Ailton Villanova

10 de outubro de 2015

O incrível Velho Dedé

      O velhinho nunca havia contado à ninguém a idade que tinha. Todavia, as pessoas que o conheciam conjecturavam ele estar beirando os 100 anos, sem exagero algum. Seu Demócrito Gusmão, popularmente chamado de “Seu Dedé”, só andava nos trinques. Baixinho, olhinhos de gato, caminhava ligeiro, às vezes levantando poeira. Mas só quando estava apressado.

     Na maioria das vezes, seu Dedé era visto entre jovens do bairro do Bom Parto, onde morava, porque apreciava parecer moço. Sua cachacinha com limão jamais desprezou, principalmente na hora do almoço. A casinha onde morava, localizada à beira da linha férrea da rua Delmiro Gouveia, era uma casinha limpinha, toda arrumadinha bastante frequentada por menininhas descompromissadas, já passadas da idade “de menor”. O dinheirinho da aposentadoria de antigo funcionário da Great Western, ele gastava quase todo com essas criaturas. O fato de ter sua residência frequentada constantemente pelo mulherio mais jovem, causava inveja à rapaziada, que estava sempre tirando uma onda com ele.

     No Bom Parto residia um certo José de Arimatéia, mais conhecido como Zé Pinguelo, justo o que mais pegava no pé do velho Dedé.

     – Seu Dedé, por que o senhor gasta tanto dinheiro com as meninas, se não tem a menor condição de trepar com elas? Esse seu pau não serve nem mais pra mijar… há, há,há… – provocou, um dia, o invejoso Pinguelo.

      Malcriado, o ancião respondeu com um desafio:

      – Pois traga a sua mãe pra cá, pra eu mostrar à ela como é o riscado. Aliás, não traga só a sua mãe. Traga a sua irmã, as suas tias, quem quiser trazer… desde que seja boa de cama.

      A turma no bar do Pedro, onde o diálogo estava sendo travado, caiu toda na gaitada. Zé Pinguelo ficou sem jeito e tentou se sair numa boa:

      – Minha mãe já morreu, mas minha tia Odete bem que podia topar a parada… há, há, há…

      E o velho:

      – Só ela? Traga a mulherada toda da família!

      Zé Pinguelo irritou-se:

      – Pra matar o senhor na primeira “barrufada”, basta somente a tia Odete!

      – Tá certo. Quantos anos ela tem?

      – Eu acho que uns 60…

      – Iiihhh! Sessenta anos. Vai aguentar, não.

      – Quem não vai aguentar é o senhor, velho safado. Qual é a sua idade?

      – Cento e dois anos!

      – Cento e dois???!!! Ih, já morreu!

      – Topa uma aposta?

      – Topo!

      – Quinhentos cruzeiros (era a moeda da época)!

      – Tá acertado. Aguente a mão aí que eu vou buscar a minha tia. Num corra não, viu velho conversador?

      – Êpa! Antes de ir buscar a sua tia, vamos “casar” a aposta.

      – Vamos!

      Aposta feita, o dinheiro “casado” ficou na mão do dono do bar. O relógio marcava exatas 10 horas da manhã. Zé Pinguelo retornou ao local com a tia, a quenga mais conhecida nas paragens de Bom Parto, Cambona, Alto da Conceição, Pitanguinha, Pinheiro e Bebedouro. O velhinho olhou pra ela e comentou:

     – Hmmmm… Dá pra quebrar um galho!

     Odete se sentiu ofendida com a observação e respondeu, na batata:

      – E você já pode contar que é defunto. Já tô até com pena de você, infeliz! Vamos logo pra cama, porque eu tô “avexada” pra cumprir outros compromissos.

     O casal se deslocou até a casa do velho, que ficava poucos metros do bar. Entraram lá, a turma que os acompanhou se postou do outro lado da rua, que era cortada pela linha férrea, e ficou aguardando o desfecho da “prova”.  As testemunhas começaram a contar: uma hora, duas horas, três horas, quatro horas… Até que a mais preocupada das “testemunhas” alertou:

      – Eu tenho pra mim que o velho esticou as canelas!

      Outro concordou:

      – Eu também acho. Esse silêncio não me agrada!

      Aí, Zé Pinguelo, que àquelas alturas não conseguia esconder sua preocupação com a tia, sugeriu:

     – Nesse caso, pessoal, vamos arrombar a porta e entrar lá!

     – Vamos! – concordaram todos.

     Mais de dez sujeitos meteram os peitos na porta, derrubando-a. Quando invadiram o quarto, deram de cara com o velhote, tranquilão, pitando o seu cigarrinho e soltando fumaça pelos buracos da venta. Ao seu lado, Odete sonhava de olhos abertos.

     – Êpa Que negócio é esse?! Que liberdade é essa de vocês invadirem a minha casa sem pedir licença? Façam o favor de se retirar, porque agora eu vou começar a trepança propriamente dita! A gente tava só dando um “trenozinho”, não era minha nega? – discursou o velhote.

     E Odete, revirando os olhos:

     – Verdade, meu “sansão”.

     A plateia toda de queixo caído, e o velho agoniado:

     – Como é, vão sair ou não vão? Se não, vão, então façam o seguinte… peguem umas cadeiras, vão se ajeitando por aí e fiquem apreciando e aprendendo como é se que se trepa de verdade.

     Dito isto, e enquanto a turma se organizava para ver o “espetáculo”, um detalhe chamou a atenção da mais curiosa das testemunha, justo o Zé Pinguelo:

      – Minha gente, repare pr’aqui! Esse velho tarado é um anormal mesmo! Venham olhar!

      Todo mundo rodeou o casal, que se achava muito à vontade, na cama, particularmente a Odete. Menos ela ameaçou cair para trás, quando Zé Pinguelo alarmou:

       – Esse velho dos seiscentos diabos tem três pernas!!! Olhem direitinho… ele tem três pernas! Como é que a gente nunca tinha notado?

       Quem fez questão de esclarecer o barato foi, justo, a Odete:

        – Que três pernas que nada, menino! Preste bem atenção ao olhar as coisas, para não ficar falando besteira…

        Zé Pinguel chegou mais pra perto e o velho, em tom de zombaria, falou:

        – Reparou? Reparou que eu só tenho duas pernas, seu imbecil?

        O “espetáculo” proporcionado pelo velho Dedé e sua “partner” Odete, só terminou na manhã seguinte.