma casa, um deles resolveu apertar a campainha. Um senhora sonolenta atendeu e deu a bronca:

     – Bonito! São três horas da manhã e vocês completamente bêbados?

     Um deles retrucou:

      – Sem bronca, minha senhora. Decida logo qual de nós quatro é o seu marido, que os outros querem ir pra casa!

 

Bêbado demais!

     Seis amigos saem de um boteco, altas horas da madrugada, mais altos do que um poste. Vão para o carro estacionado junto à calçada e ficam discutindo quem entra primeiro, quem dirige, quem entra depois, e assim por diante, até que um deles, mais decidido, resolve assumir o controle:

     – Olhe aí, João, você dirige. Você está bêbado demais para cantar!

 

Matou o periquito!

     A mulher do Pretextato, dona Maria Lúcia, uma madame muito distinta, um dia perdeu a cabeça com o marido, depois que ele chegou bêbado, de madrugada:

     – Isso tudo ainda passa, seu maldito. Mas posso saber porque você matou o pobrezinho do periquito?

     E ele, de olhos arregalados:

     – Putaquipariu, Lucinha! Agora entendi porque a limonada estava com aquele gosto esquisito!