Ailton Villanova

18 de setembro de 2015

Um Casamento Impossível

     O Clarindo Alarcão nasceu enxergando tudo. Até São Jorge passeando na Lua, montado no seu Alazão. Acontece que, aos 10 anos de idade, contraiu uma doença viral infecciosa perigosíssima – o tal de sarampo -, que o atingiu mais profundamente numa de suas funções mais vitais, a visão. Aí, começou a enfrentar sérias dificuldades para enxergar. Aos 15 anos, estava praticamente cego. Mas, vaidoso desde novinho, se negou terminantemente a usar óculos com lentes corretivas, em que pese os reiterados apelos dos pais. À época, não tínhamos ainda experimentado os extraordinários avanços da oftalmologia que, para comodidade dos míopes e outros tipos de deficientes visuais, substituíram as prosaicas lentes “fundo de garrafa” por peças resultantes de uma substância refringente produzidas em laboratório, muito parecidas com vidro.

     Essas lentes, justo as que hoje em dia usamos, muito mais leves e com superfícies geralmente esféricas, ou discretamente encurvadas, também foram descartadas pelo Alarcão. Essa sua ortodoxa posição ele definiu numa última conversa a respeito, com sua genitora, dona Efigênia:

      – Não adianta, mãe! Esse negócio de usar óculos não é comigo. Não suporto andar com dois pedaços de vidro assentados na venta e seguros nas orelhas. Óculos é a maior besteira do mundo!

      E a mãe:

      – Não diga uma asneira dessa, menino. Óculos é para o seu bem. Como é que você vai andar por aí, trombando nas pessoas e nas coisas, sem enxergar direito? Sem óculos, você ainda corre o risco de cair num buraco, ou ser atropelado por um carro, quando for atravessar a rua!…

       Quando completou 25 anos de idade, Clarindo Alarcão perdeu a mãe e o pai, seu Oriovaldo, num acidente de carro, no bairro da Levada. O carro que Oriovaldo dirigia (um fusca) foi colhido por um trem da Rede Ferroviária, quando tentava atravessar a linha férrea, na altura do mercado público. Dona Efigênia estava no automóvel, ao lado do marido. Filho único, Clarindo ficou sozinho e completamente perdido na vida.

     Anos se passaram, ele já havia completado 30, quando trombou, na rua, com Olímpia e logo se apaixonou por ela, por causa de sua voz melíflua. Endoidou de vez quando recebeu dela o primeiro beijo. Sua imediata reação foi a seguinte:

     – Quer se casar comigo?

     Tomada de surpresa, a princípio Olímpia ficou muda. Em seguida, cheia de contentamento, disparou, pulando na ponta dos pés, que nem criança quando recebe o seu primeiro presente:

     – Quero! Quero! Quero! Quando é que a gente vai casar, meu amor?

     E ele, emocionado:

     – Quando você quiser…

     – Amanhã, pode ser?

     – Bom, isso vai depender do padre…

     Depois desse diálogo, o casal desfilava de braço dado, chamando a atenção de todo mundo, em direção a igreja. Chegando lá, a primeira pessoa que encontraram foi o padre Eliodoro, que os recepcionou com a amabilidade de sempre:

     – Boa tarde, meus amigos…

     – Boa tarde. – respondeu o apaixonado, sem enxergar bulhufas. – Nós queremos falar com o padre.

     – Ah, pois não. Eu sou o padre Eliodoro… O que desejam?  

     Quem respondeu foi a mulher, se antecipando ao “noivo”:

     – Casar! A gente quer casar, padre!

     O reverendo engasgou-se, recuperou-se, e encarou a pretendente:

     – Vocês???!!! Por acaso é alguma piada? A senhora quer mesmo casar com o este rapaz? Eu pensei que, no mínimo, fosse avó dele!!!

     Ao escutar a observação do sacerdote, Clarindo ficou de orelhas em pé e tomou a palavra:

     – Padre, esta jovem…

     – Jovem???!!! De que jovem você está falando, meu filho? – indagou o sacerdote.

     – Desta que está ao meu lado, não está vendo?

     E o padre:

     – Você é imbecil, louco, cego, ou está querendo tirar uma onda com a minha cara, meu filho?

     – Sou cego, padre. Mas qual é o problema?

     – O problema eu já falei e repito: esta mulher tem idade suficiente para ser sua avó. Ou melhor, sua bisavó!

     A velhusca foi ousada:

     – Por acaso, padre, o senhor nunca ouviu falar que o amor é cego?

     – Mas não é louco! Qual é a sua idade?

     – Interessa, por acaso?

     Clarindo interferiu:

     – Mas a mim interessa. Diga a sua idade!

     – Bem… er… eu tenho 95 anos…

     – Noventa e cinco anos?! – o noivo espantou-se.

     – E o que é que tem isso? O que vale é o amor, seu imbecil!

     É claro que esse casamento não aconteceu, mas o episódio da igreja serviu para produzir o seguinte milagre: seis meses depois, elegantemente trajado, Clarindo Alarcão comparecia ao altar da mesma igreja, acompanhado da bela jovem Maria Teresa, para dizer “sim” perante o reverendo Eliodoro. Orgulhosamente, exibia apoiado no lombo da venta, um belo óculos de grau.

 

Carta de Amor

     Rapaz bom, inteligente, mas, ingênuo, o Adarílio era gamadão pela Marly, morenaça rebolativa e sacana pra mais da conta. O namoro dos dois, por conta da finória educação do Adarílio, era do tipo “feijão-com-arroz”, quer dizer, não ia além da pegada de mão. Beijo, nem pensar. É claro que em sendo uma garota ardente, Marly logo se cansou do coitado e o mandou à putaquipariu:

     – Vamos parar por aqui, meu nego. Você é fraco pra mim. Pelo seu porte elegante, eu o imaginava um cara arrojado, com uma pegada firme. Mas, vejo que não passa de um idiota. Suma da minha vista! Não quero vê-lo nem banhado a ouro!

     Sofrendo do chamado “mal de amor”, Adarílio passou a se dedicar ao jogo, a todas as modalidades de jogo de jogo, inclusive os de azar. Nas apostas, ele também mandava uma brasa quentíssima.

      Dias, meses se passaram, a saudade da Marly arrochando, eis que bela manhã, ele recebeu a seguinte carta de amor:

      “Adarilinho querido:

      Não consigo dormir, não vivo mais desde que rompemos nosso namoro. Me perdoa, meu amor, esquece tudo isso, tá legal? Tua ausência me rói o coração. Fui uma tola, ninguém jamais poderá te substituir no meu coração. Eu te amo.

       Desesperadamente,

       Marly”.

       P.S: Parabéns pelo prêmio da Mega Sena.”

 

Quem, hein?

     Carolzinha acordou cedo para o café da manhã e logo foi abordada pela mãe, dona Raquel:

      – Quem era aquele rapaz que estava te agarrando ontem na rua e te beijando na boca?

      E a garota, ainda sonolenta:

      – A que horas?