Ailton Villanova

1 de outubro de 2015

Genepal, o Canibal

     Quando o casal Generino e Palmira Gamaliel inventaram de batizar o seu primeiro filho com a associação das primeiras letras dos seus respectivos nomes (“Gene” e “Pal”), padre Odulpho, ministrador do sacramento, reagiu:

     – Não gostei desse nome. Soa mal. Vocês não poderiam repensar e substituí-lo por um outro? Existem nomes lindos!

     E Palmira, a mãe:

     – Mas esse nome também é lindo, padre. É a junção do nome do meu marido com o meu. Genepal é lindo!

     – Soa mal, meus caros. Genepal rima com Canibal… – insistiu o reverendo.

     – Só, rima, não é padre? – rebateu a mãe. – O nome vai ser esse mesmo. Se o senhor não quiser batizar o menino com esse nome, vamos procurar outro padre…

     Aí, o marido emendou:

     – …e se esse outro padre também não quiser batizá-lo, nosso filho vai morrer pagão!

     Padre Odulpho recuou, concordando:

     – Está bom, está certo. Se vocês querem assim…batizarei o bebê com esse nome mesmo!

     – Ah, que ótimo, padre. O senhor é um santo! – alegrou-se a mãe.

     E o menino também foi registrado civilmente com o mesmíssimo nome, acrescido do sobrenome Gamaliel.

     Genepal se criou sadio e inteligente, orgulhando os pais, que preferiram parar nele. Não quiseram mais filho nenhum. Genepal dava pro gasto: estudava em bons colégios, tinha a sua própria moto Lambreta, se vestia nos “trinques” e namorava as garotas mais bonitas de Santana do Ipanema, sua terra natal.

      Mas um detalhe na vida do Genepal chamava a atenção dos pais, dos parentes e amigos: a sua dieta. Era uma dieta extranhíssima, só na base de carne crua. Mais nada!

      Um dia, sua genitora num papo bastante reservado com o marido, resolveu se abrir com ele:

       – Eu tenho uma cisma com nosso filho, Generino…

       O marido ficou de orelha em pé:

       – Que cisma, mulher? Não venha me dizer que o Genepalzinho é “três-vezes-oito”, só porque ainda não casou…

       – Não, não é isso, Generino. É que eu tenho me esforçado tanto para agradá-lo com uma comidinha melhor… Tenho feito pra ele pratos deliciosos, mas ele  só gosta de comer carne crua!

       – E daí, mulher? Pior seria se ele não quisesse comer nada! Veja como ele é um rapaz sadio, bem nutrido… Por quê essa cisma agora?

       – Essa cisma não é de agora, não, meu velho. É de muitos anos. Sabe o que eu acho?

       – Não! Não sei!

       – Eu acho que o nosso filho é meio canibal…

       – Não diga uma miséria dessas, mulher! Canibal???!!!

       – Sim, canibal! Bem que o padre Odulpho avisou pra gente!

       – Ah, aquele padre estava caducando.

       A discussão parou aí, mas dona Palmira não abriu mão da sua suspeita, que, mais tarde, veio a se transformar na mais absoluta certeza. Seguinte: à noite, ao ligar o televisor para se informar das novidades do dia, dona Palmira quase teve um infarto ao escutar o locutor-âncora do jornal dizer:

       – “A polícia prendeu, em flagrante, esta tarde, um homem acusado de praticar o canibalismo. A prisão se deu num restaurante do centro da cidade, quando o anormal almoçava, tranquilamente, parte de uma perna humana…”

      Dona Palmira respirou fundo e apurou inda mais o ouvido, enquanto o apresentador televisivo completava:

      – “O canibal contemporâneo foi identificado como Genepal Gamaliel, que não se furtou em dar detalhes da prática canibalesca a que se dedica, desde quando era criança, no Sertão de Alagoas”…

       Apesar de abalada emocionalmemte, dona Palmira se manteve firme, fato que não aconteceu com o marido Generino, cujo coração não suportou  a emoção causada pela notícia: esticou as canelas, na hora. 

        Mas, mãe é mãe, e não madrasta. Antes de mandar sepultar o marido, Palmira teve o cuidado e a preocupação de mandar cortar bem cortadinhas, as duas canelas do infeliz, reservando-as ao filho querido. Generino foi enterrado sem as duas canelas.

         Uma semana depois, Genepal era visto naquele mesmo restaurante, saboreando, ainda sanguinolenta, uma das canelas do pai. Dessa vez com acompanhamento no capricho: arroz e batatas fritas.

 

Mas que saudade! 

     Velhas amigas, duas amigas – uma delas viúva – se encontraram, por acaso, na entrada do mercadinho do bairro onde moravam. Tagarelando, as duas resolveram fazer compras juntas. No box de legumes, a viúva pegou uma mandioca, suspirou, e comentou com a amiga:

     – Ai que saudades do Osvaldo!

     E a amiga:

     – Uau! Era tão grande assim?

     E a viúva:

     – Não, sujo!

 

Ah, dúvida cruel!

     Dona Carolina era uma mãe que marcava em cima, a filha única Raquel.

     Linda, aonde ela ia a mãe ia junto, porque queria que a filha casasse virgem.

      Um dia, dona Carolina pegou uma gripe filha da mãe e ficou de cama, com febre, frio e dor-de-cabeça. Aí, a grota aproveitou para ir ao cinema com o namorado. Meses depois, olha Raquelzinha de bucho! Desconsolada, a mãe pressionou a filha, até que ela se abriu:

     – Tá bom, mãe… foi naquele dia em que fui ao cinema com o Alexandre, e a senhora não pôde me acompanhar porque estava doente, lembra?

     – Aaah, quer dizer que foi naquele dia… E foi na ida ou na volta?

     – Sei lá, mãe! Aquele troço ia e voltava, ia e voltava…

 

Ou o burro ou o engenheiro

     Comecinho de manhã, o matuto observava o engenheiro do DER com o teodolito, aquele aparelho que serve para fazer medições de ângulos e distâncias:

     – Dotô, pra que sélve esse treco aí?

     – É que vamos passar uma estrada por aqui. Estou fazendo as medições.

     – E carece esse negóço pra móde fazê a istrada?

     – Sim, é preciso. Por quê? Vocês não usam isto pra fazer estrada não?

     – Nóis num usa, não sinhô. Aqui, quando nóis qué fazê uma istrada, nóis sorta o burro ou o jumento e vai seguindo ele, num sabe? Puronde o bicho passa é o caminho mais mió pra mode fazê a istrada…

      – Ah, que interessante! – observou o engenheiro. – E se vocês não tiverem burro ou jumento?

      – Bem… nesse causo nóis chama os inginhêro…