Ailton Villanova

13 de setembro de 2015

O Vacinador Incompreendido

     Boa índole, prestativo ao extremo, o Liberalino Nascimento, popularmente conhecido como Libé, além dos predicados referidos, é um sujeito possuidor de excepcional espírito de solidariedade. Seja qual fora iniciativa que vise beneficiar o semelhante, ele é sempre o primeiro da fila. Doador emérito de sangue, Libé já tem comprometidos todos os órgãos ou partes importantes de seu corpo (olhos, rins, pulmões, coração, cérebro, etc.) com entidades que cuidam de transplantes os mais diversos. No dia em que ele morrer, só irá para a sepultura apenas o seu esqueleto. E, olhe lá, se este também não for doado à alguma faculdade de medicina, para estudos. 

     Dona Estricásia, sua genitora, é orgulhosa demais dele. Bate no peito e  exagera:

     – No dia em que o meu Libé morrer, tenho certeza que ele irá direto para o céu. Isto é, se Deus não resolver transplantar sua alma para livrar algum necessitado do inferno.

     Toda campanha filantrópica, olha o Libé enfronhado nela!

     Recentemente, o governo convocou voluntários para trabalhar na campanha de vacinação contra um monte de gripes, principalmente a tal de “chicocunha”, a mais braba de todas.  

      Liberalino foi o primeiro voluntário a chegar ao posto de vacinação mais perto de casa. Apresentou-se à encarregada do serviço e disse:

      – Pronto, doutora! Estou aqui para ajudar no que for preciso. O que é que eu devo fazer?

      Diante de tanta boa vontade, a encarregada do posto entusiasmou-se:

      – O senhor irá aplicar vacina nos homens, tá bom assim?!

      E ele, contentíssimo com tarefa de tanta responsabilidade, apesar de nunca ter aplicado uma única injeção na vida – nem num jumento, quanto mais numa pessoa:

     – Perfeitamente, doutora. Passe pra cá as vacinas e pode deixar resto comigo! –

     Entendendo que o voluntário já era macaco velho no barato, a enfermeira-chefe entregou à ele as vacinas e demais petrechos vacinatórios e passou a cuidar de outras atribuições inerentes a campanha.

     Vestido num jaleco de doutor, Liberalino já estava pensando que era o próprio. Dirigiu-se, então, ao primeiro candidato à imunização, um negrão cheio de músculos, de mais de 2 metros de tamanho, que apesar de toda essa pinta de atleta, ele tremia mais que vara verde.

      – Tá com medo, rapaz? – indagou Liberalino, todo cheio de autoridade.

      E o negrão:

      – Mais ou menos, né dotô? Sô acustumado não, cum esse negóço. Vai duê?

      – Vai doer nada, seu frouxo. Dê cá esse braço!

      O cara exibiu um braço que parecia feito de cimento-armado e Libé chamou a agulha pra frente – zipt! A agulha entortou e o negrão gritou:

       – Ai! Divagá, dotô! Duêu, viu?

       – Doeu porque você mexeu o braço. Vou aplicar outra vacina. Mas, por favor, fique paradinho aí!

       Zipt!

      – Uai! Tá querendo me matá, dotô? Oiaquí! Se o sinhô num apricá essa vacina divagá, eu agaranto qui quem vai sofrê num sô eu!

      – Que nego frouxo é você, rapaz? Cale a boca e me dê esse outro braço!

      O cara deu o outro braço.

      Zipt!

      – Ai!

      Zipt

      – Ai!

     Era uma furada, uma entortada da agulha no braço e um grito de dor do negrão. E esse ritual prosseguiu por dezenas de vezes, até que o negrão perdeu a paciência: tomou a seringa (com a agulha, naturalmente) do vacinador, segurou-o pelo gogó e deu início à revanche. Cada agulhada aplicada pelo negrão correspondia a um grito de desespero e de socorro do Libé.

      Acudido por uma equipe de bravos bombeiros militares, Liberalino voltou pra casa mais esburacado do que o asfalto da periferia de Maceió e garantindo haver sido incompreendido na sua tentativa de ser útil ao semelhante.           

 

Os culpados

     O sujeito visivelmente embriagado, entrou o Bar do Duda, no centro da cidade, e pediu ao gerente Javan, que atendia ao balcão:

     – Meu jovem, me faça a finesa de me despachar um grogue de cachaça…

     Ao seu lado, uma senhora distinta, olhou bem pra ele e comentou, em tom de censura:

     – O senhor sabia que o Brasil é o segundo país do mundo em consumo de álcool?

     O bêbado respondeu:

     – A culpa é desses crentes…

     – Como culpa dos crentes? Os coitados nem sequer bebem álcool!

     – Pois é. Se eles bebessem só um pouquinho, a gente tava era em primeiro lugar!

 

Gato escondido…

     Finalmente o Correínha se mancou que estava sendo corneado. De modo que pegou uma sexta-feira meio desocupada e voltou mais cedo pra casa.

     Notando os passos do marido pela escada, a mulher tratou imediatamente de esconder o Ricardão no guarda-roupa. Correínha entrou no quarto e foi logo perguntando à mulher:

      – Margarida, tinha mais alguém aqui com você?

      – É claro que não, meu amor!

      – E essa camisa, aí o encosto da cadeira?

      – É sua! – respondeu a mulher.

      – E esse par de sapatos?

      – Mas é claro que é seu!

      Correínha estava mesmo afim de colocar as coisas em pratos limpos. Olhou em redor e viu na porta do guarda-roupa um amontoado de pentelhos, bem na altura da maçaneta.

       – E aquilo ali no guarda-roupa, o que é?

       – É o gato!

       – Ah, é mesmo o gato! – concordou Correínha.

       Ele então se aproximou do guarda-roupa, puxou um fio do cabelo e o gato:

       – Miau…

       Ele puxou dois fios e o gato:

       – Miiiaaauuu!

       Aí, ele resolveu puxar vários fios. E o gato:

       – Já falei miiiiaaaauuu, porra!

 

Um pequeno acidente

      Descuidado ao extremo, o cara deu entrada no Hospital de Pronto Socorro, porque tinha acabado de ser atropelado por um trem, nas proximidades do Mercado da Produção.

      Minutos depois, a esposa, agitadíssima, chegou ao balcão de informações:

     – Por favor, em que quarto está o paciente Xenófanes Batista.

     E a atendente:

     – Quartos 30, 31 e 32!