Ailton Villanova

2 de outubro de 2015

Sobrou para o doutor!

     Baixinho, gordinho, mandíbula proeminente, o fazendeiro intitulado Ezequiel Pitombeira era possuidor de uma grana preta, em vários bancos importantes com agências instaladas no Nordeste. Controlava, além do mais, cinco fazendas no Agreste sergipano e um monte de imóveis de luxo no litoral de Alagoas. Ezequiel apossou-se desse colossal patrimônio sem bater um prego numa broa. Herdou dos pais, Agrício e Esmeraldina Pitombeira, falecidos num acidente de carro, ocorrido entre Alagoas e Sergipe.

     Filho único de Agrício e Esmeraldina Pitombeira, o baixinho Ezequiel criou-se estúpido, sem muita instrução, com a mania de somente possuir aquilo que lhe parecesse “do bom e do melhor”. Mal botou a mão na fortuna já descrita, o baixinho tratou imediatamente de anunciar que estava precisando arrumar um casamento, porque se achava solitário demais.

     Espalhada aos quatro cantos do Nordeste a notícia de sua pretensão, eis que, depressinha, baixou na sua área uma candidata ao casório, apadrinhada por um seu parente, chamado Agajoel. A moça era dessas de fechar comércio em qualquer parte do planeta – lindíssima, corpo espetacular e olhos azuis da cor do céu.

     – “Zequié” – disse o tal parente, exibindo a criatura. – Apresento-lhe Sandra Carla, a garota mais linda deste mundo. É solteira, descompromissada e órfã, como você!

     Dentro da caixa dos peitos do Ezequiel, o coração começou a pinotear adoidado, ameaçando saltar pela boca. E ele, mal conseguindo falar:

     – Pra… prazer, dona moça!

     E ela, piscando os lindos olhos e com voz melíflua:

     – O prazer é todo meu, senhor Ezequiel…

     – “Senhor” Ezequiel???!!! – intrometeu-se o parente. – Mas o que é isso, minha linda? Sem esse tratamento cerimonioso, viu? Chame-o mesmo de Ezequiel!!!…

     – Tá bom, tá certo… – respondeu a gostosura um tanto acanhada.

     De sua parte, o herdeiro milionário, continuava mudo, só admirando as curvas espetaculares da criatura.

     E o parente, estimulando o diálogo entre os dois:

     – Como é Zequié, você não fala nada?

     O infeliz só fez dizer:

     – É que estou muito emocionado, num sabe?

     – Bem, para acabar com esse acanhamento, vamos tomar um uisquezinho… Tem uísque neste casa, Zequié?

     – Tem, claro. Mas a moça vai tomar essa bebida pesada? Pra ela mão seria melhor “uma” guaranazinha, um suquinho, um ponchezinho de limão?…

     – Prefiro uma cachacinha… – sugeriu a garota.

     – Cachaça???!!!

     – É, cachaça! Sou ligada numa cachaça. Tem?

     Ele tinha. Aí, o trio começou a beber. Meia hora depois, o parente do Ezequiel caiu desmaiado. Ficaram os dois conversando besteiras e mandando ver na aguardente. Pela madrugada, quatro grades e meia da bebida haviam sido consumidas pela dupla.

      Pela manhã, depois da farra e a dupla completamente embriagada e praticamente sem roupa, o compromisso casamentífero já estava firmado.

      – Quando é que a gente casa, meu baixinho? – indagou a gostosura, mal articulando as palavras, tão embriagada se achava.

      – Se der, a gente casa agora! – respondeu Ezequiel – Trouxe os documentos?

      E ela:

      – Sou uma mulher prevenida, meu filho.

     Ezequiel e Sandra Carla não se casaram naquele dia, por causa das exigências legais pertinentes. Mas, uma semana depois, os dois ingressavam na Igreja de São Bartolomeu, no Agreste de Alagoas, para cumprirem o ritual casamentífero. Depois da solenidade, a festa foi mesmo de arrombar. Muita comida, muita bebida, muito nego bêbado.

