Ailton Villanova

15 de outubro de 2015

O CANDIDATO

     O sonho do Epistácio Mamede era ser presidente. Presidente de qualquer coisa. De time de futebol. De sindicato. De escola de samba. Do escambáu. Tinha que ser presidente. Era uma ideia fixa que chegava a ser irritante. Sua mãe, dona Mirandolina, cidadã bastante católica e que chegou a ser presidente da congregação “Filhas de Maria”, na paróquia do Bom Parto, tentou demovê-lo da ideia presidencialística, quando ele inventou de ser o dirigente maior de um timezinho de futebol chamado Vasco, com o seguinte argumento:

     – Nem invente de ser “presidente”, meu filho, porque a responsabilidade é grande demais! Eu sou presidente das Filhas de Maria apenas provisoriamente, porque a comadre Estefânia quebrou as canelas ao descer do bonde e nunca mais ficou boa. Já estou quase renunciando…

      Pensa que Epistácio desistiu da ideia de ser presidente do Vasco? Desistiu nada! Sorte é que não foi eleito. Das duas dúzias de eleitores aptos a votar, ele só teve um voto. Justo, o seu.

      Mas continuou persistindo: “Um dia serei presidente!”

      Ocorre que o grande problema do Epistácio residia no fato de que ele era alcoólatra. Mas não um alcoólatra qualquer. Ele era o maior tomador daquele líquido famoso que pinto não bebe. Por isso, ganhador de vários troféus e medalhas, conferidos pela Associação dos Botecos e Afins. Chegou, até, ser candidato ao posto de presidente da agremiação. Não se elegeu por um detalhezinho safado: não pertencia a categoria. Ademais, era analfabeto. E um alcoólatra que se preza tem que saber ler e escrever, para o caso de identificar, através da leitura, algum produto espúrio na composição do líquido proveniente da cana-de-açucar e de outros ingredientes básicos na produção da cachaça.

     Ele bem que tentou aprender a ler, mas o seu cérebro encharcado de tanto álcool não permitiu que identificasse ao menos um “a”, quanto mais o alfabeto inteiro.

     E Epistácio sofria com isso. Belo dia, na festa de aniversário de um seu colega de copo, o proverbial Lula Birita, ele viu a grande oportunidade de realização do maior sonho de toda a sua atribulada vida: ser Presidente!

     Lá pelas tantas, todo mundo bêbado, Lula Birita chegou para o Epistácio e, analfabeticamente, sapecou:

     – Parêia, eu e a turma, a gente precisamo de si!…

     Epistácio reagiu de orelha em pé:

     – Do que se trata, parêia?

     – Si trata do seguinte… tu vai sê nosso presidente, tá ligado?

     Ao escutar a palavra “presidente”, Epistácio “se ligou no barato” mais da conta. Deu um pinote de lado e sapecou:

     – Possa contar com isso! Quando é que eu tomo posse?

     – Peraí, parêia! A gente ainda não criêmo o nosso sindicato…

     – Então, vamos criá-lo agora! Aliás, na qualidade de futuro presidente, já tô criando o sindicato. Pronto, tá criado!

     – Mas num é assim, parêia! A gente precisamos bolar o nome do sindicato e depois registrá-lo na Delegacia do Trabalho…

     – Mas, se ninguém aqui trabalha, como é vamos registrar o nosso sindicato na Delegacia do Trabalho? Acho melhor e mais adequado registrá-lo na Delegacia de Polícia!

     – É isso! Graaannnde ideia, parêia!

     E o nome do sindicato, como vai ser?

     – Vamos votar!

     – Reúna a turma!

     Todos os pinguços unidos e reunidos, chegaram à conclusão de que a novel “entidade” passaria a se chamar Sindicato dos Tomadores de Substâncias Alcoólicas e Biritas Incrementadas do Estado de Alagoas – Sintoálcool.

      – Lindo nome! – vibrou Epistácio

.

     Enfim, agora ele era um Presidente!

     Eleito pela esmagadora maioria dos votos dos bêbados presentes, Epistácio fez um discurso emocionado, a ponto de se desmanchar em lágrimas. Aplausos também emocionados.

      Para finalizar o “histórico” pleito, o presidente eleito anunciou:

      – E agora, companheiros, vamos todos à delegacia de polícia mais próxima, para fazermos o registro do nosso sindicato!…

      – Vamos! Êêêêê…

      E saiu aquele cortejo de bêbados rua afora, cantando e dançando à moda carnavalesca. Não demorou muito, a turma parou diante da Delegacia do 3º Distrito de Polícia da Capital e um dos agentes do plantão, apoiou a mão no cabo do revólver e interrogou:

     – Ei! Que esculhambação é essa aqui?

     Epistácio adiantou-se e rebateu, cheio de moral:

     – Aqui num tem esculhambação nenhuma, seu polícia! Esta aqui é uma representação de companheiros fundadores do nosso sindicato…

     – Do sindicato dos bêbados? – zonou o policial.

     E Epistácio:

     – Me permita corrigir a sua pessoa, seu polícia… nosso sindicato é o Sintoálcool, que acabou de ser fundado. Eu fui eleito presidente e estou aqui para fazer o registro da entidade. Cadê o delegado, ele está aí? Se estiver, chame ele. Ah, traga também o escrivão!

     Mal o novo líder acabou de falar, o aplauso da galera foi estrepitoso.

     – É isso aí! É assim que se fala! Viva o nosso presidente!

     – Vivaaaa!

     Com tamanho barulho, não havia como o delegado Amarílio Amaral continuar puxando o seu roncozinho, de leve, no dormitório da distrital. Ele pulou da cama e correu para a entrada da repartição, já pronto para sacar da sua arma:

      – O que diabo está havendo aqui? Que barulheira é essa? Ninguém pode mais descansar sossegado nesta delegacia?

      Um dos agentes do plantão, esclareceu:

      – Esse monte de pinguços, doutor, achou de vir perturbar o seu sono com a história de que veio registrar o sindicato que acabaram de fundar! Não é uma ousadia muito grande, doutor?

      E o delegado:

      – Bateram na porta errada. Registro de sindicato é com a Delegacia do Trabalho. A delegacia aqui é outra. É de polícia! Agora, dispersem!

      Mas o novo líder sindical foi ainda mais audacioso:

      – Não vamos dispersar coisa nenhuma, doutor! Viemos registrar o nosso sindicato e só sairemos daqui com o assunto resolvido. Eu sou o presidente e exijo, falei?!

      O delegado Amarílio adiantou os passos, encarou o atrevido e o seu terrível bafo de cachaça:

      – Pois eu o destituo da presidência desse seu sindicato de merda!

      – Êpa, doutor! Isso é GOLPE!  Vocês viram, companheiros? O delegado está querendo aplicar um GOLPE no nosso sindicato! Reajam, companheiros!

      No primeiro tabefe que levou, o sindicalista de araque foi projetado a 50 metros de distância. No segundo, ele caiu no fundo do xadrez.