Ailton Villanova

14 de outubro de 2015

Um freguês muito chato

     Cidadão exemplar, o evangélico Manuel Pacífico, possuiu, durante anos, uma padaria, e ao mesmo tempo confeitaria, intitulada Capricho, que ficava no coração da Ponta Grossa e onde eram fabricados os melhores pães do bairro e adjacências. Fregueses choviam dentro e fora da Capricho, em filas quilométricas, porque também lá se faziam bolachas amanteigadas e doces, salgadas, biscoitos e bolos. Ah, esses eram famosos, principalmente os confeitados, graças a criatividade de seu Pacífico. Qualquer tipo de bolo era com a Capricho mesmo!

     Agora, o caro leitor, mormente o mais curioso, haverá de perguntar: “Mas, por que a Padaria Capricho fechou as suas portas, se ela era a melhor, a mais badalada de todas da parte sul da cidade?…”

      Respondo. Constrangido e penalizado respondo: é porque seu proprietário, o “irmão” Manuel, faleceu. É, faleceu engasgado com um pedaço de bolo, que ele mesmo fabricara. Que ironia, não é?

      Leitor mais indiscreto e exigente haverá de querer saber mais: “Por que o coitado morreu engasgado com a própria iguaria?”

      Respondo do alto da autoridade de quem fez a perícia de local no cadáver: “Porque o bolo estava gostoso demais. Apenas isso, e com um detalhe… Manuel Pacífico não teve o cuidado de molhar a goela ou com um cafezinho, ou com um guaranazinho, ou mesmo com uma aguazinha gelada, antes de mandar a gostosura pra dentro do bucho.

       A prematura morte do evangélico comoveu a região sul inteira. A choradeira foi maior quando a viúva, dona Otelina anunciou o fechamento da padaria.

       Quem deve ter vibrado com o falecimento do irmão Pacífico certamente foi o tal de Antiógenes Barromeu, sujeito ominoso, antipatizado por meio mundo de gente.

        Novamente a indagação: “Ora, se o evangélico era um homem decente, fino, tolerante e educado, por que sua morte haveria de provocar satisfação em alguém, mesmo sendo esse alguém o canalha do Antiógenes?

          Então, meus caros, me vejo na obrigação de contar à vocês aquilo que poderia ser motivo alegria para o abominável Antiógenes, ao ter, este, conhecimento da morte do padeiro. 

          Seguinte:

          Era um sábado primaveril. Brisa fresca soprando por todos os lados e a padaria e confeitaria do evangélico entupida de fregueses, todos felizes e satisfeitos. De repente, embocou no ambiente a figura pernóstica e indesejável do Antiógenes:

          – Bom dia!

          Só o irmão Pacífico respondeu o cumprimento:

          – Bom dia. Vai querer um pãozinho quentinho, saído agorinha do forno?

          – Não. Vou querer coisa melhor. – respondeu o boçal – Pão é coisa de pobre. Quero o melhor e mais caro bolo que você tiver aí!

          Sempre gentil e descontraído, o padeiro esclareceu:

          – Aqui, todos os bolos são iguais, menos os confeitados, que são para ocasiões especiais…

          – Pois eu quero um desses bolos confeitados, porque pra mim todas as ocasiões são especiais!

          – Nesse caso, o amigo aguarde um instantinho, enquanto eu atendo     as pessoas que chegaram antes…

          E o cara:

          – Mas eu estou apressado!

          – Essas pessoas também!

          Enquanto irmão Manuel Pacífico atendia a clientela, o cara azucrinava a paciência dos presentes:

          – Será que você podia dar uma pressinha, meu caro?

          – Eu lhe atendo num instante…

     E irmão Manuel continuou o seu trabalho. Não demorou muito, o cara reclamou:

     – Mas, que “instante” da bubônica é esse? Já faz mais de uma hora que estou esperando para ser atendido! Como é, vai atender ou não vai?

     Irmão Pacífico, então, pediu uma “licencinha” aos clientes, encarou o imbecil e indagou:

     – Escolha o bolo que quer levar e eu lhe atendo agora!

     – Já frocou? Já ví que nesta porcaria de padaria a gente só é atendido quando dá uma bronca. Tô já não querendo mais essa merda de bolo!

     – Mas vai querer, sim! – reagiu o padeiro, falando grosso.

     Dito isto, Manuel Pacífico saiu de trás do balcão deu garra do maior e mais pesado bolo que havia na prateleira e arrochou na cara do sujeito, acrescentando:

      – Como você está “muito apressado”, vai comer agora o seu bolo. Vamos, coma ele todinho!

      Enquanto Antiógenes chorava e esperneava, o dono da padaria enfiava  o bolo goela a dentro do sujeito. Depois que comeu tudo, inclusive com a ajuda dos demais fregueses, ele foi atirado no meio da rua. Quando caiu lá, foi atropelado por um ônibus.

 

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 Prejuízo total

     Velho avarento, seu Gregório Frazão economizou uma bela grana, arrumou um empréstimo bancário de cifras milionárias, juntou tudo e adquiriu um belo imóvel no centro comercial da capital, onde começou a instalar uma loja de artigo finos, principalmente cristais.

     Dias antes da inauguração, contratou uma dúzia de novos funcionários, todos especializados no atendimento à clientela do mais alto gabarito. Mas um desses contratados, de última hora, por sinal, foi, justo, o Jotajó, de cuja cachola só sai besteiras.

     Feliz da vida, seu Frazão inspecionava, o novo setor de carregamento de mercadorias caríssimas que haviam sido importados da Europa e do Japão. Aí, se aproximou do Jotajó, que se achava empenhado no empacotamento dos vasos de cristais mais caros e finos do mundo.

     – Muito bem, seu Jota, vejo que o senhor fez exatamente como eu mandei. Colocou no alto de cada caixa o adesivo com os dizeres “Este lado para cima”.

      E Jotajó, todo contente:

      – Claro, doutor! E eu tô doido, pra esquecer uma recomendação do senhor? E ainda fiz mais, para maior segurança: colei também o adesivo no fundo de cada uma delas!

 

Velhinho danadinho!

     Depois de confessar ao médico que julgava estar ficando impotente, seu Jurandino Xavier 99 anos de idade, muito deprimido, escutava o  doutor que, pacientemente, lhe explicava que à medida que os anos passam, as funções vitais do corpo humano vão aos poucos enfraquecendo.

     – É perfeitamente normal que o desejo sexual diminua, seu Jura. O senhor não deve absolutamente ficar preocupado. Relaxe e verá que as coisas irão melhorar. Além do mais, me diga: quando começou a se dar conta do problema?

     – Bem… ontem à noite, três vezes. E hoje pela manhã de novo!