Ailton Villanova

16 de outubro de 2015

Era uma vez um tarado!

     Maria Acrimeuza não é essas bonitezas todas. Mas, pequenininha, simpatiquinha, zeradinha, corpinho todo na medida, foi motivo do desenfreado desejo do Metódio Custódio um cabra malandrão, ignorantão, desconhecedor profundo do significado da palavra “decência”.

      Incapaz de produzir um gesto de educação ou gentileza, ele também não passou despercebido pela Acrimeuza, desde o dia em que ela pôs os seus olhos castanhos no sobredito elemento, numa noite de festa natalina na Praça Santo Antônio, no Bebedouro. Ambos contavam, na ocasião, com 25 anos de idade, ela moradora da Rua do Banheiro e ele residente no Flexal de Baixo, situados no histórico bairro.

     Acrimeuza, era uma garota ingênua, ao passo que o tal de Metódio, do tipo fogoso, apreciava bastante “aparecer” perante as mocinhas. Nesse Natal, então, ele se exibiu até demais, mal bateu os olhos na pessoa da Maria Acrimeuza. E não perdeu tempo:

     – Boa noite, garota! Você é a criatura que mais brilha nesta festa! – repetiu o chavão dos famosos “telegramas” que eram lidos pelos locutores dos serviços de alto-falantes dos festejos de rua do Natal.

     E Acrimeuza, acanhadinha, olhando para o chão:

     – Brigada, moço…

     E ele, caprichando no atrevimento:

     – Você brilha mais nesta festa e… muito, muuuiiito mais no meu coração!

     A garota ficou comovida com o papo furado do cara.

     O passo seguinte da jogada do malandro foi propor namoro à ela:

      – Se por acaso o seu coração estiver desocupado, eu me proponho ocupá-lo… Pode ser?

      Insegura, ela indagou, piscando os olhinhos:

      – O se… senhor está querendo namorar comigo, é isso?

      – É, é isso! Gamei por você, garota! Você não é linda, abalou o meu coração!… Como é? Vai ser possível ou não vai ser possível esse namoro?

      – Preciso pensar, né?

      – Pensar? De pensar morreu um burro, minha filha! A felicidade batendo na sua porta e você ainda quer pensar?

      – Olha, eu não sou uma moça qualquer. Se estou lhe dizendo que preciso pensar, é porque preciso, sim. Eu nem lhe conheço. E tem mais: eu sou uma moça virgem!

      – Você é “cabaço”???!!! – alegrou-se o pilantra.

      – Cabaço? O que é cabaço? – quis saber a mocinha.

      – Cabaço? Deixa pra lá! Se não me conhece, comece me conhecendo agora. Meu nome é Metódio Custódio, sou um rapaz trabalhador e muito educado!

      – É, mas preciso pensar, está certo?

      Dito isto, a moça seguiu em frente e foi se reunir com um grupinho de amigas.

     A noite terminou com Acrimeuza morrendo de ansiedade pela chegada do dia seguinte. Melhor dizendo, da noite seguinte, quando voltaria a ver o grosseiro e deseducado Metódio.

     E viu. Foi a primeira cara que ela viu, quando assentou seus pezinhos na praça. Lá estava ele, de braços abertos, cobrando:

     – Como é, garota? Vai querer ou não vai querer namorar comigo? Já estou ficando impaciente!

     Acrimeuza foi firme na resposta:

     – Vou querer, sim, mas com algumas condições: nada de agarramentos, nada de beijos. O máximo de liberdade que nós podemos ter é… mão na mão!

     – Ôxi! Só isso???!!! Assim não quero! Isso é namoro de santo! Não posso nem lhe dar um beijo?

     – Na testa, uma vez no mês. E na porta da igreja!

     Como estava mesmo afim de comer a jovem, o elemento aceitou as condições impostas por ela. E contrapropôs:

     – Se você me permite, vamos até minha residência, que fica aqui perto, porque quero lhe apresentar à minha mãe, sua futura sogra. Concorda?

     Ela concordou e o casal, de mãos dadas, caminhou pela rua iluminada com lâmpadas multicoloridas até a casa do mal-intencionado. Mal entraram, o sujeito passou a chave na porta e atacou a indefesa mocinha. Babando-se todo, ele gania, feito cachorro doido:

      – Agora, você vai ser minha!

      E ela, abrindo no berreiro:

      – Socorro! Socorro!

      Mas… num lance de sorte – para a garota, claro! -, o taradão escorregou, caiu no chão. Acrimeuza se livrou dele e correu para a cozinha, onde encontrou uma afiada faca-peixeira dando sopa, em cima do balcão. Noutro lance de maior sorte e de defesa, ela manejou a faca de cima pra baixo, atabalhoadamente, decepando o órgão genital do elemento – zip! E ficou com o dito cujo na mão, dele só se livrando quando empreendia fuga, atirando-o no canal da lagoa Mundau.

 

 

Questão de consideração

     Dois bêbados – Asnóbrio e Eulâmpio – papeavam num boteco suburbano, enquanto esvaziavam inúmeras garrafas de cachaça. A certa altura, um deles, jisto o Eulâmpio, propôs irem para a zona do meretrício.

     – Boa ideia, parêia! – concordou o Asnóbrio, tentando levantar-se. Mas, aí, perdeu o equilíbrio e esborrachou-se no chão.

     Ao ver o estado do colega, Eulâmpio concluiu que ele jamais teria forças para transar e decidiu leva-lo para sua própria casa.

     Chegaram lá, foram atendidos por uma mulher velha e mal-encarada.

      – Putaquipariu! Que piranha mais feia! – alarmou-se o Asnóbrio.

     – Pô! Essa é a minha mãe, parêia! – disse Eulâmpio chateado.

     E o Asnóbrio:

     – Aaahhh!!! Então desculpe. Vou comê-la. Mas só por consideração, tá legal?

 

E o pau comeu!

     Outros dois bêbados biritaram até alta madrugada, no Bar do Romeu, no Jaraguá, e perderam a última condução para Ponta Grossa. Resolveram então passar a noite num hotelzinho safado no antigo Duque de Caxias, mas o gerente, sonolento, informou:

     – Só temos um quarto vago, com cama de solteiro.

     – Não tem importância, nós somos como irmãos. – respondeu um dos bêbados.

     Os dois foram para o quarto, apagaram a luz e se deitaram, um de  costas para o outro. E agarraram no sono.

     No meio da noite, um deles acordou e chamou o companheiro:

     – Antiógenes, tem um cara deitado comigo, aqui na cama!

     – Engraçado, Lula, na minha também tem. Vou tirar ele daqui.

     Os dois se viraram e começaram a trocar socos e tapas, até que um deles caiu no chão.

     – Antiógenes, o cara me derrubou!

     – E eu derrubei o outro aqui. Pode vir dormir na minha cama!