Ailton Villanova

12 de setembro de 2015

Morte Inglória do Feioso

     Feio até dizer basta, o Nicolino Argeleu ou não tinha consciência do desmantelo que era a sua cara, ou era extravagantemente esquisito a ponto de dissimular a desagradável aparência da qual era portador, utilizando disfarces os mais bizarros. Exemplo: barba e bigode falsos, peruca e óculos escuros, até mesmo nas noites chuvosas. As pessoas que o conheciam se dividiam nas opiniões a seu respeito. Uns achavam que ele um cínico de marca maior. Outros apostavam que era doido mesmo.

     Nicolino Argeleu apreciava bastante exibir-se, principalmente perante as mulheres. Para aparecer diante delas, armava qualquer esquema, fazia qualquer negócio. Mas uma garota em particular chamava a sua atenção. Era a Lucimeire Maria, uma funcionária da prefeitura municipal, que residia a poucos passos de sua casa. Dele, Nicolino.

     Filho único e nascido aos sete meses em consequência de um acidente automobilístico sofrido pela mãe, o cara não trabalhava, mas andava bem vestido e perfumado. Vivia de polpudas rendas herdadas do pai, seu Ateneu Felisdório que, ao esticar as canelas, deixara inúmeros imóveis e outros investimentos financeiros junto a instituições bancárias.

      Dia após dia crescia a paixão do feioso Nicolino pela lindíssima Lucimeire. Milhões de cartas de amor, com propostas tentadoras de casamento, escrevera à moça que, certa ocasião, foi bastante sincera – eu diria terrivelmente cruel – ao respostar uma delas:

      “Prefiro a morte, por mais atroz que ela seja, a ter que me relacionar com você. Esqueça que eu existo!”

      Pensa que o Nicolino se abateu? Que nada! Aí, foi que ficou mais apaixonado pela garota.

      Penalizado com sua situação, seu único amigo de fé, o Aristóbulo Pinto, resolveu lhe oferecer ajuda:

      – Nico, tenho uma ideia infalível para amolecer o coração daquela garota…

     Nicolino alegrou-se. Seus olhos brilharam e ele pediu, cheio de esperança:

     – Me diz logo que ideia é essa, Ari.

     E o amigo:

     – Seguinte… toda mulher é apaixonada por música, é ou não é?

     – Verdade. Mas não me venha com o papo de que eu tenho que presenteá-la com um disco do Roberto Carlos, ou do Aguinaldo Timóteo…

     – Nada disso, rapaz! O presente será você mesmo! Sei que é bom de cantoria…

     – Ah, eu ajeito direitinho. Cantar é comigo mesmo!

     – E então, que tal você mostrar o potencial da sua voz ao pé da janela da garota? Pelo que sei, mulher alguma jamais resistiu a uma declaração de amor, cantada na própria voz do homem apaixonado… Que tal uma serenata?

     – Uma serenata! Belíssima ideia, Ari! Amanhã mesmo eu vou fazer uma serenata pra ela!

     – Ela vai gamar na hora, eu lhe garanto!

     Dia seguinte, o apaixonado Nicolino vestiu a sua melhor roupa, tomou um caprichado banho de loção “Buquê de Amor” e rumou para a porta da amada. Quando o relógio marcou meia-noite, ele dedilhou as cordas do violão, temperou a goela e mandou:

      – Acooorda minha bela enamorada/ debaixo desse luar encantador…

      Na sequência, Nicolino aplicou uma nota “dó”, seguida de outra nota “mi” e, quando estava completando a introdução da canção, bateu o azar: faltou luz na rua inteira e tudo ficou escuro que nem breu. Nessas condições a cantoria não poderia prosseguir, é claro. Quem já viu serenata na escuridão?

      Mas o intrépido Nicolino não se deu por vencido. Tirou o paletó, afrouxou o nó da gravata e, feito louco, propalou:

      – Essa desfeita da Ceal (na época a distribuidora de energia elétrica era a finada Ceal) não me impedirá de declarar o meu amor por você,  Lucimeire!

      Ato contínuo, tirou os sapatos e começou a subir no poste de iluminação pública. Ao alcançar o vértice, ponto terminal da sustentação dos fios elétricos, ele voltou a bradar:

      – Lucimeire, meu amor, como eu já disse, nada me proibirá de concluir minha serenata. Vou restabelecer a energia, ou não me chamo Nicolino Argeleu. Espere só um instantinho, enquanto eu modifico a corrente elétrica, um remendozinho só, e teremos a luz de volta.

      Na rua, a vizinhança inteira, coração na mão e na maior expectativa, aguardava o desfecho daquela atitude desvairada do Nicolino. A pessoa mais nervosa, entre as demais, era, justo, Lucimeire, que implorava:

      – Pare, Nicolino! Você já provou o seu amor! Desça, que eu estou lhe esperando aqui em baixo, de braços abertos.

      Ao escutar as palavras da amada, Nicolino emocionou-se. A tal ponto, que ficou sem saber onde colocar as mãos. Então, optou por apoiar-se no dispositivo propagador da alta tensão fixado no poste, sem imaginar que estava atraindo a própria morte. O que se ouviu, a seguir, foi uma explosão violentíssima, projetando fragmentos de fios e o corpo esturricado do infeliz Nicolino, a metros de distância.

 

 Em termos de comparações…

      Funcionária federal, a mulher do Galistênio foi transferida  para trabalhar em São Paulo. Depois de poucos dias, ela mandou um e-mail enigmático para ele, que permanecia em Maceió: “Por favor, me envie com urgência, documentos para providências a respeito do nosso divórcio. Encontrei um companheiro ideal. Ele possui as mesmas características do novo Vectra, da Chevrolet”.

     Estupefacto, Galistênio correu até a concessionária Chevrolet e perguntou ao vendedor quais eram as características do automóvel.

     – Tem um motor mais potente, é mais comprido e largo, portando é mais rápido na subida. É mais bonito e não bebe muito – explicou o vendedor.

     Galisteu compreendeu imediatamente o que sua mulher quis dizer. Duas semanas mais tarde, foi ela quem recebeu um e-mail do marido:

     “Mandei os documentos para o divórcio. Assine e devolva rápido. Encontrei companheira ideal. Reúne as características do novo Jeep”.

     Tomada de curiosidade, a mulher ligou para a concessionária Jeep, perguntando sobre o novo modelo. A vendedora que a atendeu, explicou:

     – É sensacional, senhora. É mais resistente, suporta mais peso, tem lubrificação automática. A carroceria nova é mais lisa e arredondada, o design é mais bonito e o interior é mais confortável. Possui duplo air-bag, é mais silencioso, não vaza óleo, o consumo é moderado e aceita engate na traseira.

 

Cor horrorosa!

     Dilminha, a bichinha, encontra uma velha colega:

     – Nooossa Mona!

     –  Que visual mais deprê! Você está destruída fofa! Que fi que te aconteceu?

     – Ai, linda, nem te conto, Tava me sentindo doente e fui ao médico. Imagine que ele me disse que estou com amarelão!

     – Aaaaaiiii!

     – O que foi?

     – Que cor medonha! Igual a daquela horrorosa seleção brasileira!