Ailton Villanova

11 de outubro de 2015

O Atleta Sem Bola

     Famoso nas Alagoas e além fronteiras pela sua coragem e audácia, o advogado e ex-deputado estadual Luiz de Gonzaga Mendes de Barros nunca foi de levar desaforo pra casa e nem de perder uma piada. Sobre ele já se escreveu muito, inclusive eu, que cheguei a assessorá-lo na oportunidade em que se lançou candidato a Senador da República, no ano de 1970. Mas do que dele se sabe e se conta – e eu sei e já contei muita coisa – destaco um episódio que, pelo pitoresco de que se reveste, não pode permanecer anônimo.

     O episódio que espere um pouco, porque preciso dizer mais sobre esse cidadão, que trago na conta de bom amigo.

     Carismático, Mendes de Barros que ademais se destaca pela condição de testemunha da história política contemporânea e seu indefectível cachimbo inglês (ele possui uma coleção caríssima) de fumo perfumado e raro, foi um homem perseguido, cumpriu prisões sem processo e tentativas de ter impugnada sua candidatura ao Senado da República. Foi como cutucar o cão com vara curta. Aí, era que sua verbosidade mordaz funcionava sem dó e nem piedade. Principalmente nos seus comícios – eu sempre presente a eles e a milicada verde-oliva também, tentando intimidá-lo.

     – Eles dificultavam o fluxo das pessoas com sacanagens no término do ato, para que não comparecessem ao próximo – lembra, reconhecendo que tais atitudes serviam para formar a opinião pública acerca do caráter do sistema vigente.

     O livro que o jornalista e escritor Joaldo Cavalcante escreveu sobre Mendes de Barros traduz com uma fidelidade incrível, o caráter, a personalidade, enfim, o homem, que é, e que durante breve período transformou a vida do senador Fernando Collor de Mello num inferno. Mas, foi ele próprio, Fernando, quem provocou a situação.

      Fernando Collor, no auge da campanha de 1986 para o governo do estado, tomou Mendes de Barros pra compadre, intitulando-o “Marajá” e o exemplificando como uma “figura negativa que tinha que ser banida do serviço público”. Mendes, que era procurador jurídico da Assembléia Legislativa rebateu de maneira tão perversa que Collor chegou, até, a encontrar dificuldade em se por de pé em cima das canelas. Mendes apelidou-o de “Nando Pó”, atribuindo-lhe a contumácia de viciado em cocaína.

     Mendes de Barros sabe ser mordaz quando lhe apetece.

     Fecho o parêntesis que abri no segundo parágrafo, para me reportar ao episódio pitoresco de uma sua de suas passagens pela área esportiva e é Joaldo Cavalcante quem me abre a memória a respeito, na sua obra “A Vez da Caça”.

     Torcedor do Clube de Regatas Brasil, belo dia Mendes de Barros foi desafiado pelo amigo Miguel Lino Spinelli, dono do São Domingos Futebol Clube:

      – Mendes, já que você também se considera torcedor do Domingão e vive dando tantos pitacos na vida do time, que tal assumir de vez a sua presidência?

      Spinelli cutucara o cão com vara curta. Mendes de Barros que nunca foi de enjeitar parada, topou o desafio:

      – Tá certo, eu assumo a presidência. Mas quem manda no time sou eu! Unicamente, eu!

      – Mas é claro! – concordou Spinelli. – Foi pra isso que lhe convidei.

      Mal assumiu o posto e ao chegar em casa para almoçar, sua esposa, dona Elisa, contou a novidade:

      – Lula, você foi nomeado presidente do São Domingos, mas os presenteados fomos nós, eu e os meninos. Mandaram um buquê de flores e uns bombons!…

      – Quem mandou?

      – Foi um senhor chamado Gabriel!

      Mendes ficou encucado com esse tal de Gabriel. À tarde, quando adiantava o despacho de alguns processos em seu gabinete na Assembleia Legisltiva, para, em seguida, ser apresentado ao clube, sua secretária anunciou:

       – Doutor, tem aí um rapaz chamado Gabriel que insiste em falar com o senhor!

     – Mande-o entrar! – Somente assim eu conheço esse cara!

     – Doutor Mendes, muito prazer, eu sou o Gabriel! – o cara foi logo dizendo.

      – Gabriel de onde?

      – Ôxi! O senhor não sabe?

      – Deveria?

      – Sou o “meia” do São Domingos. Vim aqui para acompanhar o senhor até o campo do CSA, onde vai ser feita a sua apresentação…

      – Ah, a propósito, quero lhe agradecer pelas flores e pelos bombons…

      Bom. Mendes e o acompanhante foram ao Mutange, onde a turma se achava lhe aguardando. Éric, ex-CSA, o treinador, saiu apresentando todos os atletas. O último, foi o Gabriel, que já havia se antecipado à iniciativa.

       O novo presidente olhou direitinho pra ele e disse:

       – Muito bem, seu Gabriel… Quer dizer que você é o “meia”…

       E ele:

       – É, sou. Mas na verdade, doutor, prefiro mais jogar sem bola!

       – Mas, como é que se joga sem bola, meu rapaz?

       – Com criatividade, doutor. Com criatividade!

       Mendes, então, encerrou o papo:

       – No meu time, não se joga só com criatividade. Se o senhor joga sem bola, não me serve! Vá jogar na puta que o pariu!

       E dispensou o Gabriel. Na hora.