Ailton Villanova

25 de setembro de 2015

Aparências que (às vezes) enganam

     Mulherengo desbragado, Polidônio Pereira, o Pepê, tinha no lar dona Clotilde, uma mulher dedicada, pacata, amorosa, honrada e bonita. Mas, irresponsável ao extremo, só chegava em casa fora de hora, embriagado e cheirando a perfume barato, contraído das negas com a quais se envolvia.  

     Pepê foi ficando ainda mais irreconhecível na medida em que o tempo foi passando. Piorou, depois que se aposentou do serviço público. Aí, passou a dormir fora. Não todos os dias, mas dormia. Sua esposa, educadíssima, teve de chamá-lo às falas:

      – Me responda uma coisa, Pepê: o que tanto você faz na rua se não está mais trabalhando?

      Cinicamente, ele respondeu:

       – Aí é onde você se engana, minha querida. Não estou trabalhando “pró-forma”, tá me compreendendo?

       – Não, não estou compreendendo. O que significa essa história de “pró-forma”?

       – Não adianta eu lhe explicar, porque você é uma babaca e não entende de termos jurídicos. Você é advogada, por acaso? Mas… pensando bem, assim mesmo vou lhe dizer o que é “pró-forma”. Significa o seguinte: eu estou trabalhando e não estou. Quer dizer, estou aposentado e não estou. Nesse caso, a minha responsabilidade aumentou, porque eu passei a fiscalizar os colegas que dizem que trabalham, mas não trabalham, principalmente à noite, compreendeu?

     – Não. Mais uma vez não compreendi. Então, você fiscaliza os companheiros à noite… é isso?

     – Evidentemente, sua imbecil. Pelo dia, faço o meu trabalho comum e, à noite, trabalho nesse negócio chato de fiscalização. Você não sabe o quanto é difícil. Tomara que chegue o dia em que terei de me aposentar de verdade! Acho que não vai demorar muito!

      Depois desse diálogo, dona Clotilde não voltou a tocar no assunto. Até porque nunca mais havia posto os olhos na figura do marido. Funcionária pública, também, quando ela saía para o trabalho o safado do Pepê estava chegando em casa, biritadíssimo. Até que, um dia, sem querer ela se encontrou, num determinado shopping da cidade, com o doutor Adrovaldo Pinto, chefe do marido, que observou:

     – Olá, Clotilde, como vai? Acredito que, agora, você está vivendo no paraíso, não é? Estou sabendo que você e o Pepê ultimamente somente são vistos em altos restaurantes, almoçando ou jantando…

     Dona Clotilde estranhou o papo do chefe Adrovaldo:

     – É mentira! Nós não temos tido tempo para mais na vida. Meu marido me reclamou que você botou ele para trabalhar de manhã, de tarde e de noite… na fiscalização. Nunca mais o vi direito!

      E o Adrovaldo:

      – Que história é essa? Se seu marido está aposentado, por que eu o faria trabalhar desse jeito? Se antes ele já não cumpria direito as suas obrigações… Não, essa versão é falsa. O que estou sabendo é que vocês estão esnobando demais! O gerente do Restaurante Regente, onde nós temos conta mediante convênio, me contou que “o doutor Pepé tem jantado lá, todos os dias com a esposa”, no caso você, e ainda mantém permanentemente uma reserva de apartamento no hotel da empresa”…

      – No Regente, hein? Pois eu vou ter uma conversa com esse gerente!

      – Fique à vontade, minha amiga. O nome do gerente é Aragão. Precisando de uma ajuda, estarei às suas ordens… – estimulou o chefe Adrovaldo Pinto.

      Dona Clotilde aguardou o final de semana, se produziu toda e, à noite, lá pelas 22 horas, pegou o carro e disparou rumo ao restaurante. Estacionou o veículo numa vaga privativa de clientes cativos, entrou pisando firme e determinada, dirigindo-se à recepção.

       – Por gentileza, gostaria de falar com senhor Aragão, o gerente.

       – Um instantinho só, madame. Qual é o seu nome?

       – É uma surpresa que eu quero fazer. Diga apenas que uma pessoa quer falar com ele um assunto importante. É um caso de família…

     – Ah, pois não. Entendo.

     Num instantinho o gerente estava diante de dona Clotilde:

     – Pois não, madame…eu sou o gerente Oséas Aragão…

     E ela:

     – E eu sou a mulher do cretino do Pepê!

     O gerente empalideceu:

     – Não pode ser, madame. O doutor Pepê se encontra, no momento, ocupando a mesa número 39, juntamente com sua esposa, a doutora Margarida…

     – Pois ela é uma impostora e ele um canalha! Me leve até a mesa dele!

     – Acho que não poderei, madame. Vai contra as normas da casa e um escândalo a estas alturas…

     – Pois o escândalo eu vou começar a fazer agora, se o senhor não me levar até a presença do calhorda. Aliás, já prevendo o que poderia acontecer, avisei à imprensa, ao rádio e à televisão!

     Ao escutar isso, o gerente passou mal e caiu desmaiado. Dona Clotilde passou por cima dele e ingressou no salão dos comensais. Imediatamente avistou o marido se desmanchado todo pra cima de uma morena espetacular.

      – Canalha! Cretino! Sem-vergonha! – discursou em altos brados dona Clotilde, chamando a atenção de todos.

      Toda a finíssima clientela parou de comer e de beber para assistir ao espetáculo e a mulher, de dedo em riste, apontando para o Pepê, àquelas alturas mais branco do que cera de carnaúba:

      – É essa rapariga a sua “esposa”, seu cabra safado? Está querendo dar uma de bacana fazendo essa aproveitadora se passar por minha pessoa? Responda!

      Aí, os clientes, todos eles, começaram a aplaudir e a estimular dona Clotilde:

      – Responda, rapaz! 

      Um deles, foi fundo:

     – Que homem é você, rapaz? Responda!

     Clotilde se sentiu dona da situação e transformou o finório restaurante num autêntico picadeiro de circo: subiu numa cadeira e deu sequência à sua oratória:

     – Estão vendo esse homem, minhas senhoras e meus senhores? Esse homem não passa de um salafrário! Eu sou a sofredora esposa dele, que vive subjugada, humilhada, dentro de casa, enquanto ele, com a cumplicidade do gerente deste restaurante, o tal de Oséas Aragão, está transformando este ambiente no mais absoluto recinto de corrupção e prostituição…

     Ah, pra quê! A revolta espalhou-se entre os clientes, a ponto de um deles, o mais exaltado, sugerir:

     – Vamos tocar fogo nesta casa!

     E outro:

     – E vamos dar um pau no gerente!

     Um terceiro quis saber:

     – E o que a gente faz com o marido desta infeliz senhora ?

     Ela própria respondeu, ainda em tom discursivo:

     – Podem deixar ele comigo, meus senhores!

     – E a falsa esposa, o que podemos fazer com ela?

     – Deixem-na ir. Afinal, ela é tão vítima quanto eu, desse safado!

     – Muito bem!

     – Apoiado!

     – Viva dona Clotilde, legítima defensora da sociedade!

     – Apoiado!

      Aproveitando a confusão, Pepê fugiu do local, sumindo no negrume da noite e abandonando à própria sorte, a mulher que exibia como esposa.

     Ao final, ânimos serenados, dona Clotildes Pereira deixou o restaurante nos braços do povo e com o nome lançado à candidatura de deputada federal.