Ailton Villanova

15 de setembro de 2015

O Fusca não passou de um sonho

     Garoto pobre, nascido e criado no bairro do Bom Parto, o Geremias Pereira (Geré, para os amigos) acalentou durante anos, um anseio: possuir um Fusca. Com vistas a materialização desse sonho, o que ele fez, então? Do seu primeiro salário, como auxiliar de açougueiro no mercado público da Levada, ele retirou metade e abriu uma poupança na Caixa Econômica. Essa providência deixou sua genitora, dona Otília, feliz pra mais da conta. Além de feliz, orgulhosa. A vizinhança inteirinha da rua Francisco de Menezes ficou sabendo da postura do Geré, através da própria mãe:

     – Meu filho agora é gente! Abriu uma conta na “Cacha Canônica”! Esse menino vai looonge! Ninguém vai conseguir segurá-lo!

     Caso dependesse do Fusca sonhado para alcançar a meta preconizada por de dona Otília, o rebento adorado jamais a atingiria.

     Não sabe aquele ditado que diz “de grão em grão a galinha enche o papo”? Pois bem, de cruzeirinho em cruzeirinho, de centavinho em centavinho, o determinado Geré conseguir encher o seu cofre doméstico de grana suficiente para, pelo menos, dar a entrada na aquisição do seu carrinho. O resto, ele pagaria em suaves prestações, a perder de vista.

      Pegado ao local onde ele trabalhava, estava no auge a famigerada Feira do Rato, que era frequentada pelo fino da malandragem da região Sul – Levada, Ponta Grossa, Ouricuri, Vergel do Lago, Coréia. Na remanescente de hoje em dia, ainda existem vigaristas circulando por lá, mas nem tanto.

     Bom, na expectativa de vir a possuir o seu próprio veículo, Geré espalhou aos quatro cantos da Feira do Rato que gratificaria a contento, aquele que o encaminhasse a alguém que estivesse disposto a vender um Fusca. Foi aí que entrou na jogada o malandrão Antiógenes Bicalho, vulgo “Tió Bituca”, cujo papo era daqueles tipo provocador de queda de avião.

     – O amigo está mesmo a fim de montar num rodante do pé de borracha? – especulou o malandro.

     – Como? “Rodante do pé de borracha”? Não estou entendendo! O que eu estou querendo é comprar um Fusca! – respondeu Geré.

     – E num é isso mesmo o que estou lhe perguntando? O amigo tá purfora do meu barato, mas num tem importância.

     – Ah, agora entendi! Você um fusquinha pra vender, por acaso?

     E o vigarista:

     – Bom, eu propriamente, não! Mas um primo meu, o Nivaldo “Boca de Chulé” tem um fusquinha joiado. Bem dizer zerado.

     – Deve estar custando caro. Um carro quase novo… não é?

     – Não, não é novo. É semi-novo e o seu preço cabe direitinho no bolso do amigo.

     – Eu só tenho o dinheiro da entrada. O resto, pretendo pagar em prestações.

     – Quanto a esse particular, não se preocupe. Como eu sou corretor, facilito tudinho, na base da promissória, sem ser necessária a interferência de banco, que cobra um juro enorme. Quanto é que você pra dar de entrada?

     – Uns 800 cruzeiros…

     – Fechado! Nem precisa pagar o resto porque esse é o exato valor da pecinha.

     – Mas tão barato assim?

     – O preço é razoável para um carro usado.

     – Tá bom, tá certo. Onde está o carro? – quis saber o comprador.

     – Onde está o dinheiro? – rebateu o marginal.

     Mais cinco minutos de conversa e os dois foram ver o tal carro. Só que o malandro não tinha carro nenhum para vender. Ou melhor, tinha: mas, apenas, uma carcaça de fusca do ano de 1960, toda enferrujada, que se achava largada nos fundos de um antigo ferro-velho, falido, no bairro do Vergel do Lago.

      O fusca que Tió Bituca apresentou ao comprador lhe fora emprestado, por alguns minutos, pelo traficante Jota “Fala-Fina”, que, inclusive, era bicha. Geré ficou encantado com o veículo – todo bonitinho, cor alaranjada, pneus novos, assentos estofados, todo nos trinques.

     – Posso leva-lo agora? – indagou, metendo a mão no bolso.

     Apesar de ansioso em pegar a grana do comprador, o malandro Tió Bituca se conteve:

     – Agora, não! Você somente irá levá-lo assim que o meu primo regularizar a documentação no Detran, certo?

     E o Geré, mais ansioso que o malandro:

     – Olha, diz pra ele resolver esse negócio com urgência, viu? Se quiser, você já pode levar o dinheiro…

     – Bom… se o amigo confia… – respondeu o pilantra, com os olhos brilhando.

     – Claro que confio. Numa pessoa decente como o senhor, eu confio.

     – Então, passe pra cá a grana e vou ver o que posso fazer para liberar o seu carro, imediatamente… Ligue pra mim à noite, tá bom assim?

     – Tá ótimo!

     Assim que deixou o felicíssimo e expectante Geremias em casa, o vigarista se lançou à empreitada de conseguir – por doação, em alguns ferros-velhos, e noutros mediante ameaça – um velho motor todo rachado, pneus e bancos remendados, faróis, além de outras peças indispensáveis ao funcionamento, embora provisório, da lata velha apelidada de automóvel.

     Auxiliado por alguns comparsas, Tió Bituca instalou, como pôde, na carroceria velhusca do fusquinha, todo o material arrecadado. Isto posto, com a ajuda de um pincel grosso, passou uma mão de tinta a óleo na carcaça. A tarefa seguinte, a mais fácil de todas, consistiu em abastecer o veículo. O que fizeram, todavia, o Bituca e seus cúmplices? Afanaram combustíveis – gasolina, querosene e álcool – onde encontraram mais à mão. Juntaram tudo num recipiente e despejaram no tanque do carro. Preocupado, um dos comparsas observou:

     – Será que essa misturada toda não irá provocar uma explosão no carrinho?

      – Não fala besteira, otário! – rebateu o Bituca. – Isso aí vai dar mais potência no motor.

      Boquinha da noite, o marginal recebeu o telefonema combinado. Do outro lado da linha, Gerá indagou sofregamente:

      – E então, meu amigo, já posso dispor do meu Fusca?

      – Pode! Mas só lá pra meia-noite, depois que o Detran fechar. Você não sabe a luta que tivemos para deixar o seu automóvel disponível. – respondeu o malandro.

      – E como a gente faz?

      –  Bem, como estou com uma viagem de urgência, para o Recife, marcada para esta noite, vou deixar o carro no seguinte endereço (e deu o endereço de uma boca quente da Brejal), com a chave na ignição. A porta vai ficar destravada. É só abri-la, ligar o motor de partida e se mandar.  

      – Olhe! Brigadão, viu meu amigo? – agradeceu Geré emocionadíssimo.

      Encontrar o fusca não foi difícil. Difícil foi sair inteiro do local onde ele se achava estacionado.

      Geré entrou no Fusca, enxugou uma lágrima de comoção que escorria pelo canto do olho, e girou a chave na ignição. No que girou, o motor do carro explodiu. Em seguida, pegou fogo. Os bravos bombeiros não tiveram como chegar a tempo.