Ailton Villanova

4 de outubro de 2015

O “milagre” furado do pastor Pepê

     Petronílio Pantaleão, o Pepê, 45 anos de idade, nunca foi chegado ao trabalho. Seus pais – seu Pertuvíquio e dona Estrevolina – iniciaram inglória luta para convencê-lo a se interessar por uma ocupação digna, decente e produtiva quando ele completou 15 anos.

     Era a mãe:

     – Quando é que você vai querer arrumar um trabalho, meu filho? Daqui a pouco faz 50 anos, tempo de aposentadoria, e nada arrumar um emprego?

      E ele, soltando a fumaça do cigarro pelos buracos da venta:

      – Ah, mãe, não nasci para encarar esses empreguinhos mixurucas, por conta de um salário mínimo…

      – Mas, Pepê, que tipo de trabalho você pretende, que possa lhe pagar alto salário, se não estudou pra isso? Nem terminou o curso primário!…

      – S’imcomode não, mãe. Um dia a senhora irá se orgulhar do seu filho… Estou bolando uma ideia joia, que vai me dar uma grana preta. Só quero que a senhora me compre um terno preto, uma camisa branca, uma gravata azul e um par de sapatos pretos…   

       – Pra onde você vai todo de preto? 

       – Surpresa. Fique na sua.

      O negócio do Pepê era só moleza, sombra e água fresca. Mais do que ninguém, a mãe sabia disso, mas atendeu o pedido do filho. De posse da roupa nova, o cara desapareceu das vistas de dona Estrevolina e foi parar na porta de um velho amigo de malandragem, o Melquizedeque, com quem se abriu:

     – Preciso de um favor seu…

     – Diga lá, parêia. Que tipo de favor? Se for pedido de grana, é melhor parar por aí!

     – Não é nada disso. O caso é que estou pretendendo fazer um milagre de lascar!

     – Endoidou! Agora quer virar, santo, meu? Qualé?

     – Escute o meu plano, rapaz!

     – Tá legal. Mas vou logo lhe dizendo… só participo dele se correr muita grana. Qualé o plano?

     – É o seguinte…

     E expôs o seu plano, com o amigo, muito atento, escutando tudo sem dar um pio:

     – O barato hoje, meu irmão, é dar uma de pastor milagreiro. O povo é idiota e vai na onda.

     – Ah, isso é verdade, parêia. Principalmente povo pobre. Não me diga que vai fazer aquela malandragem do copo da “água milagrosa”.

     – Essa onda é muito fraca. Eu quero é um negócio mais dramático, mais emocionante. E é aí onde você entra!

     – Mas como?

     – Você vai dar uma de paralítico, montado numa cadeira de rodas…

     – Vai dar certo não, meu camarada! Todo mundo me conhece e sabe que não sou paralítico!

     – E se for um paralítico camuflado, todo enrolado de gaze?

     – Bom… é caso pra se pensar.

     – Não tem o que pensar, cara. Vamos bolar o drama, arrumar um auxiliar e ensaiar direitinho, pra tudo dar certo.

     – E tem que ter plateia, meu!

     – A gente arruma na hora! Já tenho tudo na cachola!

     Depois de uma quilométrica confabulação, os dois malandros e mais o auxiliar Biu Xexéu, partiram para a execução do plano. Primeiramente, arrumaram, por empréstimo, um som meio derrubado, mas que dava pro gasto. Em seguida, escolheram uma praça da periferia onde instalaram a parafernália. Tudo conferido, Pepê , vestido no terno preto, ligou o som,  para os curiosos que circulavam na rua:

     – Irmãããoss… permitam-me que eu me apresente! Eu sou o Pastor Petronílio Pantaleão, da Igreja Internacional do Amor Divino, conhecido no mundo inteiro como o “Milagreiro do Século”!

     Essa foi a “deixa” para a entrada em cena do cúmplice Melquizedeque, auxiliado pelo Biu Xexéu. Montado na cadeira de rodas, que havia pertencido ao finado avô do Pepê, o malandro parecia uma múmia. Todo enrolado de gaze, uma perna e um braço engessados, ele atravessou a praça, levantou o braço e desafiou, na conformidade do que haviam ensaiado:

     – Você é milagreiro? Se é milagreiro, me tire desta cadeira de rodas!

     Pastor Pepê se preparou para o seu show:

     – Sou milagreiro, sim, com a graça de Deus! Chegue mais para perto, ó incrédulo!

     Melquizedeque chegou junto e o falso pastor indagou:

     – Por que você carrega no colo essa bola de futebol, ó incrédulo?

     E o malandro:

     – É porque ela minha companheira, desde o tempo em que eu jogava futebol. Eu quero que você me cure porque eu pretendo voltar a jogar a minha peladinha…

     Aí, o falso pastor estufou o peito, abriu os braços imitando uma cruz, olhou para o alto, depois baixou a vista e berrou:

     – Levanta-te e anda, incrédulo!

     Ao escutar a dica do falsário, Melquizedeque pôs-se de pé, arrancou a fantasia e o gesso dos membros, iniciando uma série de “embaixadinhas” com a pelota. Enquanto isso, a plateia, emocionadíssima, bradava:

     – Milagre! Milagre!

     Mas, no meio dessa dessa euforia popular toda, eis que surgiu no meio da massa um tal de Antiógenes, rival do Melquizedeque, que cortou o barato:

     – É mentira, pessoal! Isso é enrolada! Esse cara não é paralítico! É um enganador! O pastor também é um pilantra! Vamos pegá-los e dar um pau neles, gente!

     Pegaram.

     Dias mais tarde, os malandros deixavam o hospital utilizando a mesma cadeira de rodas, porque nã