Ailton Villanova

16 de setembro de 2015

Um Passageiro Chato Demais!

     O Ônibus da linha do Vergel trafegava praticamente vazio, com destino ao centro da cidade. O relógio indicava que faltavam quinze minutos para às 4 horas da tarde. No seu cantinho, o cobrador Josias cochilava, sem a menor preocupação com uma possível invasão de ladrões que frequentemente costumam assaltar os coletivos citadinos. De sua parte, o motorista Bráulio Jacutinga (popularmente conhecido como Jacu), palito de dentes no canto da boca, conseguia acompanhar, no assobio, a musiquinha que o radinho de pilha (pendurado no retrovisor), transmitia.

     Cumprindo itinerário pré-estabelecido, o coletivo se dirigia ao bairro de Ponta da Terra, via centro da cidade, tendo partido do ponto inicial localizado no terminal do Dique-Estrada. Quando circulava pela Praça Santa Teresa, na Ponta Grossa, um sujeito da cara de gafanhoto estendeu o braço, sinalizando para o veículo parar fora do ponto de passageiros. Disciplinado, o motorista Jacutinga só o parou no local exato, obrigando o sujeito empreender uma corrida até alcança-lo.

      Com a língua pendurada, quase alcançando a caixa dos peitos, o cara subiu no ônibus com algum esforço. Mesmo assim, cheio de bronca:

      – Motorista fidapeste, por acaso você tá cego? Se não tá, trate de comprar um óculos!…

      E o motorista, educadamente:

      – O senhor está reclamando do quê?

      O passageiro da cara de gafanhoto respondeu:

      – Tô reclamando porque você me fez correr sem necessidade. Por acaso não me viu fazendo sinais pra parar?

      – Vi, sim. Mas só paro no ponto. O senhor estava distante uns 50 metros do local da parada…

      – O motorista para onde o passageiro quer. Vou dar parte de você na empresa. Diga logo como é o seu nome! Cadê o seu crachá?

       O motorista já estava ficando puto com o indivíduo:

       – Não tenho satisfações a lhe dar! Procure um lugar pra sentar e fique com essa boca fechada!

       – Como é a história? Sabe com quem está falando?

       – Nem sei e nem me interessa. Só quero que o senhor procure um lugar pra viajar sentado…

       – Pois fique sabendo que eu sou uma autoridade. Eu me chamo Isaltino Camarão, ex-soldado da Polícia Militar…

       – Soldado, é? Cadê a farda? E quem foi que disse que soldado é autoridade? Autoridade é sargento, é capitão, é major… coronel nem se fala! Se soldado não é nada, quanto mais um “ex”. Por acaso foi expulso da PM?

       – Não, não fui expulso. Fui dispensado por perseguição e despeito dos coronéis, só porque andei fumando uns cigarrinhos de maconha e umas pedrinhas de craque…

       – Já ví que é mau-elemento. Com tipo de gente como você não quero papo.

       – Pois num queira não, porque sou boca-quente, tá ouvindo? Agora, meta o pé no acelerador e vamos embora!

       Nesse momento, os poucos passageiros do coletivo resolveram se manifestar:

       – Senta, rapaz!

       – Vamos! Senta logo, fiadaputa!

       – Vambooora, motorista!

       Considerando que já havia perdido tempo demais, o motorista Bráulio Jacutinga, sapecou uma primeira marcha, enfiou o pé no acelerador, emendou uma segunda e depois uma terceira… e o ônibus disparou pista a fora – zzzuuuuuummmm.

        A passageirada aplaudiu e o tal Isaltino Camarão, limpando os fundilhos, com a mão, depois de ter caído sentado no assoalho do ônibus, em consequência da arrancada do coletivo, voltou a prometer:

        – Motorista sacana! Eu vou lhe matar, assim que o ônibus parar!

        E Jacu, o motorista, zombando do sujeito:

        – Vai me matar, é? Só se for com o rabo! Quá, quá, quááá…

        – Tá duvidando? Pois vai ser agora! Vou mata-lo só de tapas!

        Dito isto, o Camarão disparou feito louco, pelo corredor do ônibus, para pegar o motorista:

        – Pare essa porcaria de ônibus, pra eu poder lhe matar! Pare, covarde!

        O valentão não mandou? Então, Bráulio Jacutinga resolveu atendê-lo. Antes, porém, chamou a atenção dos passageiros:

         – Se seguuure, minha geeennnte!

         E enfincou o pé no freio. Os pneus cantaram no asfalto – rrruuuurrrrr…

         O coletivo parou e ficou praticamente grudado na pista. Enquanto isso, dentro do veículo, o cara de gafanhoto praticamente voava em  seguida. Finalmente, caiu de cabeça, abrindo-a praticamente em duas bandas e rachando o piso recém asfaltado, causando considerável prejuízo à edilidade.

 

Esquentando a comida

     Louco de amor pela Estrevanilda, o Belarmildo insistia em casar com a sobredita. Ela resistia:

     – Casar como, Belinho? Você deve estar malucando! Nós estamos desempregados, não temos dinheiro algum, nossas famílias não estão nem aí pra gente! Vamos viver de quê?

     – De amor! Vamos viver de amor! O nosso amor é mais forte do que tudo e do que todos!

     E tanto o Berlarmildo insistiu que eles acabaram casando. No primeiro dia de casado, ele saiu para procurar emprego. Ao voltar pra casa, encontrou a mulher completamente nua, subindo as escadas e escorregando pelo corrimão, subindo as escadas e escorregando pelo corrimão…

     – O que é isso, meu amor?! Ficou doida?

     – Não, Belinho. Só estou esquentando a comida!  

 

Problema muito sério

     Muito bem vestida e ostentando uma finíssima aliança de ouro e brilhantes no dedo anelar esquerdo, a bela mulher procurou o conselheiro matrimonial Barnabé de Freitas, cheia de preocupação.

     – Não sei o que fazer da minha vida, doutor. Eu amo demais o Adalberto e sei que ele também me ama. Gostamos exatamente das mesmas coisas, combinamos em tudo! Quando não estamos juntos, nos sentimos extremamente infelizes.

     O conselheiro não entendeu nada:

     – Bem, parece que vocês foram feitos um para o outro, certo? Qual é finalmente o problema?

     – O problema? O problema é que não sei como dizer ao meu marido!… 

 

Grandes ideias

     Num barzinho da periferia, dois sujeitos biritadíssimos, papeavam numa boa:

     – Sabe, Antiógenes, andei pensando e cheguei a conclusão que uma boa soneca de vez em quando evita a velhice.

     – Com certeza, Coriolano – concordou o outro. – Principalmente se você tirar a soneca enquanto estiver dirigindo…

     – Iiiihhh, meu! Nem tinha pensado nesse detalhe!

     – Experimente e depois me diga o resultado.