Ailton Villanova

30 de setembro de 2015

A canela do “de cujus”

     Manhã de verão, sol tinindo, desses de derreter o juízo de qualquer cristão, o ambiente na delegacia de polícia de plantão (Deplan) era abrasivo, irrespirável. Sentado atrás de um birô de pernas bambas “tomara-que-caia”, o delegado Osvanilton Adelino de Oliveira bebia um copo atrás do outro de água gelada, misturada com pedrinhas congeladas. Em dado momento, ele gritou para um dos auxiliares:

     – Ô Pedrão, por favor, me traga a geladeira aqui para a sala e a coloque do meu lado, com a porta aberta…

     – Tá querendo pegar uma pneumonia, doutor? – indagou o auxiliar, tirando uma onda com o chefe.

     – Não, Pedrão. Eu quero é evitar morrer derretido por esse calor da bubônica da peste. Vá, pegue um colega e arraste a geladeira pra cá.

     Enquanto o tira-auxiliar se mandava para cumprir a determinação superior, ingressava no ambiente um velhote baixinho, carregando um embrulho gorduroso e fedorento, festejado por uma enorme quantidade de moscas.

      – O delegado está, moço? – indagou o recém-chegado, a poucos passos do delegado.

      E o Osvanilton, tapando o nariz com a mão:

      – Está falando com ele, meu velho… Mas, se mal lhe pergunto, que troço fedorento o senhor traz nesse embrulho?

      – Ah, seu doutor, é sobre isso que eu vim falar com o senhor…

      – Do que se trata, afinal?

      Aí, o velho abriu o embrulho. No que abriu, um mau cheiro insuportável tomou conta do ambiente. Juntou-se o calor com o fedor e a sala do delegado se transformou numa autêntica fossa de dejetos os mais pútridos…

     – Meio engasgado, o delegado voltou a perguntar ao velhote:

     – Mas o que diabo é isso, meu velho?

     Inocentemente, ele respondeu:

     – É uma canelinha de gente, doutor…

     – Canela de gente?! Onde o senhor arrumou essa sujeira?

     – Bom, essa canela…

     – Vire essa peste pra lá!

     – …pertenceu ao meu primo Laurindo, num sabe? Eu tive que serrá-la com o meu serrote de carpinteiro, a pedido do meu próprio primo…

     – O senhor é cirurgião, ou é marchante?

     – Não senhor, doutor. Sou nada disso. Sou apenas um carpinteiro aposentado…

     – Por que o senhor não o levou ao hospital, onde o serviço teria sido feito dentro dos padrões da medicina?

     – Acontece, doutor, que foi lá no hospital que meu primo Laurindo perdeu a outra perna e os dois braços!

     – Danou-se! Quer dizer que ele tinha somente essa perna que o senhor serrou?!…

     – E olhe que era uma perna boa. Muito boa, por sinal.

     – E por que você e seu primo fizeram uma desgraça dessa?

     – Foi pra salvar a infeliz da perna. Mas não adiantou nada!

     – Eu nunca ouvi um disparate desse! Cortar uma perna para salvá-la!!!

     – Eu explico, doutor. O meu primo, com licença da má palavra, estava todo fodido. Câncer pra todo lado, por dentro e por fora. Só escapava mesmo essa perna. Então, o Laurindo me chamou e disse: “Primo velho, eu tenho pouco tempo de vida e a única coisa que presta na minha pessoa é essa perna. De modo que preciso salvá-la, pra ela não ser contaminada por essa doença infeliz que está me matando. Corte ela, e guarde pra mim, num lugar seguro”. E foi o que eu fiz, doutor. Dois dias depois desse pedido, primo Laurindo assentou os cabelos.

     – E a perna, por que o senhor não sepultou junto com o finado? – quis saber o delegado.

     – Não, doutor. Eu fiz uma promessa à um moribundo; e uma promessa dessa, homem de palavra não pode quebrar.

     – E onde o senhor havia guardado essa canela fedorenta?

     – No guarda-roupa lá de casa. Enrolei ela nesse papel e guardei bem direitinho. Só tirei ela de lá, hoje, porque minha mulher exigiu. O mau cheiro estava insuportável…

     – Aí, o senhor achou de trazer essa maldita pra cá…

      – Mas isso é caso para o IML, senhor…

     – Eu também achei que era. Mas o doutor chefe de lá, me disse que era caso de polícia e me mandou pra cá.

     O delegado Osvanilton alisou o bigode, pensou um pouco e disse:

      – Já sei quem é que vai resolver esse caso!

      – Graças a Deus, doutor. Resolva logo porque não estou aguentando mais andar com essa canela fedorenta pra cima e pra baixo!

     No fim das contas, o caso sobrou pra mim que, na época, era o diretor da Polícia Científica. Mandei enterrar a canela no cemitério público do distrito do Carrapato, na conformidade da legislação pertinente. Sem choro e nem vela.

 

Desculpa no grito

     É público e notório que a mulher do Adalglair é uma tremenda guerreira. Só ele, apaixonadão, não vê, ou não quer ver. Ou, ainda, vê e faz que não vê, o que é mais razoável.

     Eurídice – esse é o nomezinho dela – segundo as línguas mais amenas, continua transando adoidado, com a mão na cabeça pra não perder o juízo.

     Aí, Eurídice derrapou numa de suas jornadas clandestinas e pegou uma gravidez. Nove meses depois, ela ingressava na maternidade, onde pariu um menino. Mal bateu o olho o recém-nascido, o obstetra foi logo advertindo:

     – Olha, o menino é preto, viu?

     O barato é que Eurídice é uma louríssima natural e o marido Adalglair também é galego, desses dos olhos azuis. Médico e equipe se prepararam para ver o pau comer, assim que o corno, digo, o marido entrasse no quarto.

     Não demorou muito, olha o Adalglair entrando no quarto. Entrou, chegou perto da mulher, olhou pra ela, olhou pro menino e quando abriu a boca para dizer alguma coisa, Eurídice apontou o dedão na cara dele e gritou:

     – Tá vendo aí, seu canalha? Depois vem me dizer que não andou me traindo com a empregada!

 

Que disposição!

     Seu Ansaldo voltou do trabalho e encontrou a filha agarradinha com o namorado. Aliás, bem agarradinha. Aí, deu a maior bronca:

     – Êpa! Que pouca vergonha é essa?

     E o rapaz, todo sem jeito:

     – Bem, seu Ansaldo, o senhor sabe que estou apenas mostrando a minha afeição pela sua filha.

     E o Ansaldo, mais puto ainda:

     – É! Estou vendo que sua afeição é grande! Mas bota ela pra dentro da calça!…