Ailton Villanova

26 de setembro de 2015

Memorial Foguinho

      Quando o jornalista José Aldo Ivo me telefonou anunciando que intencionava prestar indelével homenagem ao Foguinho, seu último e finado cão de estimação, a emoção o traiu quase não lhe permitindo expressar o quanto a iniciativa significava para ele. Aldo Ivo já havia me sensibilizado, de outra feita, a ponto de me motivar compor uma crônica não mais e nem menos carregada de emoção que o presente escrito, por ocasião da morte de um outro cão de estimação, o Marajó.

     Tal qual Marajó, o Foguinho, não tinha pedrigree, mas não era um cachorro qualquer. Sem exagero algum, ouso dizer que ele só faltava falar. Esperto, sempre atento à tudo em sua volta, Foguinho, se me permitem a heresia de expressar, era o “anjo protetor” da família que o acolheu – não por acaso – num momento em que seu chefe, o Aldo Ivo, sofria a perda do Marajó.

     Quem conhece José Aldo Ivo sabe o quanto ele é uma pessoa sensível, íntegra e torcedor dedicadíssimo do Botafogo de Futebol e Regatas, o proverbial Fogão, do Rio de Janeiro. E Foguinho, a identidade que ele conferiu ao animal, jamais representou objeto algum de diminuição ou de menor grandeza. Significou, sim, a mais legítima homenagem do botafoguense Aldo Ivo ao seu clube do coração.

     Foguinho, do mesmo modo que seu antecessor Marajó, era de pelagem alvi-negra. Orgulhosamente, por iniciativa do seu dono, ostentava pendurada na coleira, uma medalha com a estrela solitária botafoguense. Passava até a impressão de que muito se orgulhava disso, porque sempre estava de cabeça erguida.

      Era Aldo Ivo ainda ao telefone:

      – Aílton, você que acompanhou toda a minha aflição no transcurso da tragédia que culminou com a morte do Marajó, imagine agora o momento de comoção pelo qual estou passando…

      Respondí-lhe que tinha, sim, uma ideia da sua tristeza, do seu sentimento face a perda do seu animal de estimação, porque também já passei por isso, não fez muito tempo. Na hora, me solidarizei com o amigo  e colega de profissão.

       – Estou construindo um memorial para o Foguinho, onde não somente à ele prestarei a minha homenagem. Nele, também, expressarei a minha saudade e respeito ao Marajó! – completou, emocionado, o velho companheiro.

       Do memorial constarão fotografias, medalhas, recortes de jornais e um quadro do Botafogo. Mas a última revelação de Aldo Ivo me deixou perplexo, boquiaberto. No de implantação oficial do “Memorial Foguinho”, o time do Botafogo se fará presente. É promessa da direção do alvi-negro carioca. A inauguração deverá ocorrer quando o time da “estrela solitária” vier à Maceió para cumprir compromisso futebolístico, ainda este ano, com uma agremiação esportiva local.

       A colônia botafoguense em Alagoas já foi avisada e garantiu presença, através de expressiva representação, garantiu Aldo Ivo.

 

Passageiro Pentelho  

     O taxista Manuel Pacheco, o tranquilíssimo Juca, nunca foi de desrespeitar ninguém. Para tirá-lo do sério é preciso muito. Mas muito mesmo.

     Belo dia, ele se encontrava aguardando passageiro, bem à vontade, dentro do seu veículo, cujo ponto ficava na Praça Deodoro. Aí, encostou um sujeito barbudo, com um guarda-chuva socado no sovaco, que perguntou:

     – Tá livre, meu?

     E Juca Pacheco, com aquela calma que Deus lhe deu:

     – Estou, meu patrão. Pode subir.

     O cara entrou no taxi, bateu a porta e determinou:

     – Se manda pro Benedito Bentes!

     Juca passou a primeira marcha, engatou a segunda e quando estava prestes a passar a terceira, já na altura da Praça do Montepio, o passageiro sacou nova pergunta:

     – O senhor se irrita com facilidade?

     Sorridente, Juca respondeu:

     – De maneira algum. Sempre fui bem humorado!

     Não demorou nem dois minutos o cara voltou a indagar:

     – O senhor se irrita com facilidade?

     – Não. É claro que não! – replicou o taxista, mandando ver aquele sorriso de propaganda de creme dental.

     Mais três minutos, nova pergunta:

     – O senhor se irrita com facilidade?

     Juca Pacheco já não sorriu. Apenas disse:

     – Não! Não, senhor!

     O cara era chato mesmo. Cinco minutos depois:

     – O senhor se irrita com facilidade?

     O motorista já estava ficando puto:

     – Não!

     O sujeito atacou pela sexta vez:

     – O senhor se irrita com facilidade?

     Dessa vez Juca não conseguiu se segurar:

     – Me irrito! Me irrito e muito! Por quê? Algum problema?

     E o sacana:

     – O senhor é mesmo estranho! Falou aí o tempo todo que não se irritava com facilidade. Quando acaba…

     O chato não terminou de falar. Foi atirado do taxi no meio do caminho.