Ailton Villanova

9 de outubro de 2015

O comprador abusado

     O Acácio Botelho da Penha, sertanejo das brenhas do Agreste, é um “caboco” complicado. Autêntico exemplar humano que faz jus à sua origem, por qualquer besteirinha ele faz uma confusão. Pior é que, na maioria das vezes, sem justificativa alguma e sem razão. Ninguém consegue convencê-lo que está errado. A não ser a polícia. O cara é uma parada!

     Numa certa manhã de sexta-feira, dona Belarmina, sua caríssima consorte, o pegou desprevenido na porteira de sua fazendola e alojou o seguinte papo no seu ouvido:

     – Meu véio, a televisão quebrou! Logo hoje, quando aquela moça chamada Ana Maria Braga vai ensinar uma receita de bolo de macaxeira!…

     – E eu com isso, mulher? Tá me achando com cara de consertador de televisão? – rebateu o abusado.

     E ela, treplicando:

     – Eu tô só avisando do desastre. Depois, não venha reclamar porque também não está conseguindo ver as notícias…

     Aí, Botelho se mancou:

     – E como foi que essa peste se quebrou?

     – Simplesmente parou de funcionar! Essas televisões de hoje em dia são uma verdadeira porcaria, iche!

     – Então, é melhor eu comprar outra!

     – É mesmo, meu velho… Faça isso!

     – Nesse caso, que vou agora na loja…

     – Compre uma televisão bem boa, dessas que não quebra nunca, viu?

     – Tá querendo me ensinar as coisas, mulher? Tá pensando que sou otário, ou algum imbecil que num sabe comprar as coisas?

     – Num falo mais nada, pronto! Vá logo comprar a televisão, antes que comece o programa da Ana Maria Braga!

     Botelho montou na velhusca bicicleta da década de 60, uma Monark, e pedalou febrilmente até a loja mais conhecida do comércio de Arapiraca. Chegou lá suando em bicas, devido o esforço pedalativo de légua e meia de distância. Mal assentou o solado dos pés dentro da loja, foi surpreendido pelo vendedor chamado Isaías que, de venta acesa, sapecou:

       – Bom dia, freguês! Hoje o senhor está com sorte, porque toda a loja está em promoção!

       E seu Botelho, ignorantão, como sempre:

       – Ô seu moço, me deixe ao menos respirar! Num tá vendo que tô suado e cansado?

       E o vendedor, sem dar trégua ao freguês:

       – Quer um copinho de água geladinha? Um ponchezinho de maracujá? Ou vai querer uma laranjada?…

       – Não vou querer nenhuma dessas merdas. Vou querer ver as televisões, porque a porcaria de TV que tenho lá em casa, acabou de quebrar!

       – Pois o senhor veio ao lugar certo, meu amigo! Temos televisores de todas as marcas e das variadas polegadas…!

       – Aqui tem aquelas chamadas “Flipes”?

       – Aaahhh! O televisor Philips! Puxa vida, caro freguês, como não haveria de ter? Temos, sim, as melhores do mercado… moderníssimas!

       – Quero ver!

       Sorrindo de orelha a orelha, o vendedor saiu empurrando o comprador até a prateleira onde se achavam enfileirados os televisores. Apontou para o maior de todos e anunciou triunfalmente:

       – Aqui está o seu televisor, caro freguês. Este é um Philips último modelo e está na promoção. Custa 1 mil reais!

       – Mil reais???!!! – assustou-se o comprador.

     – Sim, caríssimo freguês. Mil reais no barato. Pode procurar nas lojas concorrentes e o senhor encontrará um exemplar desse pelo dobro do preço!

     – E por que aqui está tão barato, conforme você diz? Eu até desconfio, sabe? Tão barato assim só pode ser roubado!

     O vendedor deu um passo para trás e encarou Acácio Botelho:

     – O senhor está nos insultando, meu amigo!

     – Eu não sou amigo de ladrão!

     – O senhor está passando dos limites. Se não tem dinheiro para comprar uma maravilha dessa, não fique depreciando a mercadoria!

     Acácio Botelho arregalou ainda mais os “butucos” dos olhos e lascou lá:

     Se você está dizendo que essa televisão não é roubada, então ela é falsa!

     Espumando que nem cachorro doido, o vendedor subiu ao alto da indignação e ameaçou:

     – Retire-se desta loja! Retire-se! Se não se retirar por bem, vai se retirar por mal, porque vou chamar a polícia!

     E Botelho:

     – Então, eu saio por mal, com o maior prazer. Chame a polícia, ladrão safado!

     E completando a arrogância e o insulto, Acácio Botelho apoderou-se do televisor questionado e o arremessou na cabeça do vendedor – vabei!   

     A questão terminou com o agressor no xadrez, por tentativa de homicídio, e a vítima no hospital, com a cabeça rachada e costurada em várias partes.

 

Matou por engano

     Desconfiadíssimo, o Peralva chegou em casa e escutou a mulher falando com alguém. Aí, parou antes de abrir a porta, escutando o restante da conversa:

     – Vou mudar de posição um pouquinho – dizia a mulher. – Agora, mexa devagarinho que eu vou acompanhando… Se eu colocar o espelho perto da janela dá pra você também ver… Isso… Está ficando bom. Continue, continue… Aí, chegou no ponto… Segure um pouquinho aí… Ótimo…Perfeito… Aaaahhh… pode descer agora. Quer beber alguma coisa? Sabe que meu marido já tentou essa posição, mas não funcionou?

     No dia seguinte, Peralva, o marido, era manchete de jornal:

     “Cego de ciúme, matou o instalador de antenas de TV”.

 

Além de corno…

     Toda tarde, quando o notório Correínha saía do trabalho e se encaminhava ao ponto de ônibus, passava um desconhecido de carro e gritava:

     – Corno manso! Ei, corno manso!

     Depois de uma semana, Correínha começou a desconfiar do barato e pediu explicações à mulher. Ela o tranquilizou:

     – Não se preocupe, meu amor. Deve ser algum louco que faz isso em tudo quanto é ponto de ônibus.

     No dia seguinte, o cara do automóvel repetiu o insulto, com um acréscimo:

     – Ei, corno manso! E, além de corno, fofoqueiro!

 

Nem precisou tanto!

     Cornão anônimo, doutor Calixtrato descobriu finalmente que estava levando pontas adoidado. E a mulher nem era essas coisas todas. Aí, ele contratou um pistoleiro, por indicação de um amigo do peito:

     – Cinco mil pra você atirar no dois, combinado? Mas quero que acerte um tiro na cabeça dela e… rá! rá!… uma bala no pinto do amante.

     Três dias depois, boquinha da noite, o pistoleiro procurou Calixtrato no escritório do referido:

      – Fiz tudo conforme o combinado, doutor, e vou lhe cobrar somente 2.500.

     – Como assim? – espantou-se o cornão.

     – Gastei somente uma bala!