      Felicíssimo, Ezequiel cochichou no ouvido da esposa:

      – O que você quer de presente de casamento, meu amor?

      E ela, revirando os olhos:

      – Se eu pedir, você me dá mesmo, meu baixinho?

      – Dou, sim. Peça!

      Ela pediu:

      – Quero meia dúzia de filhos!

      Ezequiel segurou-se firme nas canelas pra não cair e respondeu sem convicção:

      – Só isso, meu amor?

      (Abro aqui um parêntesis para um esclarecimento gravemente importante: Ezequiel, o novel marido, era donzelo. Além de donzelo, possuía um defeito de ordem fisiológica – era estéril. Filhos, de sua parte, só na base da adoção.

       Mas Ezequiel não sabia disso.

      (Fecho o parêntesis)

       Bom. Na primeira noite do casal, foi Sandra Carla quem, com muita paciência e competência, mostrou pro marido como era o riscado.

       – É tão bom! Puxa, como é bom! – ele repetia sem parar.  

       A partir daí, Ezequiel não queria mais sair de cima da mulher. De instante a instante, era – zupt, zupt, zupt, foc, foc, foc… Ela aceitava porque queria filhos.  

       Ao cabo de um ano, nada de filho. Preocupada, Sandra Carla propôs ao marido levá-la a um médico especialista. Ezequiel concordou rapidinho e no outro dia eles estavam diante do doutor Genésio Nobre, um jovem bonitão muito parecido com o Clark Kent, o famoso SuperHomem.

      Doutor SuperHomem, digo, doutor Genésio despiu a paciente, deitou-a na mesa de exames e se lançou à febril tarefa de esmiuçá-la por dentro e por fora. Duas horas depois, exausto, o médico concluiu:

      – Dona Sandra, com você está tudo em ordem. Problema nenhum. Mas, mesmo assim, vou requisitar uns exames de laboratório, para eliminar todas as dúvidas, tá bom assim?

      E a paciente, toda caidona pra cima do médico:

      – Ooohhh, doutor! Eu acho bom até demais!

      – Então, faça o seguinte… quando tiver em mãos todos os resultados, volte aqui para nova avaliação.

      – Voltarei! Voltarei sim, doutor.

      Dito isto, Sandra Carla rodopiou no centro da sala e passou pela porta de saída puxando “mil por hora”. O marido correu atrás:

      – Que pressa é essa, Sandrinha? Pra onde vai correndo desse jeito?

      E ela:

      – Vou ao labotarório me submeter a uns exames, que o doutor pediu. Disse que é urgente!   

      Dois dias depois, olha o casal de volta ao consultório do doutor Genésio Nobre! Ele pegou os papeis dos exames, leu com muita atenção o que neles estava escrito e, em seguida, encarou o casal:

      – Bom… segundo consta dos exames, dona Sandra Carla tem a saúde perfeitíssima. Nenhum defeito. Seus órgãos reprodutores são excelentes, o que me autoriza afirmar que o defeito pelo fato de o casal não ter filhos, o defeito é do senhor Ezequiel… infelizmente!

      Aí, a mulher caiu em prantos:

      – E agora, meu Deus! O que farei da minha vida? Sonhei tanto dar a luz aos meus próprios filhos… E agora? Cadê que posso?

      E o médico:

      – Pode, sim. Eu já lhe disse, que a senhora é perfeita. Aliás… perfeita até demais!

      – Eu queria tanto ter filhos… Seis filhos! É o meu sonho! Se não tiver esses filhos, eu morro! Eu morro!

     Depois de profundo silêncio no ambiente, o marido se adiantou, pôs a mão no ombro do médico e recorreu, em tom lastimoso:

     – Por favor, doutor, salve a minha mulher… Não deixe que ela morra!

     Competentíssimo, doutor Genésio Nobre passou anos e anos salvando a vida da mulher. Todos os dias.